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Primavera | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Dois dias de sol e temperatura beirando os 16ºC. Custou, mas chegou. A primavera. Neste ponto, o costume é – ao menos no Brasil – parar e citar o poeta T.S. Eliot. “Abril é o mais cruel dos meses…” Paro por aqui porque a próxima linha já complica tudo e eu meteria os pés pelas mãos. Ou vice-versa. No ar, o que há mesmo é um cheiro de mofo. É a rouparada mais leve que acabou de sair dos armários e gavetas. No metrô, agora superando as palavras cruzadas, continua o novo e silencioso jogo de tentar adivinhar quem entre nós é o policial à paisana e armado pronto para nos defender da sanha terrorista. Eu não consegui adivinhar um único sequer. Está todo mundo quase que esboçando um sorriso sem um motivo maior. Ou melhor, com o maior dos motivos. É porque a primavera está aí e todos começam a adquirir um ligeiro ar bobalhão. Sem querer, ocorre-me, pedantemente, outra citação poética nobre. Mariane Moore. Americana. Um verso em que ela diz que “a primavera chegou como um louco agitando flores”. No meu entender, bobo e chegado a um maluco que sou, melhor refletindo a estação que – ora! – agora se aflora, vou rimando por influência das citações e das flores. Deixando de lado poetas altaneiros, baixando à terra, como a época exige, dou um pulinho mental e, com a voz do Blecaute, digamos assim, agarro-me ao nosso cancioneiro e cantarolo em desafinação interior aquela nossa musiquinha que diz que “os namorados vão de braços dados porque a primavera é a estação de amor”. Não, as flores ainda não estão espocando. Irão, como lhes é próprio, desabrochar. Sempre quando menos se espera, todas juntas ao mesmo tempo, no mesmo dia e hora, em tudo quanto é jardim e vaso na sala ou na janela. Isso deve se dar mais ou menos em meados para fim de abril. Uma barulhada ensurdecedora essa das flores se manifestando. Flor se manifestando. A Inglaterra é o único país do mundo onde flor se manifesta. São enjoadas as flores inglesas. Mimadas todas. Claro, afinal os ingleses não desfrutam do doce e calado prazer de sua companhia por muito tempo. Por isso tudo, e mais alguma coisa, eu sinto falta – tá bom, vá lá que seja! – eu sinto saudade das flores artificiais de meu tempo de criança brega. Que, aliás, no meu tempo, se chamava de cafajeste ou cafona. Mas isso é outra, são outras primaveras. |
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