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A voz do mestre | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Você que comprou o livro ou pediu emprestado: jura mesmo que leu? Refiro-me ao Breve História do Tempo, do Stephen Hawking. Até onde sei, ele emparelha com O Nome da Rosa, do Umberto Eco, em matéria de sucesso de vendas e fracasso de leitura. "Li a respeito" talvez seja a melhor resposta para aqueles que chegam em nossa mesa no bar e, antes mesmo do primeiro chope, nos perguntam com cara feia e como se cobrando alguma coisa: "Afinal de contas que história é essa de buraco negro ser um tremendo chute?" O homem Stephen Hawking todo mundo conhece. Pelos motivos mais ou menos errados. O professor, como todos o chamam, sofre de uma desordem motora que, desde cedo na vida, roubou-lhe 90% dos movimentos, a voz e o condenou a uma cadeira de rodas, de onde, graças a um sintetizador vocal, um computador e alto-falante, digita suas digressões e, assim, dialoga com o mundo. A popularidade de Hawking continua firme a cada livro, inteligível ou não, e ainda esta semana, na terça-feira, uma telepeça dramatizou seus primeiros anos. Stephen Hawking é tão famoso que já foi por duas vezes voz convidada no programa dos Simpsons. Inesquecível, contanto que não tenham, no Brasil, dublado o sintetizador vocal, a cena em que, diante de uma desavença com Homer Simpson, o grande físico, naquela voz metálica de robô, argumenta (e traduzo mal): "Se você está afim de sair no pau, o negócio é comigo mesmo". Pau está saindo agora com o professor. Tudo porque os componentes do computador que ativa sua personalíssima voz estão se tornando obsoletos e há gente querendo colocar um software da última geração em seu aparelhamento vocal, dando-lhe uma voz mais humana, menos mecânica. Nem professor nem o povão querem saber de história. O assunto chegou a ser matéria de editorial do Sunday Times. Aquela é a voz do homem, aquela é a voz a ser mantida. Conforme diria Hawking, e não só para Homer Simpson, "Se estão afim…" É isso aí, professor, buraco negro neles. |
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