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Caio Blinder: Chávez faz de referendo escolha entre ele e Bush | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Em uma entrevista concedida no começo do mês ao jornal Miami Herald, o senador John Kerry, candidado democrata nas eleições presidenciais americanas de novembro, disse que o governo Bush está desligado dos problemas na América Latina e carece de uma política séria para a região, seja no Brasil, na Argentina ou na Venezuela. Esta não é a opinião de Hugo Chávez. O presidente venezuelano garante que Bush está profundamente engajado no seu país. Chávez pelo menos faz o que pode para arrastar o presidente americano para o epicentro da crise política venezuelana. Com a confirmacao do referendo de 15 de agosto que irá decidir a sua sorte, Chávez incrementou os ataques contra os Estados Unidos. Natural diante de sua condição de representante supremo de um populismo exaltado e antiamericano no continente. Mas a jogada de Chávez agora é mais ambiciosa do que acusar Washington de financiar seus adversários. Ele aponta Bush e não a oposição doméstica como o seu grande rival no referendo. No fim de semana, Chávez estava especialmente exaltado, com uma retórica de fazer inveja a Fidel Castro. "Grande Miami" Em uma solenidade em sua cidade natal, Sabaneta, o ex-paraquedista deu um grande salto. Advertiu que se a oposição vencer em agosto, os EUA irão se apossar do país, impor seus produtos e obrigar todo mundo a falar inglês. A Venezuela vai se converter em uma "grande Miami", profetizou Chávez. O tubarão americano se esquiva de morder a isca jogada pelo dirigente de Caracas. Depois do vexame de abril de 2002, quando celebrou prematuramente o sucesso de uma tentativa golpista contra Chávez, a Casa Branca toma cuidado nos seus pronunciamentos sobre a situação na Venezuela. O tom é saudar o referendo como um passo importante rumo a uma saída democrática do impasse político no país. A promessa americana é de respeitar os resultados, inclusive uma vitória de Chávez, desde que o processo seja transparente. Efeito Carter Curiosamente, foi um predecessor de Bush, sistemático para acusar a política externa americana de arrogante e equivocada, que interveio de forma crucial nos assuntos internos da Venezuela. Por 18 meses, o ex-presidente democrata Jimmy Carter liderou esforços internacionais para costurar uma solução aceitável na Venezuela. E ele interferiu no momento chave para garantir que Hugo Chávez aceitasse a terceira mobilização da oposição de coleta de assinaturas para a convocação do referendo. Militantes pro-governamentais foram à carga contra Carter, mas o ex-presidente americano fez o cálculo correto de que Chávez não iria se insurgir contra uma personalidade internacional, aclamada como um campeão da democracia e dos direitos humanos. Robert Pastor, que era encarregado de América Latina no governo Carter, diz que Chávez calculou que neste momento tinha menos a perder se aceitasse a convocação do referendo de agosto. Pastor afirma que Carter e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gavíria, tem um "enorme crédito por terem impedido que a Venezuela fosse impelida agora para uma espiral de violência". Defecho Obviamente muita água e petróleo vão rolar na Venezuela até o referendo de 15 de agosto. E mesmo que o cronograma seja seguido à risca, o desfecho deverá acontecer quando a campanha eleitoral americana estiver prestes a pegar fogo. George W. Bush e John Kerry não poderão ficar alheios a um eventual incêndio no quintal dos EUA. É impossível para eles não prestar atenção na América Latina. |
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