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Atualizado às: 05 de setembro, 2004 - 07h05 GMT (04h05 Brasília)
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Putin usa discurso para defender sua política na Rússia

Vladimir Putin e parentes de vítimas em Beslan
O presidente Putin visitou a Ossétia do Norte no sábado
Como o esperado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, respondeu à morte de crianças na Ossétia do Norte declarando que não vai haver rendição à Chechênia.

Ele parecia um tanto aflito em seu discurso na televisão, e não era para menos.

Putin tinha acabado de visitar os sobreviventes e de passar pelo local do incidente, onde ele conseguiu presenciar a realidade de uma política que não trouxe a segurança que ele prometeu.

Mas ele não se rendeu e fez as duas coisas que deveria ter feito.

Culpados

Ele colocou toda a culpa pela tragédia nos seqüestradores, sugerindo que ele cumpriu a promessa de não ferir as crianças.

Ele também fez a acusação prevista de que terroristas estrangeiros estavam envolvidos no incidente. "Nós estamos lidando com uma intervenção direta do terror internacional contra a Rússia, com uma guerra total, cruel e poderosa", disse ele.

E ele declarou que não havia outro jeito de lidar com a Chechênia, descartando qualquer sugestão de que uma mudança na política poderia ser um avanço.

Putin anunciou que as medidas de segurança serão reforçadas, com uma reestruturação das forças de segurança, melhor gerenciamento de situações de crise (provavelmente já pensando em outros ataques) e controles mais rígidos das fronteiras.

Nostalgia

Ele falou quase que nostalgicamente sobre os velhos tempos de rígidos policiamentos de fronteiras na União Soviética.

"Nosso país, que costumava ter o sistema de defesa mais forte de fronteiras externas, de repente se tornou desprotegido tanto no oeste quanto no leste", disse ele.

E se em algum momento ele admitiu sua falha, foi quando ele disse que não foi rígido o suficiente.

"No geral, nós temos de admitir que não compreendemos a complexidade e o perigo do processo que estava emergindo em nosso país e em todo o mundo. Não soubemos como reagir da maneira apropriada. Mostramos fraquezas diante do perigo e os fracos apanham."

Al-Qaeda

Seu discurso aconteceu mais ou menos como o previsto por analistas, que disseram que Putin defende tanto sua política de recusar a dar independência à Chechênia, que ele tem pouco espaço para mudar.

"Ele pode usar o incidente como vantagem e fazer uma defesa agressiva de sua posição", disse Sean McGough, do Departamento de Política da Universidade de Birmingham.

"Esse ataque foi uma declaração de guerra contra a Rússia. A crueldade aumentou nos incidentes recentes, e esse último atingiu a coisa mais querida para os russos - a segurança de suas crianças", disse McGough à BBC.

"O presidente Putin terá uma boa defesa se ele culpar os seqüestradores. Ele pode argumentar que, com tais pessoas, não pode haver compromisso e que eles devem ser enfrentados e derrotados."

"Para começar, ele pode tentar descobrir elementos terroristas na própria Rússia, o que pode significar uma política de segurança mais rigorosa. Ele pode usar isso para adotar restrições. Internacionalmente, ele provavelmente vai apresentar o caso da Rússia com mais vigor e alegar que os chechenos têm ligação com a Al-Qaeda", afirmou ele.

Causa comum

Certamente, o seqüestro de crianças vai fazer com que os rebeldes chechenos percam a simpatia que existia por eles no mundo todo.

E isso vai ajudar os argumentos da Rússia. O país conseguiu ligar a sua crise interna à guerra liderada pelos Estados Unidos contra a Al-Qaeda. O presidente Putin adotou uma causa comum à do presidente Bush.

Rapidamente, a Casa Branca expressou simpatia pela Rússia, chamando o cerco à escola de "barbárie".

A defesa de Putin precisava ser boa. Ele chegou ao poder e foi reeleito com a promessa de que traria calma para a Chechênia e segurança para os russos. E ele não pode dizer que conseguiu cumprir essas promessas.

Futuro

Mas líderes cuja política de lidar com o terrorismo falha não são necessariamente punidos. Em momentos de perigo, as pessoas normalmente apóaim o líder. Um exemplo é o caso do primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon.

Um opção, que parece improvável devido ao choque do momento, poderia ser a Rússia tentar recomeçar um diálogo com chechenos com posições mais moderadas, como Aslan Maskhadov, que disse que suas forças não estavam envolvidas na invasão à escola em Beslan.

Várias vezes ele já disse que poderia abrandar os pedidos da Chechênia por independência se os russos colocassem um fim à ocupação militar na região.

Mas até o momento, Maskhadov é visto por Putin como mais um terrorista.

"Provavelmente agora haverá um longo período de debate e discussão sobre a Chechênia", disse McGough.

Para ele, "o problema é que os chechenos brigam até entre eles, e não há uma pessoa que possa falar pela maioria. Se houver um novo processo de paz, os membros radicais provavelmente vão brigar cada vez mais para destruir esse processo. E poderá haver até mais atrocidades".

"A longo prazo, a questão de a Rússia simplesmente tirar suas forças militares da Chechênia pode ser considerada, mas ainda é cedo, e essa será a decisão mais difícil que Putin deverá tomar, considerando que sua própria reputação estará em jogo."

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