|
O Grammy e a música | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A semana que passou viu, e fez o mundo ver e tomar conhecimento, que houve farta distribuição de Grammys, um diminutivo desrespeitoso para o nobre gramofone e o equivalente em música pop ao Oscar. É a grande festa de toda essa gente que um dia estoura nas paradas, ganha uma fortuna e, depois, com menos de 30 anos, ninguém mais sabe quem é. A indústria fonográfica regozija com o evento, uma vez que o objetivo da história é vender disco e não fazer música. A indústria fonográfica está ligeiramente em crise. Vive o ano que acusou a maior queda de vendas dos últimos tempos. Só aqui, na Grã-Bretanha, as vendas caíram de cerca de 53 milhões de "singles", em 2002, para uns 36 milhões em 2003. Haja festa, haja premiação. Haverá: vêm aí os Brit Awards, grossura única no calendário das premiações internacionais relativas à música popular. Voltando aos Grammys. Todo mundo é obrigado a ganhar um prêmio. Uma criatura com nome de diálogo caipira, Beyoncé, ganhou cinco estatuetas na categoria R&B, que já foi Rhythm & Blues, quando quem cantava e tocava eram Ray Charles e Ruth Brown, e o gênero se dividia em, pelo menos, umas dez modalidades, tendo ainda contribuído para o surgimento do rock 'n' roll e, deste, para o soul. Mas isso é pauta de cartilha. Aos Grammys de novo. Todo mundo, disse eu, é obrigado a ganhar uma estatueta. Eu não ganhei, você aí não ganhou, só porque nós não cantamos nem tocamos nada. Tremenda injustiça. Afinal de contas, são 105 categorias disputando Grammys. Malandro tem que ser muito ruim daqueles três acordes básicos para não pegar uma estatueta. Lembro-me da revista Metronome, que acompanhou a música popular americana dos anos 40 aos anos 60. Eu assinava. Nas resenhas, os gêneros eram quatro: jazz, pop, rhythm'n'blues e country & western. Em matéria de jazz, no fim do ano, leitores e críticos votavam. Melhor orquestra, melhor sax-alto, melhor trompete, baterista, contrabaixo, vocalista e assim por diante. Depois botavam tudo num estúdio e gravavam um 78rpm (o chamado single de hoje): eram os Metronome All Stars. Assim é que preciosidades como Frank Sinatra ou Nat Cole cantando acompanhados de Dizzy Gillespie, Charlie Parker e outros, que curtidores de Grammy jamais ouviram falar, acabaram deixando na goma-laca, sem outra engenharia de som que não a necessária para captar o estado puro de uma mestria artística nunca mais alcançada ou ultrapassada. Jazz não vendia. Jazz não vende. Mas os americanos nunca mais fizeram nada que lhe chegasse aos pés. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||