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Cinzas, quaresma | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Como dizia Afonso Arinos e o Aurelião abonou: ''a quaresma abre suas pétalas roxas''. O cavalheiro aí acaba de cumprir a difícil tarefa de guardar a cuíca na gaveta da cômoda. A distinta pendurou no armário a fantasia de Havaiana Estilizada. Tudo acabou. Fim. Foi ontem só, amanhã não tem mais. Agora, só para o ano. Agora, é alcacelça e tentar, ao menos, não fazer parte de um escândalo político. O importante, como apregoam todos os sambas e marchinhas, é não ficar chorando pela casa, não ir de luto às ruas e esquecer-se a si mesmo – e não aquela mulher. Lamentar demais faz mal à saúde física e mental. É científico, é oficial. O thinktank conhecido pelo codinome de Civitas (outro dia falei dessa mania de latinização que corre aqui por cima deste hemisfério), o Civitas, dizia eu, em relatório divulgado até em primeira página de segunda-feira gorda aqui em Londres, chegou à conclusão de que as pessoas que andam por aí se lamentando demais com a perda de figuras públicas (Diana, a princesa de Gales, por exemplo) não estão fazendo outra coisa que não demonstrando um ''ostensivo sofrimento'' cuja única finalidade é, como tudo mais, sentir-se bem. Assim feito cheirar lança-perfume também era – é? Ainda tem? – para a gente ''sentir-se bem''. O thinktank (tanque de pensar, eu chamaria, só para me alegrar um pouco), composto de mentes privilegiadas, acredito, passa um sabão também, para me agarrar à métafora iniciada, no bloco bem intencionado daqueles que desfilam em cativantes evoluções pelas ruas e avenidas portando porta-bandeiras e cartazes apregoando causas nobres como salvar baleias, proteger calotas polares e não deixar tombar árvores as mais diversas. Esses desfiles não têm outro objetivo que não o de fazer seus participantes baterem ponto na entrada daquilo que acreditam ser o Paraíso dos bens intencionados porém tristes (como só um carnavalesco pode ser triste), para aqueles de ouvido apurado. O nome do estudo é bom. ''Compaixão Conspícua''. Dá samba. Deixemo-lo, no entanto, para 2005, e continuemos quaresmando em meio a pétalas roxas. |
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