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Atualizado às: 21 de abril, 2004 - 15h09 GMT (12h09 Brasília)
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Xiitas estão 'decepcionados' com EUA no Iraque

O aiatolá Ali Al-Sistani, líder dos xiitas no Iraque
O aiatolá Al-Sistani simboliza a ambivalência dos xiitas em relação à coalizão
No ano passado, o aiatolá Ali Al-Sistani, o mais poderoso líder religioso xiita do Iraque, teria aconselhado seus seguidores a adotar a seguinte conduta no tocante aos americanos, que haviam chegado ao país: agradeçam a eles por terem tirado Saddam Hussein do poder, mas em cada conversa perguntem a eles quando vão sair.

A declaração resume a atitude ambivalente dos muçulmanos xiitas iraquianos à ocupação militar liderada pelos Estados Unidos.

Trata-se de algo que os americanos tiveram que começar a levar a sério. Eles sabem que não podem governar o Iraque sem a aprovação dos xiitas, que correspondem a até 60% dos 25 milhões de iraquianos.

Até os recentes episódios de violência, tal apoio passivo deles aos americanos estava sendo mantido por um acordo implícito com os xiitas organizados do Iraque, especialmente com o aiatolá Sistani.

De acordo com Hamid Bayati, porta-voz de um partido religioso xiita cujos líderes integram a autoridade provisória de governo no Iraque, tal contrato dizia que, em troca da realização de eleições democráticas no país, pontos de discórdia com os americanos seriam manifestados em negociações e em protestos pacíficos.

A idéia era que fontes de radicalismo, como o clérigo Moqtada Al-Sadr, fossem tratadas menos com repressão e mais com uma acomodação dentro da máquina religiosa e política dos xiitas iraquianos.

Manifestações

Então, porque surgiu a revolta que, pela primeira vez, levou esses xiitas a pegar em armas para lutar contra a ocupação do Iraque?

Um motivo é que os americanos decidiram ir atrás de Al-Sadr sem consultar todos outras facções xiitas, incluindo as representadas no conselho de governo.

Os americanos fecharam o jornal semanal de Al-Sadr, alegando que a publicação estava incentivando a violência; prenderam seu principal assessor na cidade de Najaf e fizeram um cerco a sua base.

Parece que eles acreditavam que Moqtada Al-Sadr iria se entregar, como ele fez durante um impasse semelhante no ano passado.

Mas ele não fez isso. Seus simpatizantes responderam às medidas americanas com manifestações que levaram à revolta armada em partes de Bagdá e do sul do Iraque, em que delegacias e outros símbolos de poder administrativo foram tomados.

A base de apoio de Sadr continua sendo sua milícia com cerca de 10 mil integrantes, o Exército Mahdi, e os jovens e, em sua imensa maioria, pobres jovens xiitas das cidades do centro e do sul iraquianos.

Mas, desta vez, a retórica anti-ocupação e anti-Estados Unidos está ecoando com mais força na comunidade xiita como um todo.

Relação manchada

"O que o administrador americano Paul Bremer claramente não viu é que os xiitas eram como madeira seca esperando para queimar", disse o analista político iraquiano Wamid Nathmi.

A relação dos xiitas com as forças de ocupação já foi manchada pelos massacres de março, em que cerca de 200 xiitas foram mortos, sem que a coalizão ou a Polícia fossem capazes de protegê-los.

E não foi só isso: a relação foi mais prejudicada por causa das objeções apresentadas à constituição interina. Parte dos xiitas acreditava, correta ou incorretamente, que a Carta limitava seu poder como maioria no Iraque.

Essa razão deles para a insatisfação fez com que ficasse mais difícil para outros grupos xiitas agir contra Al-Sadr.

Policiais desapareceram das delegacias sem se envolver. Outras milícias xiitas se uniram aos fiéis ao clérigo. Líderes religiosos e políticos pediram calma, mas foram forçados a expressar simpatia pela causa da revolta.

News image
Planos futuros dos EUA para o Iraque estão deixando tensos os xiitas

Bayati admitiu que pode estar chegando um momento em que não vai mais ser possível justificar aos xiitas do Iraque a aceitação da presença americana no país. Os xiitas estão se tornando cada vez mais decepcionados com as políticas adotadas pela coalizão.

"Nós tentamos ao máximo manter a calma (de nossos seguidores). Mas, se no final das contas, não conseguirmos mais convencer nosso povo, ele vai fugir de nosso controle", disse o porta-voz.

Conflito

A dimensão da revolta diminuiu, e agora trata-se de um impasse sobre o destino de Moqtada Al-Sadr.

Numerosos soldados americanos estão cercando Najaf, onde Sadr está refugiado, enquanto mediadores xiitas se esforçam para encontrar uma solução pacífica para o conflito.

Para muitos analistas iraquianos, o fato dessas negociações estarem ocorrendo é um sinal do fracasso americano de neutralizar o clérigo à força.

Os mediadores deixaram claro que o objetivo das conversas não é afastar Al-Sadr, mas "acomodá-lo" na nova ordem política iraquiana – algo que ele indicou que está pronto para aceitar.

Ainda assim, permanece a questão: As forças de ocupação vão conseguir renegociar seu "contrato" com os xiitas, dada a intensificação do sentimento anti-americano e o colapso das instituições nacionais indicadas pelos americanos para representar esses iraquianos?

Sim, acredita o analista político Gailan Ramis. Mas apenas se os americanos prestarem atenção ao conselho do aiatolá Al-Sistani e de outros, tomando medidas para que eleições sejam realizadas o mais rápido possível para, assim, formar um governo nacional com legitimidade.


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