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Adesão turca testaria relações entre Islã e Ocidente | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
As negociações sobre a entrada da Turquia na União Européia podem servir nos próximos anos como um teste sobre a coexistência entre cristãos e muçulmanos no velho continente. O crescimento das populações de origem islâmica nos países da Europa Ocidental é motivo de crescente preocupação nos meios oficiais em tempos de ataques terroristas. Tanto nos atentados de 11 de Setembro, como nas explosões dos trens em Madri em março deste ano, os autores, ou parte deles, eram cidadãos que deixaram o mundo árabe islâmico para viver na Europa. O assunto já virou bandeira dos principais partidos da extrema direita européia – como a Frente Nacional, na França, cuja plataforma xenófoba propõe restrições à imigração ou naturalização de imigrantes (grande parte deles oriunda do Oriente Médio e do norte da África). Cerca de 12,5 milhões de muçulmanos vivem atualmente na Europa Ocidental. A entrada da Turquia no bloco significaria um acréscimo de uma população de 70 milhões, dos quais 99% são muçulmanos. Exemplo Segundo os especialistas, se por um lado trará questionamentos sobre a importância da identidade cristã da União Européia, o caso turco poderia servir como um exemplo para o mundo de que as civilizações ocidental e islâmica são capazes de conviver em paz. Embora tenha uma população predominantemente muçulmana, a Turquia é um país secular. Sua Constituição, legado de uma revolução liderada por Mustafá Kemal Ataturk nos anos 1920, prevê rigorosamente a separação de assuntos de Estado e religião. O secularismo é garantido com mão de ferro pelo militares – em diversas ocasiões na história recente do país, partidos que defendiam um Estado pautado por leis e tradições islâmicas foram banidos. Em sua campanha diplomática para convencer os europeus a aceitá-la no bloco, a Turquia destaca o caráter laico de suas leis e os hábitos modernos e seculares da maior parte da população. “Um dos nossos desafios é convencer o público europeu de que a Turquia não é um país islâmico vivendo na era medieval”, observa Asligul Ugdul, diretora do departamento político do ministério turco para assuntos da União Européia. “Traremos diversidade cultural à união. A Turquia pode ser um país islâmico, mas também é secular e democrático. O maior obstáculo será persuadir o público europeu de que somos um deles, não somos o outro.” Se a direita nacionalista européia, sobretudo na França e na Alemanha, observa com desconfiança as negociações com a Turquia, o mesmo acontece dentro de alguns círculos turcos refratários à aproximação com o Ocidente. Clube cristão Grupos radicais islâmicos ou ultranacionalistas da Turquia – minoritários no país – denunciam os planos do governo de Ankara de fazer profundas reformas para poder integrar o que consideram um clube cristão “Os fundamentalistas islâmicos dizem que a União Européia é um clube cristão que rejeita a Turquia por ela ser muçulmana”, explica Sami Kohen, colunista especializado em política internacional do diário turco Millyiet. “Por essa razão, eles argumentam que a Turquia não deveria nem tentar ser um membro da UE. Dizem que ela deveria optar por estabelecer relações com o mundo islâmico e formar um mercado comum do mundo islâmico.” Situada geograficamente numa localização estratégica, no ponto onde confluem a Ásia e a Europa, a Turquia também é apresentada pelo Ocidente como um modelo de democracia islâmica a ser seguido pelos países autoritários do Oriente Médio. Alguns governos europeus e os Estados Unidos acreditam que, ao estender aos turcos alguns dos benefícios econômicos e sociais existentes na União Européia, estarão premiando um país que optou pela democracia e um islamismo moderado, enviando assim uma mensagem aos vizinhos da Turquia no Oriente Médio. |
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