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Atualizado às: 15 de junho, 2004 - 18h49 GMT (15h49 Brasília)
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Caio Blinder: Chávez faz de referendo escolha entre ele e Bush

Hugo Chávez aponta Bush como seu rival no referendo
Hugo Chávez aponta Bush como seu rival no referendo
Em uma entrevista concedida no começo do mês ao jornal Miami Herald, o senador John Kerry, candidado democrata nas eleições presidenciais americanas de novembro, disse que o governo Bush está desligado dos problemas na América Latina e carece de uma política séria para a região, seja no Brasil, na Argentina ou na Venezuela.

Esta não é a opinião de Hugo Chávez. O presidente venezuelano garante que Bush está profundamente engajado no seu país. Chávez pelo menos faz o que pode para arrastar o presidente americano para o epicentro da crise política venezuelana.

Com a confirmacao do referendo de 15 de agosto que irá decidir a sua sorte, Chávez incrementou os ataques contra os Estados Unidos. Natural diante de sua condição de representante supremo de um populismo exaltado e antiamericano no continente.

Mas a jogada de Chávez agora é mais ambiciosa do que acusar Washington de financiar seus adversários.

Ele aponta Bush e não a oposição doméstica como o seu grande rival no referendo. No fim de semana, Chávez estava especialmente exaltado, com uma retórica de fazer inveja a Fidel Castro.

"Grande Miami"

Em uma solenidade em sua cidade natal, Sabaneta, o ex-paraquedista deu um grande salto. Advertiu que se a oposição vencer em agosto, os EUA irão se apossar do país, impor seus produtos e obrigar todo mundo a falar inglês.

A Venezuela vai se converter em uma "grande Miami", profetizou Chávez.

O tubarão americano se esquiva de morder a isca jogada pelo dirigente de Caracas.

Depois do vexame de abril de 2002, quando celebrou prematuramente o sucesso de uma tentativa golpista contra Chávez, a Casa Branca toma cuidado nos seus pronunciamentos sobre a situação na Venezuela.

O tom é saudar o referendo como um passo importante rumo a uma saída democrática do impasse político no país.

A promessa americana é de respeitar os resultados, inclusive uma vitória de Chávez, desde que o processo seja transparente.

Efeito Carter

Curiosamente, foi um predecessor de Bush, sistemático para acusar a política externa americana de arrogante e equivocada, que interveio de forma crucial nos assuntos internos da Venezuela.

Por 18 meses, o ex-presidente democrata Jimmy Carter liderou esforços internacionais para costurar uma solução aceitável na Venezuela.

E ele interferiu no momento chave para garantir que Hugo Chávez aceitasse a terceira mobilização da oposição de coleta de assinaturas para a convocação do referendo.

Militantes pro-governamentais foram à carga contra Carter, mas o ex-presidente americano fez o cálculo correto de que Chávez não iria se insurgir contra uma personalidade internacional, aclamada como um campeão da democracia e dos direitos humanos.

Robert Pastor, que era encarregado de América Latina no governo Carter, diz que Chávez calculou que neste momento tinha menos a perder se aceitasse a convocação do referendo de agosto.

Pastor afirma que Carter e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gavíria, tem um "enorme crédito por terem impedido que a Venezuela fosse impelida agora para uma espiral de violência".

Defecho

Obviamente muita água e petróleo vão rolar na Venezuela até o referendo de 15 de agosto.

E mesmo que o cronograma seja seguido à risca, o desfecho deverá acontecer quando a campanha eleitoral americana estiver prestes a pegar fogo.

George W. Bush e John Kerry não poderão ficar alheios a um eventual incêndio no quintal dos EUA. É impossível para eles não prestar atenção na América Latina.

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