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América do Sul pende para a esquerda sem reviravoltas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A vitória do socialista Tabaré Vázquez, na eleição no Uruguai no domingo passado, levou analistas e políticos de esquerda a falarem sobre uma "nova América do Sul". Eles apontam que líderes de esquerda comandam três grandes economias – Brasil, Argentina e Venezuela – e agora predominam no resto da região. A única exceção é o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que permanece determinadamente pró-Washington e a favor de políticas econômicas de orientação claramente liberais. Além do mais, ambos presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, se saíram bem nas recentes eleições regionais. Candidatos pró-governo venceram em 20 dos 22 Estados da Venezuela e, no Brasil, o Partido dos Trabalhadores ganhou a maioria dos votos no país e dobrou o número de prefeituras que tinha em 2000 – embora tenha perdido São Paulo e Porto Alegre. Retórica inflamada Mas qualquer conversa de uma grande reviravolta na política sul-americana deve ser cautelosa. Primeiro, há grandes diferenças entre a nova onda de líderes e entre os próprios presidentes. A retórica inflamada e nacionalista de Chávez e sua política de gastos estão muito longe da cautelosa política fiscal de Lula e sua economia ortodoxa. Também, Vázquez deve ser, provavelmente, mais parecido com Lula do que com Néstor Kirchner, da Argentina. Embora Vázquez tenha sido vago sobre o que seu governo faria na frente econômica, analistas concordaram que é improvável que o Uruguai siga o caminho de Kirchner e dê um calote em sua dívida externa. O novo ministro da economia de Vázquez, Danilo Astori, já disse que será cuidadoso, já que a economia do Uruguai está muito vulnerável a choques externos. Em segundo lugar, há, geralmente, razões específicas de cada país para que certos candidatos se saiam tão bem. Mudança moderada No Uruguai, uma das razões para que Vázquez vencesse facilmente foi o desencantamento popular com os dois partidos tradicionais, os Colorados e os Blancos, que dominaram a política uruguaia por décadas. A rejeição a partidos tradicionais foi o maior fator no triunfo de Hugo Chávez, na Venezuela, e de Lucio Gutiérrez, no Equador, mas não no de Lula, em 2002. Em terceiro lugar, muitos dos líderes de esquerda na América do Sul não defendem mudanças sociais e econômicas profundas. Já se foram os dias do nacionalismo varrido, protecionismo e grandes reformas na propriedade. Muitos trabalham com o modelo de livre comércio, com maior ênfase no gasto social e iniciativas comerciais regionais.
Até o presidente Chávez, na Venezuela, nunca realmente ameaçou os interesses das empresas de petróleo que investem em seu país. O que os vencedores das recentes eleições no Uruguai, Venezuela, Brasil, Argentina e Equador têm em comum é uma clara rejeição a políticas econômicas apoiadas diretamente pelos Estados Unidos. Não é surpresa que tais candidatos devem se sair bem. Muitos economistas concordam que tais políticas devem trazer estabilidade, mas não reduziram a pobreza ou criaram muitos postos de trabalho. E isso é que mais preocupa a maioria dos latino-americanos. Em uma recente pesquisa conduzida pela organização chilena Latinobarómetro, foi constatado que o desemprego e a pobreza preocupavam mais os latino-americanos do que problemas políticos como terrorismo. E 71% dos entrevistados acreditavam que seus países eram "governados para o benefício de poucos interesses poderosos", mais do que "para o bem da população". |
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