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Pobreza e desemprego atingem Estado-chave nos EUA | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Ohio, o Estado considerado por analistas como um dos mais importantes, ou mesmo o mais importante, nestas eleições presidenciais nos Estados Unidos, registra alguns dos piores dados econômicos do país. Em Cleveland, a maior cidade do Estado, dados recentemente divulgados pelo Departamento de Estatísticas dos Estados Unidos indicam que 31% de seus moradores vivem abaixo da linha de pobreza. O desemprego acima de 12% também está entre os mais altos dos Estados Unidos. No ano 2000, o presidente Bush levou Ohio com uma pequena diferença de 4% sobre o democrata Al Gore. Mas, desde então, quase 250 mil empregos foram perdidos no Estado, aumentando a insatisfação da população e as esperanças dos democratas. Apesar disso, a segurança aparece como a maior preocupação dos eleitores de Ohio. Ohio é um bom exemplo dos movimentos econômicos que elevaram muito nos últimos tempos a resistência dos americanos a qualquer idéia de livre comércio. As usinas de aço que antes faziam da economia local uma das mais bem sucedidas dos Estados Unidos estão sofrendo com a concorrência do aço estrangeiro - inclusive o brasileiro. Outras indústrias locais se mudaram para países em desenvolvimento onde trabalhadores qualificados custam muito menos. Impostos Enquanto o livre comércio é hoje criticado pela grande maioria dos eleitores e sugestões protecionistas vêm tanto de democratas quanto de republicanos, um outro tema divide bem mais os eleitores: os impostos. Para alguns, é papel do governo aquecer a economia e cobrar impostos para prestar serviços sociais e atender a sociedade. De modo geral, este é o clássico ideário democrata. Para outros, o Estado tem apenas que não atrapalhar e devolver impostos para que cidadãos e empresas possam gastar e aquecer a economia, princípios que costumam guiar os republicanos. "Não sei até que ponto o governo tem como controlar isso porque a economia é feita de ciclos. Acho que estamos agora passando por uma ressaca provocada pelos investimentos exagarados nas empresas de internet que não foram para a frente. É só o governo não atrapalhar e devolver o dinheiro (dos impostos) que as coisas voltam ao normal", disse Trevor Davis, funcionário de uma pequena empresa na cidade de Columbus e que vai votar no presidente Bush. Para ele, a cidade de Columbus prova que a tendência do Estado ruma para o equilíbrio. É verdade que a cidade perdeu empregos com o fechamento de diversas usinas que foram para o exterior, mas por outro lado também ganhou vagas com a chegada de outras que vieram se instalar nos Estados Unidos, como a Honda, que recentemente abriu uma montadora de carros na cidade. "Algumas empresas vieram para cá e muita gente conseguiu esses empregos. Mas parte dos operários que foram demitidos das usinas não podem trabalhar nestas fábricas mais modernas porque não tem qualificação para isso. No fim, eles acabam tendo de ir trabalhar fritando hambúrguer", discorda a mulher de Trevor Davies, Kay Davies, que trabalha com serviço social e que, ao contrário do marido, vai votar em Kerry. Na casa deles, cada um colocou o cartaz de seu candidato no jardim. "Pessoalmente não estamos sentindo os problemas na economia, mas é só ver a falta de dinheiro para saúde pública e educação que fica claro que a economia como um todo está passando por uma situação muito séria", opina Kay.
"Os cortes de impostos de Bush só ajudaram os ricos. É a classe média deste país que tem de ser ajudada. É a classe média que carrega os Estados Unidos e nós somos esquecidos", reclama. "Não é verdade", responde Trevor Davies. "A classe média também recebeu dinheiro de impostos de volta. Se não fosse o corte de impostos nós não teríamos ido para a Europa no ano passado." Desemprego A Ramco - uma empresa que empregava cerca de 600 pessoas produzindo equipamentos industriais de aquecimento num subúrbio de Columbus - demitiu na semana passada quase todos os seus funcionários para se mudar para a China e continuar, de lá, a fornecer seus produtos ao mercado americano. "Havia uma funcionária que trabalhava aqui há 50 anos e foi demitida na semana passada. Eu trabalho aqui há sete anos e todo dia eu a via chegar e estacionar o carro bem aqui na frente da guarita. Agora, é estranho chegar de manhã e ver que ela não chega mais", disse um segurança da fábrica, onde há atualmente apenas cerca de 70 pessoas encerrando as operações. Depois de alguma relutância, o segurança aceitou conversar um pouco com a reportagem, mas apenas sob o compromisso de que seu nome não fosse revelado. Todos os funcionários receberam orientação de não fazer comentários com a imprensa.
Para ele, a culpa de todos os problema é do livre comércio. "Morei por muitos anos no Canadá e tudo por lá era muito bom até que começaram a abrir (o comércio internacional) também. Cada país deveria cuidar de produzir o que seu povo precisa", disse. Uma funcionária da manutenção, que trabalha na empresa há 36 anos, disse esperar que o pagamento final que ela vai receber da empresa dure até a hora de se aposentar. "Falta um ano para eu me aposentar e com 59 anos eu não vou achar outro emprego. É horrível o que está acontecendo com a gente. Espero que meu filho termine a faculdade e consiga um emprego melhor", diz. Pobreza Se em Columbus, a capital de Ohio, a situação é de relativo equilíbrio, em Cleveland, entre os operários que trabalhavam em diversas usinas de aço que fecharam na cidade, George W. Bush não desperta muita simpatia.
"Bush nunca fez nada pelos trabalhadores. Estes impostos que ele cortou foram para os ricos e nós não recebemos nada", reclama Mike Allan enquanto tomava um cerveja com uma amiga operária, também desempregada, num bar da cidade. "Para nós, o que o governo ofereceu foi a devolução de impostos de US$ 1 mil para quem tiver filhos. Agora vou ter de engravidar para ter um corte de impostos", completou Rosie, que preferiu não dar o sobrenome. Para eles, além do presidentre, a culpa é do livre comércio. "Os Estados Unidos não precisam de ninguém. Podemos produzir aqui tudo o que precisamos. Olha só aquele sinal na parede", disse Allan apontando para um grande placa com as palavras "Made in USA" (Fabricado nos EUA) que decora o bar. "Quando eu era criança, tudo era feito aqui nos Estados Unidos. Agora vem tudo do Japão, de Taiwan, da Coréia. Um inferno", completa. Consumo Alguns economistas, no entanto, chamam a atenção para o fato de que a transferência de indústrias tira emprego dos americanos por um lado, mas permite que as empresas possam forenecer produtos baratos - bem mais baratos do que o que poderiam produzir se tivessem de pagar altos salários americanos - para saciar a sede de consumo da classe média do país. "Nossa sociedade tem uma visão muito distorcida do dinheiro e do materialismo. Talvez as coisas sejam assim mesmo, mas eu não gosto. Não me incomodaria de comprar menos coisas se soubesse que isso vai ser bom para minha comunidade e para os trabalhadores do país", opina a estudante de direito Aly Terrel. "Pessoalmente continuo trabalhando, mas todo este desemprego está acabando com nossas comunidades. Isso não faz bem para a saúde mental das pessoas", diz Sarah Straley. Ela trabalha em um ONG e se classifica de "socialista" mas vai votar em Kerry este ano por considerá-lo "o menor de dois males." |
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