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Bagunça na preparação para Olimpíada constrange a Grécia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A história olímpica nasceu nas impressionantemente belas ruínas da antiga cidade de Olímpia. Pela primeira vez, a tocha olímpica será global e vai passar pelos cinco continentes em uma jornada por 34 cidades em 27 países antes de retornar à capital grega, em agosto, para as cerimônias de abertura dos Jogos Olímpicos. Trata-se de um ritual que vai atravessar, pelo menos simbolicamente, um grandioso espaço de três milênios de civilização ocidental, em um espetáculo reverenciado pelo país onde nasceram as Olimpíadas e a maratona. Isso soa romântico, não é? Mas a 140 dias do início dos Jogos Olímpicos, o único som em Atenas é o de marteladas e buldôzeres que trabalham contra o relógio em uma corrida a toda velocidade para recuperar o tempo perdido. Não é surpresa para ninguém o fato de que as preparações para a Olímpiada de Atenas estão atrasadas. Como trata-se da Grécia, isso já era esperado. O inesperado é que, com o início dos Jogos Olímpicos tão próximo, apenas 24 das 39 instalações esportivas estão totalmente completas. Em 2000, os australianos terminaram todas as principais construções em Sydney um ano antes da Olimpíada, cientes de que as instalações deveriam estar disponíveis com uma boa antecedência para testes vitais, de treinamento e segurança. Mas a Grécia não é a Austrália e, então, o percurso da maratona ainda não está completamente pavimentado e o principal estádio olímpico ainda não tem seu teto. De acordo com o mais recente prazo, o local não estará pronto até três semanas antes da abertura da Olimpíada. Preocupação crescente Parte dos 32 quilômetros de uma conexão ferroviária suburbana com o aeroporto de Atenas nem começou a ser construída e os 24 quilômetros de trilhos de bondes elétricos que servirão para levar os espectadores às competições à beira-mar ainda estão em construção. E, como se tudo isso não bastasse, governo e oposição transformaram os atrasos olímpicos em uma espécie de jogo de futebol político, com uma troca de acusações sobre toda a bagunça. Não chega a surpreender, portanto, que o sentimento que prevalece em Atenas é de preocupação crescente. A discussão nos jornais, escritórios, ônibus, bares e restaurantes é praticamente a mesma: Atenas vai conseguir cumprir o prazo de 13 de agosto?
A situação não poderia ser mais embaraçosa. Os Jogos Olímpicos de Atenas – que serão realizados no país que os inventou, em 776 a.C., e organizou a primeira versão moderna, em 1896 – deveriam ser motivo de orgulho nacional e para um novo começo. O comitê organizador apelou bastante para a retórica de "os Jogos Olímpicos estão voltando para casa" e "a Grécia vai mostrar na Olimpíada a sua face moderna". Mas o que a Grécia demonstrou até agora é a sua verdadeira face. A Grécia, como nós, gregos, não cansamos de lembrar aos outros, é o berço da democracia e da civilização ocidental, etc. Mas é também um país onde o responsável pelos projetos olímpicos – um político nomeado pelo governo socialista que deixou o poder – renunciou ao cargo, 163 dias antes da cerimônia de abertura, porque não queria trabalhar com o recém-eleito governo conservador. Sediar uma Olimpíada é uma tarefa colossal para qualquer país. Não há dúvida sobre isso. Todos os países que fizeram isso sentiram o quão difícil é engrenar toda a máquina do Estado para o que precisa ser um genuíno evento global. Incentivo moral Sediar os Jogos Olímpicos, depois do brilhante sucesso de Sydney, em um país com pouco menos de 11 milhões de habitantes, sobrecarregados de problemas, sempre foi um desafio enorme, além de uma aposta, para o Comitê Olímpico Internacional (COI) e para a própria Grécia. A Grécia é o menor país a sediar os Jogos Olímpicos desde a Finlândia, em 1952, mas não há desculpas. Nós tivemos sete anos para nos preparar para a Olimpíada. Quando o COI escolheu Atenas para sediar a competição, em 1997, houve uma grande euforia. Vencer a disputa com outras cidades foi, sem dúvida, um incentivo ao nosso moral, uma garantia para nossa necessidade psicológica de reconhecimento internacional, e deu a sensação de que o país estava, naquele momento, em primeiro lugar.
Muitos gregos também viram a Olimpíada como um catalisador, que facilitaria a modernização necessária em áreas como a construção civil, os transportes, as telecomunicações e a tecnologia da informação, setores em que a Grécia está atrasada. Mais que isso, tratava-se de um grande teste para a habilidade do país de organizar um dos mais importantes eventos internacionais sem tornar tudo uma orgia de caos, gastos, ineficiência, corrupção e exploração do contribuinte. O orçamento astronômico de US$ 6 bilhões (R$ 17,6 bilhões), que ainda continua a aumentar, já está sendo investigado pelo novo governo. Uma Olímpiada pode provocar maravilhas (Barcelona, Sydney) ou prejuízos incalculáveis (Montreal, Atlanta) para a reputação de uma cidade e, conseqüentemente, de um país. A bagunça da preparação olímpica na Grécia demonstrou ao mundo o pior e caótico lado do nosso país – o que certamente não é o que nós, gregos, tínhamos em mente quando começamos nossa cruzada olímpica há sete anos. Mas o início do grande evento está se aproximando e nós de agora até a cerimônia de encerramento, em 29 de agosto, precisamos nos unir e finalmente cumprir um pouco da nossa retórica de "os melhores e mais seguros Jogos Olímpicos da história" com ação. O mundo inteiro está esperando. * George Kassimeris, um analista político grego e pesquisador-sênior da Universidade Wolverhampton, é o autor de 'Europe's Last Red Terrorists'. |
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