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Atualizado às: 12 de abril, 2004 - 10h49 GMT (07h49 Brasília)
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A morte de Timothy
Ivan Lessa
Morreu Timothy. De morte natural. Deixou este vale de lágrimas entre as flores e os arbustos de um jardim do condado de Devon, na Inglaterra.

Foi-se como viveu: lento, silencioso, trancado dentro de si mesmo como se fosse uma pedra, com a qual, aliás, muito se assemelhava.

Não era mais nenhum garoto. Tinha 160 anos. Não há como negar: Timothy era uma tartaruga. Todos são unânimes na avaliação de sua causa mortis: foi o frio, foi este inverno que custa a passar, foi esta primavera que não chega, não chega, não chega. Timothy conheceu 160 invernos, 160 outonos, desta vez cansou-se. O corpo, afinal, não era de pedra. Era de tartaruga.

Os obituários de Timothy foram escassos e beirando a facécia. Acham graça, os ingleses, nas tartarugas. O fato de Timothy ter sido mascote do navio HMS Queen durante o ano de 1854, quando da guerra da Criméia, participando inclusive, mudo e impassível como sempre, do histórico bombardeio da cidade de Sebastopol, emprestou-lhe nos registros jornalísticos alguma dignidade – que os britânicos sempre esbanjam entre os feitos ditos militares.

Timothy pesava perto de cinco quilos e, no casco, levava uma placa pedindo que não o pegassem, devido à sua idade avançada. Os ingleses vêem um bicho e vão logo lá fuçar, mexer, pegar. As gentes, eles as deixam em paz. Talvez seja melhor assim.

Os dois episódios culminantes na longa vida de Tim – peguemos intimidade, chamemo-lo assim – foram registrados no distante ano de 1926, quando, já aposentado da Real Marinha Britânica, tentaram acasalá-lo a outra tartaruga, por nome Toby.

Na ocasião, depois de Tim reservar suas investidas amorosas apenas para e contra um capacete remanescente da primeira guerra mundial, um afoito foi lá conferir as partes pudendas de Tim. Surpresa geral. Um capitão de corveta levou a mão à espadinha. Uma condessa pediu seus sais. Timothy era – tcham, tcham! –uma tartaruga fêmea. Um Timóteo que era Timótea, para que fique claro como uma página de Nelson Rodrigues.

Timótea, pois, foi encontrada sem vida entre as (outras?) pedras do jardim de sua última dona, lady Gabrielle Courtenay, de 91 anos, que, é de se supor, está inconsolável.

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