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Com livro, Clinton vai promover legado e candidatura de Kerry | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Sai Reagan, entra Clinton. O festival de nostalgia que marcou a morte do ex-presidente republicano cede lugar ao espetáculo em torno de um ex-presidente democrata que está vivíssimo da silva. A ofensiva promocional do lançamento da autobiografia de William Jefferson Clinton (Minha Vida) é digna de uma campanha presidencial. O calhamaço de 957 páginas que rendeu US$ 10 milhões a Clinton tem alguns objetivos transparentes: pagar as dívidas do ex-presidente, garantir uma poupança, estabelecer o seu legado histórico e nutrir a carreira da parceira Hillary Clinton. Com um ex-presidente que corporifica a era das celebridades não dá para separar o pessoal do político. O resultado é uma inevitável promiscuidade, que mistura digressões sobre Slobodan Milosevic com os meses em que Clinton dormiu no sofá da Casa Branca por causa de Monica Lewinsky. Visibilidade E para a frustração do ex-presidente, tão preocupado com seu legado, parece inevitável que haja mais interesse do leitor-voyeur com o que ele tem a dizer sobre Monica do que sobre Slobodan. Clinton sendo Clinton, o livro deve render uma temporada de visibilidade inusitada para um ex-presidente. E, como estamos em uma temporada eleitoral, haverá um impacto político que obviamente não pode ainda ser medido, mas que promete ser expressivo. Bush vestiu o manto ideológico de Reagan, e agora o candidato democrata John Kerry, como lembrou sua chefe de campanha Mary Beth Cahill, não deve se envergonhar do legado de Clinton. O benefício supera o custo de ser ofuscado por alguém tão carismático, embora controvertido, como o ex-presidente. O incansável (e indisciplinado) Clinton promete se dedicar a duas tarefas nos próximos meses: promover o seu livro e vender a candidatura de Kerry. Não estamos, sem dúvida, na campanha eleitoral do ano 2000 quando o ex-vice Al Gore preferiu assumir uma fria distância do presidente a quem servira por oito anos. Havia um senso de traição pessoal devido ao escândalo Monica Lewinsky e o cálculo político de que a moderação de Clinton não lhe era conveniente. Gore optou por investir num populismo. Este não é o caminho escolhido por Kerry que, em contraponto a Bush, se vende como o herdeiro da disciplina fiscal de Clinton e do cultivo das tradicionais alianças internacionais do império americano. De novo, Clinton sendo Clinton, nos tempos da Casa Branca, ele era auto-indulgente na vida pessoal, mas como presidente foi um marco ideológico no Partido Democrático ao conter as folias dos gastos sociais. Clinton, curiosamente, é um subproduto da revolução conservadora de Reagan. Assim como Tony Blair após a era Tatcher, o ex-presidente americano avaliou que a resposta do seu partido à guinada direitista dos adversários não era correr para o outro extremo, mas se fincar no centro. Os oito anos do governo Clinton foram marcados por uma prosperidade econômica recordista em tempos sem guerra. Foi também um período de relativa ordem internacional, de transição entre a queda do muro de Berlim e os atentados do 11 de setembro. Clinton já confidenciou a sua frustração por jamais ter sido sido colocado à prova como Bush em 2001. Os historiadores talvez tratem William Jefferson Clinton basicamente como o Bill da Monica, mas o seu consolo é que, pelo menos em 2004, ele dá o tom na campanha dos democratas para tentar reconquistar a Casa Branca. |
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