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Atualizado às: 08 de abril, 2005 - 08h17 GMT (05h17 Brasília)
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Leia a íntegra do testamento do papa
Papa acena para multidão em estádio de Nova York, em 1979
Papa acena para multidão em estádio de Nova York, em 1979
Testamento de 6 de março de 1979 (e adendos sucessivos)

Totus Tuus ego sum ["Sou todo Teu", em latim].

Em nome da Santíssima Trindade. Amém.

"Seja vigilante porque você não sabe em que dia o Senhor virá" (Mateus 24, 42). Essas palavras me fazem lembrar do chamamento final, que virá no momento que o Senhor escolher. Eu desejo segui-Lo e desejo que tudo que é parte da minha vida terrena me prepare para este momento. Eu não sei quando ocorrerá, mas, como todo o resto, eu coloco também este momento nas mãos da Mãe do meu Mestre.

Nas mesmas mãos maternais, eu deixo tudo e todos que sejam ligados à minha vida e à minha vocação. Nessas mãos eu deixo sobretudo a Igreja, e também a minha nação e toda a humanidade. Eu agradeço a todos. A todos eu peço perdão. Eu também peço por orações, que a misericórdia de Deus supere a minha fraqueza e indignidade.

Eu não deixo para trás nenhuma propriedade da qual deveria dispor. Em relação aos objetos de uso diário que me serviam, eu peço que eles sejam distribuídos como for apropriado.

As minhas notas pessoais devem ser queimadas. Eu peço que o dom Stanislaw (Dziwisz, secretário particular de João Paulo 2º) supervisione isso, e eu agradeço a ele pela colaboração, ajuda e compreensão ao longo dos anos.

Todos os outros agradecimentos, por outro lado, eu deixo no meu coração perante Deus, porque é difícil expressá-los.

Quanto ao funeral, eu repito as mesmas determinações que foram dadas pelo Santo Padre Paulo 6º. (Aqui foi encontrada uma nota à margem: “uma sepultura na terra, não no sarcófago”, 13/3/1992)

“apud Dominum misericórdia et copiosa apud Eum redemptio” (na casa do Senhor, misericórdia e grande é a redenção nela)

Roma, 6 de março de 1979
Depois da minha morte eu peço Santas missas e orações.
5 de Março de 1990

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(Página sem data)
Expresso a mais profunda fé de que, apesar de todas as minhas fraquezas, o Senhor vai me dar toda a graça necessária para enfrentar, de acordo com Sua vontade, qualquer dever, prova e sofrimento que ele pode pedir ao seu servidor durante a vida. Eu também tenho fé de que Ele nunca vai me permitir trair as minhas obrigações nesta Santa Sé de Pedro por qualquer um dos meus atos – palavras, trabalhos ou omissões.

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24 de fevereiro a 1º de março de 1980
Ainda durante esses exercícios espirituais, refleti sobre a verdade do Sacerdócio de Cristo na perspectiva da passagem que para cada um de nós é o momento da própria morte. Da partida deste mundo – para nascer no outro, o mundo do futuro, do qual a Ressureição de Cristo é um sinal eloqüente. (o papa depois acrescentou “decisivo”).

Li a transcrição do meu testamento do ano passado, feita também durante os exercícios espirituais - eu comparei com o testamento do meu grande antecessor e padre Paulo 6º, com aquele sublime testemunho da morte de um cristão e de um papa – e eu renovei em mim mesmo a consciência das questões às quais o testamento de 6/3/1979 preparado por mim (de forma provisória) se refere.

Hoje quero apenas acrescentar isso, que todos devem estar conscientes da perspectiva da morte. E é preciso estar pronto para se apresentar diante do Senhor e Juiz – e ao mesmo tempo, Redentor e Pai. Portanto, eu também levo isso em consideração freqüentemente, confiando aquele momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja – a Mãe da minha esperança.

Os tempos em que nós vivemos são indescritivelmente difíceis e atribulados. Difícil e tensa também se tornou a vida da Igreja, característica desses tempos – tanto para os fiéis como para os pastores.

Em alguns países (como por exemplo aquele sobre o qual li a respeito durante os exercícios espirituais), a Igreja se encontra em um período de perseguição que não é inferior àqueles dos primeiros séculos; de fato, o grau de crueldade e ódio é ainda maior. 'Sanguis martyrum sémen christianorum' (o sangue dos mártires é a semente da cristandade). E além disso, tantas pessoas desaparecem inocentemente, mesmo neste país, em que vivemos...

Desejo mais uma vez entregar-me totalmente à misericórdia do Senhor. Ele próprio vai decidir quando e como devo terminar a minha vida terrena e o meu ministério pastoral. Na vida e na morte 'Totus Tuus' através da Imaculada. Aceitando desde já esta morte, eu espero que Cristo me dê as graças para a última passagem, que é a (minha) Páscoa. Eu também espero que isso seja útil na mais importante causa que eu desejo servir: a salvação da humanidade, a salvaguarda da família humana, incluindo todas as nações e povos (entre os quais me volto particularmente para a minha Pátria na terra), e que também seja útil para as pessoas que me confiaram questões referentes à Igreja e para a glória de Deus mesmo.

Não desejo acrescentar nada ao que eu escrevi há um ano - apenas expressar aquela disposição e ao mesmo tempo aquela fé, à qual os espíritos espirituais me levaram novamente.

João Paulo 2º

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5 de março de 1982

Totus Tuus ego sum

Durante os exercícios espirituais deste ano, li (várias vezes) o texto do testamento de 6 de março de 1979. Apesar de eu a ainda agora considerá-lo provisório, vou deixá-lo na forma atual. Não vou mudar nada (por enquanto) e não vou acrescentar nada também no que se refere às disposições nele contidas.

O atentado contra a minha vida em 13 de maio de 1981 confirmou, de certo modo, a exatidão das palavras escritas no período dos exercícios espirituais de 1980 (de 24 de fevereiro a 1º de março).

Sinto ainda mais profundamente que estou totalmente nas mãos de Deus - e continuo continuamente à disposição do meu Senhor, confiando-me a Ele através de sua Mãe Imaculada (Totus Tuus)

João Paulo 2º

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5 de março de 1982

Em relação à última frase do meu testamento de 6 de março de 1979 ("Sul luogo/il luogo cioè del funerale/decida il Collegio Cardinalizio e i Connazionali” – “No local, quer dizer dos funerais, decidido pelo Colégio Cardinalício e os Compatriotas") esclareço o que tenho em mente: a cidade de Cracóvia ou o Conselho Geral do Episcopado da Polónia – ao Colégio dos Cardeais, peço então que satisfaça na medida do possível os eventuais pedidos mencionados acima.

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1º de março de 1985 (durante exercícios espirituais)

Ainda - no que se refere à expressão "Colégio dos Cardeais e os Compatriotas": o Colégio Cardinalício não tem nenhuma obrigação de interpelar sobre esta questão "os Compatriotas"; pode, todavia, fazê-lo se, por qualquer motivo que seja, achá-lo justo.

JP2º

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Os exercícios espirituais do ano do Jubileu 2000 (12 a 18 de março)

(para o testamento)
1. Quando no dia 16 de outubro de 1978, o conclave dos cardeais escolheu João Paulo 2º, o Primaz da Polônia, o cardeal polonês Stefan Wyszynski me disse: 'O dever do novo papa será introduzir a Igreja no Terceiro Milênio'. Eu não sei se repito a frase com fidelidade, mas ao menos foi esse o sentido que entendi na ocasião. O homem que entrou para a história como o Prelado do Milênio que disse estas palavras. Um grande prelado. Fui testemunha de sua missão, da sua total dedicação. Das suas lutas: da sua vitória. 'A vitória, quando chegar, será uma vitória por Maria' – essas palavras do seu predecessor, o cardeal August Hlond, eram sempre repetidas pelo Prelado do Milênio.

Desta forma eu fui de, alguma maneira, preparado para a tarefa que me foi apresentada no dia 16 de outubro de 1978. No momento em que escrevi estas palavras, o Ano do Jubileu 2000 já é uma realidade. A simbólica Porta do Grande Jubileu da Basílica de São Pedro foi aberta na noite de 24 de dezembro de 1999, seguida pela de São João de Latrão, depois a de Santa Maria Maior, para o Ano Novo, e no dia 19 de janeiro a Porta da Basílica de São Paulo Extra-Muros. Este último evento, por seu caráter ecumênico, ficou impresso na memória de maneira particular.

2. À medida que o Ano do Jubileu 2000 avança, de dia em dia o século 20 fica para trás e o se abre o século 21. Conforme os desenhos da Providência vivi neste século difícil que desaparece no passado, e agora, quando me aproximo dos 80 anos ("octogesima adveniens"), tenho de me perguntar se não chegou a hora de repetir com o Simeão bíblico 'Nunc dimittis'.

No dia 13 de maio de 1981, o dia do atentado contra o Papa cometido durante a audiência geral na praça São Pedro, a Divina Providência me salvou milagrosamente da morte. O que é o único Senhor da vida e da morte prolongou minha vida e, de uma certa forma, me deu uma nova. A partir deste momento, ela Lhe pertence ainda mais. Espero que Ele me ajudará a perceber até quando devo continuar este serviço, ao qual fui chamado no dia 16 de outubro de 1978. Peço a Ele que me chame de volta quando quiser. 'Na vida e na morte, pertencemos ao Senhor...somos parte do Senhor' (cf. Rm 14, 8). Também espero que, enquanto couber a mim cumprir o serviço de Pedro na Igreja, a Misericórdia de Deus me prestará as forças necessárias para este serviço.

3. Como a cada ano durante os exercícios espirituais, li meu testamento do dia 6 de março de 1979. Continuo a manter as disposições contidas nele. O que foi acrescido, na época e também durante os exercícios espirituais sucessivos, retrata a difícil e tensa situação geral que marcou os anos 80. A partir do outono do ano de 1989, esta situação mudou. A última década do século passado foi livre das tensões anteriores, o que não significa que ela não trouxe novos problemas e dificuldades. Quero louvar particularmente a Divina Providência por isso, que o período chamado 'guerra fria' tenha terminado sem o violento conflito nuclear que pesava sobre o mundo durante o precedente período.

4. Estando às margens do terceiro milênio 'in medio Ecclesiae', desejo mais uma vez exprimir gratidão ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano 2, ao qual, junto com a Igreja inteira - e sobretudo com o todo o episcopado - me sinto devedor. Estou convencido de que por muito tempo as novas gerações poderão aproveitar as riquezas que este Concílio do século 20 nos deixou. Como bispo tendo participado do Concílio do primeiro ao último dia, desejo confiar este grande patrimônio a todos os que devem, e os que deverão, concretizá-lo no futuro. Da minha parte, agradeço ao eterno Pastor que me permitiu servir esta grandíssima causa no curso de todos os anos do meu pontificado.

'In medio Ecclesiae'... logo nos primeiros anos de serviços como bispo - e justamente graças ao Concílio - pude experimentar a comunhão fraterna do episcopado. Como bispo do arquidiocese de Cracóvia, experimentei a comunhão fraterna do presbitério - o Concílio abriu uma nova dimensão nesta experiência.

5. Quantas pessoas deveria relacionar aqui! O Senhor provavelmente já chamou de volta para ele a maioria delas - para as que ainda se encontram nessas partes, que sejam lembradas pelas palavras deste testamento, todas elas e onde quer que estejam.

Nos mais de 20 anos em que exerci o serviço de Pedro 'in medio Ecclesiae', experimentei benevolência e frutífera colaboração de tantos cardeais, arcebispos e bispos, tantos padres, tantas pessoas consagradas, Irmãos e Irmãs, e também tantas pessoas leigas, no ambiente da Cúria, no Vicariato da diocese de Roma e em outros lugares.

Como não abraçar com grata memória todos os Episcopados do mundo que encontrei durante as visitas 'ad limina Apostolorum'! Como posso não recordar tantos Irmãos cristãos - não católicos! E o rabino de Roma, tantos representantes das religiões não-cristãs! E quantos representantes dos mundos da cultura, da ciência, da política, dos meios de comunicação social!

6. À medida que o limite de minha vida terrena se aproxima, eu volto ao início, aos meus pais, ao irmão e à irmã (que eu não conheci porque ela morreu antes do meu nascimento), à paróquia de Wadowice, onde fui batizado, a esta cidade de meu amor, a meus contemporâneos, colegas do primário, do ginásio, da universidade, até o tempo da ocupação quando eu trabalhava como operário e, em seguida, à paróquia de Niegowice, a de Saint-Florian, em Cracóvia, à pastoral acadêmica, ao lugar.... a vários lugares ... em Cracóvia e em Roma ... às pessoas que de modo especial me foram confiadas pelo Senhor.

A todos eu quero dizer uma única coisa: 'Deus vos recompense'

'In manus Tuas, Domine, commendo spiritum meum'
A.D.
17 de Março de 2000

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