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O mistério britânico | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Eu não conheço ingleses. Ou britânicos. Estou há 26 anos no país e cumprimento, no máximo, uns dois ou três cidadãos. Entre eles, o noivo de minha filha. Mesmo assim, ele é um mistério para mim. Não creio estar me desviando de alguma verdade essencial se proclamar que também nunca conheci um brasileiro. São todos como o noivo de minha filha: puro mistério. O samba-canção está correto: ninguém conhece ninguém. Sendo que, aliás, devo estar confundindo tudo e até o nome da música gravada por Cauby Peixoto (acho) não é nada do que eu acabo de dizer. Também não me sinto só. Não, a solidão não vai acabar comigo, para citar – corretamente – outra canção de nosso cancioneiro. No Brasil, eu tinha o sol, o sal, o sul para me fazer companhia. Dava para o gasto. Aqui no Reino Unido, eu tenho o Escritório Nacional de Estatísticas. Tudo que eu preciso saber sobre inglês, escocês, galês, irlandês do norte, o danado do Escritório me dá. Não há mistérios a desvendar nestas ilhas. Tudo é sabido e registrado pelo Escritório das Estatísticas. Shakespeare hoje nada teria a acrescentar, morreria de fome. Nesta semana eu fiquei sabendo que os homens britânicos têm mais meia hora livre por dia do que as mulheres. Meia hora que eles dedicam a quê? A ver televisão, claro. Já as mulheres, estas amélias do hemisfério norte, passam duas horas e 30 minutos por dia entretidas em afazeres domésticos: limpar a casa, lavar roupa, passar, costurar, cozinhar, essas conquistas todas da liberação feminina. Sim, elas continuam fazendo o que os homens queriam que fizessem, só que agora com o maior orgulho do mundo, concluo, numa gentileza do Escritório de Estatísticas. Um dado fascinante para mim, que já fui homem chegado a leituras: as mulheres lêem, todos os dias, inclusive domingos e feriados, 16 minutos por dia, ou seja, um minuto a mais do que os homens que, cabeças de vento, incapazes das disciplinas da concentração, não passam dos 15 minutos diários. As estatísticas não dizem se é besteira o que um sexo e outro lêem, mas, conhecendo a humanidade, em qualquer sotaque, só posso crer que sim. No entanto, as mesmas estatísticas são precisas no tocante às artes e eventos culturais: 6 minutos diários para as mulheres, 5 para os homens. Esse minuto de diferença, juro que só pode ser porque os homens – ah, aí sim, como os conheço! – ficam pensando em besteira. Exatamente como o simpático pessoal do Escritório Nacional de Estatísticas. |
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