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Correspondência | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Duas cartas que chegaram às mãos editoriais de um jornal britânico. Ambas são assinadas por um cidadão também britânico de Kingston-upon-Thames. O nome do missivista é Bisher al-Rawi. Repito: é cidadão britânico. Acrescento: as cartas são para a mãe e a família. Esclareço: Bisher al-Rawi é um dos cinco cidadãos britânicos – ou seja, tem a mesma cidadania de Tony Blair –, um dos cinco cidadãos britânicos, dizia eu, ora detidos no enclave americano de Guantánamo, em Cuba. Al-Rawi, como se insistindo em confirmar a nacionalidade, tem intimidade com a ironia, além de conhecer a mente e os óculos ray-ban dos censores. Traduzo e transcrevo as cartas. A primeira é de Bagram e datada de janeiro de 2003: "Querida Mamãe, escrevo das lindas montanhas do Afeganistão, onde me encontro num campo americano de prisioneiros. Estou bem, as condições são excelentes e todo mundo é muito, mas muito gentil." A segunda cartinha veio de Cuba, de Guantánamo. A ironia continua sendo a tônica. "Querida Mamãe, querida família. Escrevo-lhes do aprazível sítio balneário da baía de Guantánamo. Depois de pegar um primeiro lugar numa competição, fui enviado para esta localidade com todas as despesas pagas. Todo mundo é muito gentil, os vizinhos têm bons modos, a comida é de primeira classe, há muito sol e a praia é repleta de pedrinhas (não há areia, infelizmente). De seu filho, Bisher. E o rapaz encerra com um esplêndido P.S: "Por favor, renovem o seguro de minha motocicleta." Quem quiser escrever para o moço, escreva. Lembrando-se, é claro, que não vale e-mail. Tem que ser a lápis ou caneta mesmo. |
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