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Eleição de Kerry mudaria 'muito pouco', diz novo livro | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O que muda na política americana se o candidato democrata, o senador John Kerry, derrotar o atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush? "Muito pouco", responde John Micklethwait, um dos autores do livro The Right Nation, Why America is Different, que acaba de sair na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. O livro ainda não saiu no Brasil e o título pode ser traduzido como "A nação de direita, por que os Estados Unidos são diferentes". Micklethwait é o editor de América da revista The Economist e o outro autor, Adrian Wooldridge, é correspondente da revista. O principal argumento do livro é que o eixo central do debate político nos Estados Unidos atualmente está na direita do espectro, bem distante do liberalismo dominante nos anos 1950 e 60. Segundo eles, é errado dizer que a maioria dos americanos são de direita, mas as pesquisas de opinião mostram que 41% se identificam como conservadores e apenas 19%, como liberais. Conservador light Para atender essa sociedade predominantemente conservadora, segundo eles, o Partido Democrata teve que se mover para a direita. Em seus dois mandatos o ex-presidente americano Bill Clinton, disse Micklethwait em entrevista a BBC Brasil, não conseguiu fazer mais do que um governo "conservador light". Agora, se eleito, argumenta ele, Kerry não vai aderir a acordos internacionais como o Tratado de Kyoto ou o Tribunal Penal Internacional, nem mudar muito a "guerra ao terrorismo". Para Micklethwait, Kerry deve se limitar a mudar a posição do governo dos EUA em questões de direitos civis, como o aborto. Micklethwait e Wooldridge são autores de quatro livros, três deles editados no Brasil: "Bruxos da Administração", "Companhia – A Breve História de uma Idéia Revolucionária" e "O Futuro Perfeito". A seguir a entrevista de Micklethwait para a BBC Brasil. BBC Brasil - O que faz os Estados Unidos diferentes de outros países desenvolvidos? John Micklethwait - Basicamente, os EUA são um lugar mais conservador do que outros países desenvolvidos e os europeus. Se olharmos para qualquer medida de política, qualquer julgamento básico do tamanho do governo, atitudes em relação a impostos, tamanho de governo, assuntos culturais, crime e castigo, a América está simplesmente mais à direita. Isso não quer dizer que todos os americanos são conservadores, apenas quer dizer que o centro do debate nos Estados Unidos está mais à direita. Se olharmos para crime e castigo, por exemplo, vamos ver que a América manda cinco vezes mais pessoas para a prisão do que a Grã-Bretanha, e a Grã-Bretanha é a área que tem o sistema mais duro de condenações na Europa. Os Estados Unidos, pelo menos em questões culturais, estão mais próximos de um país em desenvolvimento, têm um senso forte de religiosidade e grandes áreas de desigualdade. Por baixo de tudo está esse simples fato de que é um país mais conservador. E achamos que é mais conservador porque tem esse enorme movimento conservador, essa Nação da Direita, de que falamos em nosso livro. BBC Brasil - Isso está relacionado à história dos Estados Unidos, ao fato de ser uma sociedade mais individualista? Micklethwait - Há duas coisas que estão puxando esse movimento conservador. O primeiro é simplesmente história. A América começou com Deus e riqueza, desde o princípio. Foi fundada por empresas, por igrejas. Então, isso sempre esteve entranhado em seu DNA. Mas o fenômeno mais recente do movimento conservador data da metade do século passado, nos anos 50 e 60. Naquela época, a idéia de alguém se chamar de conservador era estranha. Certa vez Dwight Eisenhower, presidente republicano (1953-61), foi chamado de conservador. Ele imediatamente disparou de volta, com fúria, ‘não, sou um liberal como todo o mundo’. Nos anos 60, toda a elite era liberal, não havia inteligentzia conservadora ou movimento conservador. Isso mudou dramaticamente e pode ser visto no governo Bush. BBC Brasil - Por que mudou? BBC Brasil - Mudou, em parte, por causa das reações às mudanças nos anos 1960. Nos anos 1960, a América liberal se sobrepôs, de forma geral. Uma coisa que as pessoas falam muito hoje é que aconteceu no Sul. A América mudou os direitos civis, que deram aos negros muito mais poder, de forma justificável, mas isso provocou a ira de alguns conservadores brancos do Sul que, por isso, mudaram de lado, do partido democrata, onde eles estavam, para os republicanos. Mas, de forma geral, acho que foi apenas o fato de que os democratas e a elite liberal, como era percebida, forçaram uma série de mudanças em diferentes áreas, relacionadas com pornografia, aborto, desigualdades e coisas assim. E isso irritou conservadores na classe média branca de tal forma como nada antes tinha feito. E isso, mais uma infusão de novas idéias sobre economia e outros valores começaram a criar algo novo na América. BBC Brasil - Em que Ronald Reagan e Margaret Thatcher seriam diferentes? Micklethwait - Não havia muita diferença entre Reagan e Margaret Thatcher. A verdadeira grande diferença vem entre Margaret Thatcher e outras formas de conservadorismo na Europa. Margaret Thatcher era, de muitas maneiras, uma conservadora americana, mas o problema é que ela nasceu em Grantham (cidadezinha no leste da Inglaterra) e não em Houston. O tipo de credo que ela pregava realmente tinha valores semelhantes ao dos conservadores americanos, mas olhe para a Europa agora. É muito difícil encontrar ‘thatcherites’, eles foram empurrados e hoje estão fora do Partido Conservador moderno, que não é mais o mesmo que foi na época. Ela realmente compartilhou algumas características do reaganismo, como otimismo em relação ao futuro, a idéia de que tecnologia era algo bom e a anti-hierarquia da direita americana. Mas ela era mais a exceção do que a regra. E isso fica mais claro agora se compararmos os dois partidos (os conservadores britânicos e os republicanos americanos). BBC Brasil - Os conservadores nos EUA ainda estão mais próximos de Reagan? Micklethwait - Os conservadores nos EUA ainda olham para Reagan como o santo padroeiro, como um grande homem, mas há diferenças notáveis entre Reagan e Bush. Reagan era certamente um conservador quando se fala de impostos, aumentar as Forças Armadas, mas na área de assuntos sociais, ele era muito mais flexível. Ele era um relaxado divorciado de Hollywood. Ele fez algum movimento contra aborto, mas na verdade assinou a lei mais generosa sobre aborto nos Estados Unidos, na Califórnia, quando ele era governador. Ele não gostava da idéia de ir contra direitos de gays e coisas assim. Se olharmos para Bush, ele tem uma agenda muito mais abrangente em relação ao conservadorismo social. Ele é um cristão muito mais comprometido com sua religião do que Reagan era, pessoalmente. Mais do que isso, ele é muito mais inclinado a dar algo aos conservadores em seu governo. E isso mostra diferenças entre Bush e Reagan, mas mostra também que, em alguns aspectos, o Partido Republicano foi se tornando mais conservador nos EUA. Micklethwait - O liberalismo, as idéias liberais são algo do passado nos EUA? Micklethwait - Isso é ir muito adiante, mas elas foram empurradas para trás de forma bastante dramática. As idéias conservadoras estão na frente. O que acontece se Kerry for eleito? É inteiramente possível que John Kerry ganhe a próxima eleição. Mas isso é devido em grande parte ao fato de que Bush está em meio a uma guerra impopular e com uma economia que ainda não se recuperou totalmente. E é difícil ganhar eleição com esse cenário. A questão mais interessante é se Kerry ganhar, o quanto ele pode mudar essa mentalidade conservadora predominante nos EUA no momento. E acho que a resposta é: muito pouco. O exemplo mais óbvio. Olhe para as grandes causas de desentendimento entre os EUA e outros países. John Kerry não vai levar os EUA para o Protocolo de Kyoto (sobre redução de gases do efeito estufa) de nenhuma maneira realista. Ele não vai entrar para o Tribunal Penal Internacional. Não vai mudar a atitude em temas como Palestina-Israel, não vai realmente mudar muitas coisas no Iraque. Ele vai manter as tropas americanas lá e vai seguir a agenda de Bush lá, de forma geral. E em coisas mais profundas do que isso, acho que Kerry não está tentando reinventar o liberalismo americano da mesma forma que algumas pessoas acham que Bill Clinton fez. Ele está simplesmente tentando só seguir, de forma geral, a mesma agenda de Bush, exceto em coisas sociais, como aborto. E no fato de que ele não será Bush. Ele não será uma mudança substancial de rumo. É mais uma adaptação. BBC Brasil - O livro diz que o governo Bush transformou o Partido Democrata em algo como um Partido anti-Bush... Micklethwait - O que Bush fez, para melhor ou pior, foi tomar a iniciativa e empurrar para trás o Partido Democrata. Obviamente pode haver um recuo se ele perder a eleição, o que pode acontecer, mas no que diz respeito à iniciativa nos EUA, se olharmos para a política externa, coisas como ação preventiva, essas são coisas que os democratas tiveram que aceitar. Se olharmos para a agenda doméstica, coisas como cortes de impostos, Kerry está prometendo rescindir uma pequena parte do corte de impostos, mas não muito. Não há uma luta séria da esquerda nos Estados Unidos em termos de idéias. Tem certamente uma luta séria em termos de ódio e fúria contra Bush, mas não em termos de se apresentar, na verdade, uma alternativa positiva em relação ao que ele vem fazendo. BBC Brasil - O que vocês argumentam é que idéias como uma sociedade mais igualitária não estão mais na agenda dos americanos? Micklethwait - Os democratas certamente diriam que eles estão lutando por uma sociedade mais igualitária. Kerry está propondo ampliar a cobertura do serviço de saúde. Mas ainda assim, pelos padrões de qualquer país europeu, a proposta é uma visão muito mais conservadora do que qualquer partido conservador na própria Europa. Não é atendimento global de saúde como nós esperaríamos. A questão em relação à igualdade é fundamentalmente que os americanos não querem ser tão igualitários quanto a Europa ou outros países. Se perguntarmos para que serve o governo, se para fornecer a liberdade para que cada um cuide do próprio destino ou para tornar as coisas mais iguais e criar uma rede de segurança social. Bem, os europeus e outros não-americanos tendem a ir para a segunda e os americanos, para a primeira. E essa diferença fundamental em atitude é muito difícil de mudar. BBC Brasil - Não existe uma contradição no fato de que, embora os republicanos defendam um Estado menor, Bush criou déficit público nos Estados Unidos? Micklethwait - Há uma tensão no governo de Bush que descrevemos como conservadorismo de grande governo. Bush assumiu falando em governo menor e corte de impostos, e fez metade disso. Ele cortou impostos, mas aumentou os gastos enormemente e é por isso que há déficit. Ele diz que teve que aumentar gastos por causa do 11 de Setembro (de 2001, dia dos atentados em Nova York e Washington). Isso é verdade, mas só até um certo ponto. Uma parcela enorme de gastos novos não teve nada a ver com o 11 de Setembro. Parte tem a ver com objetivos sociais, como educação, saúde. Ele pôs dinheiro em ambos. Mas uma parte tem a ver com as corporações. Pode se ver isso na Farm Bill (lei que aumentou os subsídios agrícolas nos EUA), Energy Bill (lei que regulamenta o setor de energia) e até certo ponto pode se ver nas reformas de seguro saúde. Diferentemente de Reagan, que era mais disposto a vetar projetos, Bush é muito menos entusiasmado a fazer isso. Nossa suspeita é que Bush gosta da idéia de governo. É uma forma de repensar o que aconteceu nos anos 1960. Nos anos 1960, os liberais acreditavam que se podia usar o governo para fins liberais. Algumas pessoas ao redor de Bush, e até mesmo Bush até um certo ponto, acreditam que se pode usar o governo para fins conservadores. Governo não é necessariamente algo ruim se for usado para os fins que consideram corretos. BBC Brasil - Tradicionalmente republicanos são defensores de livre comércio, mas esse também não foi o que Bush fez, não? Micklethwait - Foi uma decepção em comércio, certamente para a minha revista, The Economist. Sempre houve uma fração dentro da direita, do país de direita de que falamos, que sempre teve suas suspeitas em relação ao livre comércio. Pode se ver isso mais claramente na personalidade de Pat Buchanan (ex-candidato republicano à Presidência americana). Mas de forma geral, o próprio Bush sempre pregou o evangelho do livre comércio. E o fato básico é que, quando ele estava contra a parede em 2002, ele impôs tarifas ao aço, em parte, acho, para ganhar votos do setor em Estados divididos nas eleições de mid term. Talvez pior do isso, ele fez aprovar a Farm Bill, que tornou ainda mais difíceis as negociações comerciais mundiais. No momento, ele ainda está com uma linguagem muito mais de livre comércio do que John Kerry. BBC Brasil - Mas não existe muita diferença? Micklethwait - Há menos diferenças do que deveria haver. Penso que Bush veio como um defensor do livre comércio e ele manchou esse currículo. BBC Brasil - Vocês argumentam no livro que mesmo Clinton, nos dois mandatos, fez governos ‘conservadores light’... Micklethwait - Sim. Se quisermos olhar para o poder do país de direita, temos que olhar para o governo Clinton. Ele era, provavelmente, o maior assassino do conservadorismo de sua geração. Um político fantástico, ele posicionou o Partido Democrata de forma quase perfeita. E ainda assim, ele tentou levar adiante uma agenda liberal, como direitos de gays, programas de saúde, que não passaram. E no final os seus grandes feitos, fundamentalmente, foram conservadores. Ele reduziu drasticamente o déficit, em um momento em que reduzir o déficit era visto como um objetivo conservador. Ele cortou gastos do governo. E no final tinha-se o Partido Democrata, talvez a arma mais poderosa dos americanos liberais, sendo subvertida pelo país de direita. BBC Brasil - Os dois extremos do expectro político nos EUA podem ser encontrados em San Francisco e no Estado de Illinois? Micklethwait - Se você for a San Francisco, difilmente vai achar um conservador. O parlamentar da região de subúrbios e zona rural de Illinois é presidente do Senado (Republicano). Em San Francisco, o parlamentar é democrata, líder da oposição. São distritos totalmente diferentes. San Francisco é uma cidade vertical, sobe para o céu. A área rural e suburbana de Illinois é horizontal, com ruas e mais ruas com casas de família. E fundamentalmente eles têm valores diferentes. San Francisco, até um certo ponto, é uma base muito mais desigual. E é uma região muito mais liberal, tem benefícios muito mais generosos para os que pedem esmolas, é muito mais inclinada a mandar congratulações para a França durante a guerra do Iraque. Em contraste, Illinois é a região de famílias e igrejas. E essa é a parte dos EUA que vota nos republicanos. E é importante notar que os conservadores não são as pessoas que estão sempre lutando contra mudanças. Não são. Procure as áreas onde os EUA estão crescendo, onde há mudanças, e com muita frequência são as áreas onde os conservadores estão crescendo. BBC Brasil - Por que vocês dizem que não é que a maioria dos americanos sejam conservadores, mas sim que a maioria dos eleitores são conservadores? Micklethwait - Certamente seria errado dizer que a maioria dos americanos é conservadora. As pesquisas recentes mostram que 41% dos americanos se definem como conservadores. Mas isso é uma quantidade enorme quando comparados aos 19% que se definem como liberais. Os conservadores começam com uma base muito maior e, em cima disso, eles têm capacidade de ampliação, particularmente em eleições, por conseguirem votos entre pessoas que são conservadoras, sem pensar muito a respeito. Eles podem nem gostar do termo. Por exemplo, os libertários que não gostam das idéias conservadoras de não aborto ou sobre direitos de gays, mas também não gostam de muito governo. Então, eles ficam horrorizados com os democratas. Fundamentalmente, os conservadores americanos são muito mais organizados. BBC Brasil - Quem tem mais chances, Bush ou Kerry? Micklethwait - Vou dar uma resposta patética. Eu ainda acho que Bush provavelmente vai ganhar. Mas tenho que ter a honestidade de dizer que o co-autor do livro está ainda mais convencido de que Kerry vai ganhar. Puramente porque a guerra é impopular e a economia ainda não está realmente em retomada. E nesse cenário é muito difícil para Bush ganhar. Mas acho que isso não importa realmente, porque os Estados Unidos vão continuar sendo um país conservador e ainda terão um Congresso conservador. BBC Brasil - O que muda nas relações com os aliados europeus se Kerry ganhar? Micklethwait - Quando se fala com as pessoas ao redor de Kerry, elas dão pistas, tanto quanto possível, que os aliados europeus disseram a eles que querem a vitória de Kerry. E acredito que isso seja verdade. É muito difícil encontrar um europeu pró-Bush. É claro que a figura de Kerry é muito mais amigável, muito mais inclinado a organizações multilaterais. Mas certamente ele não está fundamentalmente dizendo que se tiver a escolha de os EUA irem sozinhos ou com a ONU, ele não vai sozinho. Ele também não está dizendo, quando a questão são os tratados, que vai fazer coisas o que os europeus gostariam que ele fizesse para provar que realmente ele é parte da ordem multilateral. Não terá grosseria na sua frente, como muitos europeus percebem no governo Bush, mas ainda terá um abismo fundamental. BBC Brasil - Haverá mudanças na guerra ao terrosimo? Micklethwait - Acho que pode haver mudanças marginais, mas não fundamentais. Ele disse que também percebe como guerra ao terrorismo, ele também disse que apóia firmemente Israel, ele também quer levar democracia ao Oriente Médio. Ele também quer atacar terroristas de forma bastante agressiva em qualquer lugar que encontrar. Haverá nuances, mas em temas fundamentais não será tão diferente. BBC Brasil - Tudo isso porque, fundamentalmente, os EUA são um país de direita? Micklethwait - Sim. John Kerry terá que conviver com esse país por um longo tempo. Kerry tem uma grande característica liberal, no sentido de que ele é provavelmente o único político democrata na linha de frente nos Estados Unidos que ainda se opõe à pena de morte. Isso é provavelmente sua característica liberal mais óbvia, mas ele também teve que fazer acomodações com o país de direita na maioria das questões e ele terá que fazer isso de novo como presidente, particularmente porque ele terá um Congresso republicano. Os Estados Unidos têm dentro de si esse país de direita e Kerry tem que prestar atenção a isso, do contrário enfrentará problemas eleitorais em casa. |
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