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A 'quase entrevista' com o presidente Joseph Kabila | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Para um jornalista, ter a chance de encontrar o presidente de um país mesmo sem ter procurado por isso pode parecer uma oportunidade boa demais para ser desperdiçada. É o sonho de um correspondente ou, pelo menos, eu pensei vagamente que fosse. Eu estava perambulando pelos corredores de mármore do palácio presidencial de Kinshasa, esperando por algo que, suspeitava, seria apenas uma explicação sem-graça sobre o encontro entre o presidente da República Democrática do Congo, Joseph Kabila, e alguns diplomatas da ONU que visitavam o país. Eles estavam conversando sobre o frágil acordo de paz no Congo e sobre a força de paz da ONU, que está tentando colocar uma ordem em tudo. Tapinha nas costas Então, recebi um tapinha nas costas. Virei-me para encontrar uma autoridade congolesa finamente vestida me perguntando se eu era Mark Doyle. "S... sim", respondi, desconfiado. "Que bom. Siga-me", disse ele, subindo uma escada de mármore. Virando de lado para ver se eu o seguia, o homem, num impecável terno parisiense, disse: "você pediu para ver o presidente Kabila, certo?" "S... sim", respondi, mentindo. Simplesmente não podia acreditar. Achei que havia tido uma confusão em algum lugar - e, como resultado, eu iria conseguir uma entrevista com o presidente do Congo mesmo sem ter pedido. Nós viramos para um dos lados no alto da escada e lá estava esperando por mim o presidente Joseph Kabila. Ele estava em pé perto do fim de um grosso tapete vermelho. Quando ele me viu, fez o gesto para que eu entrasse numa sala e, educadamente, deu um passo atrás para que eu fosse na frente. Ele tropeçou levemente na borda do tapete e, durante um terrível momento, achei que ele iria cair e bater a cabeça no chão de mármore. Aquilo poderia ter sido a deixa para que todas as armas do palácio - e há muitas - apontassem para mim. Felizmente, ele não caiu, mas outras coisas começaram a dar errado no meu plano. Entrevista "Muito obrigado, senhor presidente, por ter concordado com a entrevista", comecei, esperançoso. "Oh, eu não quero ser entrevistado, Mark", respondeu ele, me olhando com os olhos penetrantes e afastando o microfone. "Só quero ter uma palavra sobre o que você tem escrito sobre o Congo." Meu Deus! Eu estava sozinho numa sala com um homem poderoso que não parecia muito feliz comigo. Devo ter parecido preocupado, mas o presidente sorriu. "Veja só, Mark", ele continuou, usando meu primeiro nome como se fôssemos amigos por anos a fio. "Veja só, eu não fiquei muito feliz quando ouvi você dizer que a idéia de fazer eleições justas no Congo em seis meses era... o que mesmo você disse? Uma piada sem graça." Eu realmente disse isso em um artigo publicado no site da BBC. Eu estava citando fontes muito bem-posicionadas, mas realmente disse isso. E, infelizmente, o presidente pareceu ser um leitor do site da BBC. Mexendo-se na cadeira, ele apontou os olhos negros para mim e perguntou: "por que você diz isso, Mark?" Honestidade Eu engoli a seco e decidi dar uma resposta honesta. "Bem, eu só estive no leste do Congo por uma semana", comecei, "e é óbvio que o seu exército nacional ainda está dividido em facções opostas." "Não há notícia de força policial, exércitos de outros países ainda estão presentes na região, não há uma listagem dos eleitores em pontecial e, francamente, nessas circunstâncias, eu não vejo como o senhor pode realizar eleições justas em seis meses." "Mark", disse o presidente, usando mais uma vez o meu primeiro nome. "Você andou um pouco por aí e deve levar em conta algumas outras coisas." Foi quando eu entendi que o negócio de usar o meu primeiro nome não era apenas uma esperta tática de relações públicas feita para me enaltecer, mas um sincero sentimento da parte do presidente de que ele me conhecia porque me ouviu no rádio durante anos. Eu já experimentei isso antes. É uma prova do poder do rádio na África, onde muitas pessoas sentem que conhecem pessoalmente correspondentes porque os ouvem freqüentemente. "Veja" continuou o presidente Kabila. "Se você tivesse vindo aqui há dois anos, não havia processo de paz de maneira alguma e nós ainda estamos lutando no leste. As coisas não estão perfeitas agora, é claro, mas estamos fazendo progressos. Por favor, seja justo". "Mas isso ainda não significa", eu disse, "que eleições justas podem ser feitas em seis meses". Mas, espera aí, pensei na hora, o que estava acontecendo ali? Por que eu estava tendo esse debate privado com o presidente do Congo? Eu sou um jornalista e deveria estar gravando uma entrevista com ele. "É claro", eu disse, "é claro que nós seremos justos, mas será que eu pderia gravar uma pequena entrevista com o senhor dizendo isso? Vai levar apenas alguns minutos. Eu, então, posso usar a sua voz dizendo que o senhor pensa que houve progressos e..." "Não, obrigado, Mark", respondeu o presidente. "Eu estou cansado". "Mais tarde, então", eu implorei. "A qualquer momento, em qualquer lugar, apenas antes da minha partida amanhã cedo." Ele se entregou. "Está bem." Eu estava fascinado pela informalidade de tudo isso. "Está bem", disse o presidente do Congo. "Venha ao meu gabinete às sete horas amanhã cedo. Eu vou mandar alguém te pegar no hotel." Eu nunca consegui a entrevista. Meu avião decolou antes do esperado e minha mensagem ao presidente, pedindo um horário diferente, se perdeu nos canais protocolares, como acontece freqüentemente com mensagens a chefes de Estado. Mas se você estiver lendo esta reportagem, senhor presidente - Joseph -, será que podemos marcar a entrevista para uma outra hora? |
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