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Análise: Coalizão pode ter de começar a pensar em retirada do Iraque | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A não ser que a situação se estabilize no Iraque logo, estrategistas americanos e britânicos terão de começar a pensar em um plano de retirada. As forças de coalizão já estão tentando reduzir os embates com iraquianos, na esperança de que um período de relativa tranqüilidade possa emergir na véspera da entrega da soberania do país ao governo interino em 30 de junho. Essa estratégia pode levar a novas combinações de forças de segurança no Iraque, com alinhamentos mais complexos do que a coalizão imaginava inicialmente. A coalizão pode não ter alternativa senão aceitar esses alinhamentos. Mas se a política para o Iraque não funcionar e a entrega da soberania se tornar apenas um gesto simbólico, a estratégia terá que ser a redução de tropas no Iraque e, eventualmente, até a retirada total. O problema com o plano atual para o Iraque é que não existe uma data para as tropas estrangeiras deixarem o país. Não há uma estratégia clara de retirada. Todas as decisões estão em aberto para a série de três governos iraquianos que vai assumir o país nos próximos 18 meses:
Como o governo interino ficará engessado por ter sido indicado pela coalizão, as eleições da Assembléia Nacional em janeiro podem ser atrapalhadas por esse assunto. Assim, o governo de transição, ao assumir, já deve exigir uma data para a retirada de tropas estrangeiras do Iraque. Mas mesmo o governo interino pode provocar tumultos já em junho, especialmente se seus integrantes se tornarem líderes políticos, em vez dos tecnocratas defendidos pelo enviado da ONU, Lakhdar Brahimi, que está coordenando os esforços de estabelecer um regime no Iraque. Desespero doméstico Um novo fator também está influenciando o cenário na região: a oposição cada vez maior nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha à ocupação. Esse sentimento tem sido alimentado pelo nojo e pelo desespero causados pelas imagens de maus tratos a prisioneiros iraquianos, e, agora, pela decapitação de um civil americano. Uma das principais lições do Vietnã é que uma guerra pode ser perdida tanto internamente como no campo de batalha. Também existe outro assunto. Acredita-se que o governo britânico possa romper com os estrategistas de Washington e exigir mudanças. Enquanto isso, a coalizão está tentando desenvolver um plano interino para reduzir a tensão. Isso ficou evidente em Falluja, onde, apesar de afirmações da coalizão de que “combatentes estrangeiros e terroristas” seriam derrotados, a cidade foi entregue a uma nova força de antigos soldados iraquianos. Agora, o general Martin Dempsey, comandante da 1ª Divisão Armada, diz que essa fórmula pode ser experimentada em outras cidades. “Nós vamos tentar esse modelo em qualquer lugar que eu estiver comandando, e acredito que vocês vão ver iniciativas semelhantes pelo Iraque”, disse Dempsey. Isso também ficou claro no episódio do clérigo xiita Moqtada al-Sadr. O general Dempsey chegou até a afirmar que ele pode entregar os assuntos de segurança na cidade santa de Najaf, onde Sadr está baseado, a tropas locais. Essas tropas incluem integrantes da milícia de Sadr. Isso seria, de fato, uma mudança significante na estratégia americana. Um oficial britânico com experiência nos assuntos iraquianos disse esta semana: “A estratégia é fazer com que iraquianos isolem Moqtada Sadr, através de líderes religiosos, governadores, conselhos provincianos e polícia.” Trata-se de uma grande mudança em relação a política anterior, que era prender o clérigo. No entanto, a última estratégia não exclui ações militares esporádicas contra a milícia de Sadr, onde for necessário, como já ocorreu em várias cidades. O Exército britânico teve que agir recentemente na cidade de Amara. “A coalizão precisa escolher o momento adequado e as táticas certas para neutralizar essas pessoas”, diz o oficial. Os americanos vêm atacando as milícias de Sadr em Karbala. A coalizão está se curvando a uma nova realidade no Iraque. Ela não consegue impor sua vontade e esse fato já é aceito por oficiais com experiência no campo de batalha. Em uma admirável série de entrevistas ao The Washington Post, importantes autoridades do Exército americano expressaram abertamente dúvidas de que os Estados Unidos conseguirão vencer no Iraque. O general Charles Swannack, comandante da 82ª Divisão Aérea, que esteve no oeste do Iraque no ano passado, disse que taticamente os Estados Unidos estão vencendo. Mas ao ser questionado sobre uma derrota “geral” americana, ele afirmou: “Acho que, estrategicamente, estamos perdendo.” O coronel Paul Hughes, primeiro diretor de planejamento estratégico no Iraque após a guerra, cujo irmão morreu no Vietnã, disse: “Aqui estou eu, 30 anos depois, pensando que vamos vencer todas as batalhas, mas que vamos perder a guerra, porque não compreendemos a guerra na qual estamos.” |
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