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Atualizado às: 23 de junho, 2004 - 14h43 GMT (11h43 Brasília)
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Falhas de Bill Clinton voltam à tona em sua biografia

A autobiografia de Bill Clinton
Presidente americano não atingiu a grandeza, tampouco o seu livro
Bill Clinton nunca realmente conseguiu atingir a grandeza como presidente. E tampouco sua autobiografia é grandiosa como livro.

A obra é parecida com o que foi a sua Presidência – por vezes fascinante, frequentemente equivocada – e sempre à sombra dos fantasmas que formaram a personalidade do garoto e as falhas do homem.

É preciso olhar primeiro para o caso Monica Lewinsky. Infelizmente este é o motivo pelo qual Clinton será lembrado pela atual geração, não importa o que seja dito depois pela História.

O seu relato é uma mistura clássica de confissão e acusação, ao estilo Clinton.

Ódio

Ele destila ódio na direção daqueles que votaram por seu impeachment e gostariam de vê-lo fora da Casa Branca.

Em particular, ele escolhe como alvo o promotor independente Kenneth Starr. "Estava claro que Starr tentava criar uma tempestade de fogo para me obrigar a deixar o cargo", escreveu Clinton.

Ele acusa Starr e aqueles que o interrogaram frente às câmeras para o júri de inquérito de terem feito tudo o que podiam para "fazer daquele vídeo um filme pornográfico caseiro".

Clinton cita Nelson Mandela, lembrando como o líder sul-africano se negou a odiar aqueles que o haviam encarcerado.

"Percebi que eles já haviam tirado tudo de mim, exceto a minha mente e meu coração. Isso eles não podiam levar sem minha permissão. Decidi não entregá-los, e você também não deve fazê-lo", disse Mandela a Clinton, de acordo com o ex-presidente americano.

É como se Clinton fosse, como Mandela, o lado totalmente injustiçado.

Mas Clinton sabe que não pode jogar toda a culpa sobre os outros e decide assumir para si boa parte da responsabilidade. Se bem que, com Bill Clinton, nunca se sabe o quanto é genuíno e o quanto é calculado.

Segredos

Numa descrição reveladora sobre a sua juventude com um padrasto que abusava de sua mãe, ele conta como aprendeu a amar os segredos.

"A atração de nossos segredos pode ser muito forte, suficientemente forte para nos fazer sentir que não podemos viver sem eles, que até mesmo não seríamos quem somos sem eles."

Talvez, então, ele tenha gostado dos momentos que passou com Monica não só porque eles eram prazeirosos, mas porque eram secretos.

O que ele oferece é um mea culpa: "Eu estava desgostoso comigo mesmo por ter feito aquilo e, quando a vi novamente na primavera, disse a ela (Monica) que era errado para mim, para a minha família e para ela e que eu não podia mais fazer aquilo".

"O que havia feito com Monica Lewinsky era imoral e tolo. Eu estava profundamente envergonhado daquilo e não queria que viesse a público."

O então presidente Clinton, em imagem de TV com Monica Lewinsky
Clinton: 'Estava profundamente envergonhado daquilo e não queria que viesse a público"

E ainda assim suas confissões de certa forma são totalmente desprovidas de credibilidade.

Ele insiste em sua definição bizarra e legalista sobre o que são "relações sexuais" e de forma pouco convincente descreve um período de auto-análise pós-Lewinsky, em que tenta entender "por que eu havia feito meus próprios enganos", como se tivesse acontecido com outra pessoa.

No sofá

O que salta à tona com força no livro é o terrível momento que ele viveu após ter admitido à mulher, Hillary, e à filha, Chelsea, que havia mentido para elas.

Hillary "olhou para mim como se eu a tivesse golpeado no estômago", conta Clinton.

"Quando não havia câmeras ao redor, minha mulher e filha mal falavam comigo."

O ex-presidente lembra que dormiu no sofá no andar de baixo durante as férias no balneário de Martha´s Vineyard, algo que continuou a ocorrer também na Casa Branca, onde teve de dormir num quarto ao lado "por dois meses ou mais".

O texto costura tudo isso entre relatos sobre a Presidência. Teria sido bom se um editor tivesse cortado as partes tediosas sobre as rotinas de reuniões e viagens, para que Clinton pudesse se concentrar nas partes mais significativas.

A leitura deixa a sensação de que Clinton insistiu para que tudo o que pudesse ser prova de seu sucesso (e, em termos econômicos, ele foi um presidente muito bem-sucedido) continuasse no texto.

Bill Clinton não acreditava que os problemas pudessem ser resolvidos por meio da guerra.

Ele se negou a bombardear os sérvios da Bósnia por muito tempo. Preferiu dialogar com a Coréia do Norte a confrontá-la. Manteve Saddam contido, mas não lançou uma guerra contra ele.

Ele tentou matar Osama Bin Laden, mas não declarou uma "guerra ao terror" como fez o seu sucessor, embora Clinton diga ter advertido a Bush que Bin Laden seria o seu principal problema de segurança. O Iraque estava apenas em sexto lugar na sua lista.

Este livro mostra que ele realmente se entusiasmava quando fazia intervenções diplomáticas, ocasionalmente na Irlanda do Norte e, sobretudo, no Oriente Médio.

Yasser Arafat
Para Clinton, líder palestino fez 'erro colossal' ao rejeitar Estado

Talvez a parte mais útil do livro historicamente seja a sua descrição de como tentou convencer o líder palestino Yasser Arafat a assinar um acordo com os israelense em Camp David.

Clinton simplesmente não consegue acreditar que o líder palestino tenha recusado uma oferta de um Estado em quase toda a Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental.

Ele classifica a recusa de Arafat como um "erro colossal". "Às vezes, Arafat parecia confuso, não totalmente no comando dos fatos."

O ex-presidente revela que o primeiro-ministro israelense Ehud Barak engasgou com um amendoim em Camp David e "parou de respirar por 40 segundos", até ser ajudado por um assessor.

De fatos assim são feitos livros de memórias. Deveria haver mais deles neste livro de quase mil páginas.

Na última linha, Clinton se refere ao "fracasso da minha vida". É uma conclusão triste, mas que vem apoiada pelo relato sobre o que falou a Arafat.

"Pouco antes de deixar o cargo, Arafat agradeceu-me por todos os meus esforços e disse que eu era um grande homem. Eu respondi, 'Não sou um grande homem. Sou um fracasso, e você fez de mim um fracasso."

Este é Bill Clinton. Culpando a si mesmo, mas culpando os outros também.


*O ex-presidente americano Bill Clinton lançou nesta semana o seu livro de memórias, My Life (Minha Vida). O autor desta resenha, o analista de assuntos internacionais da BBC Paul Reynolds, foi correspondente em Washington durante os últimos dois anos do governo Clinton.

Bill ClintonCaio Blinder
Com livro, Clinton vai promover legado e candidatura de Kerry.
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