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'Guerrilheiros se movimentam no Brasil', diz Colômbia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A Colômbia acredita ser provável que membros do maior grupo guerrilheiro em ação no país estejam movimentando-se em território brasileiro. Para ajudar na luta que desenvolve contra o narcotráfico, a delinqüência e o terrorismo, o país vizinho quer ter acesso às informações do Serviço de Vigilância da Amazônia (Sivam). Conforme a ministra de Relações Exteriores da Colômbia, Carolina Barco, somente com prevenção e troca de informações os dois países poderão proteger os 1.645 km de fronteira que compartem. Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, Carolina Barco destacou a melhora nas relações entre os dois países, abordou os avanços das negociações entre a comunidade andina e o Mercosul e a maior aproximação dos governos brasileiro e colombiano em temas econômicos e comerciais. BBC Brasil - Que mudanças ocorreram nas relações entre os dois países depois da posse dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Álvaro Uribe Vélez? Carolina Barco – As relações entre Brasil e Colômbia se fortaleceram. Essa aproximação pode ser medida de distintas maneiras, começando com as visitas feitas pelos dois presidentes. Uribe esteve em Brasília em março do ano passado. Lula nos acompanhou na Colômbia em duas oportunidades muito importantes: durante a reunião da Comunidade Andina de Nações (CAN) e no Encontro da Organização Internacional do Café. Além disso, em outros encontros presidenciais, eles sempre se reúnem para conversar e analisar como estão as negociações de temas bilaterais, como segurança, comércio e integração política. BBC Brasil – Em inúmeras ocasiões, o governo colombiano demonstrou interesse em utilizar o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Como estão as negociações nesse sentido? Que tipo de informações geradas pelo Sivam seriam utilizadas pela Colômbia? Barco – Tive a oportunidade de conversar sobre esse assunto ontem com o nosso ministro da Defesa. Ele reiterou o grande interesse que a Colômbia tem no Sivam. O sistema serviria para complementar sistemas semelhantes que a Colômbia tem com o apoio dos Estados Unidos. Juntamente com o Brasil e o Peru, que também está muito interessado no Sivam, buscaríamos um melhor controle da amazônia, tanto para buscar avanços com a biodiversidade, como para barrar a ação do narcotráfico e todos esses negócios ilícitos que queremos ter muito bem controlado. BBC Brasil – O Brasil é um grande produtor de insumos químicos usados na fabricação de cocaína e também um dos maiores fornecedores desses produtos para o narcotráfico colombiano. Vocês tem informações sobre a quantidade que entra na Colômbia? O que o governo está fazendo para solucionar esse problema? Barco – Não temos essa informação. Mas, tanto o Brasil, como a Colômbia, têm interesse sobre o tema das drogas. Acredito que esse tem sido um dos aspectos mais dinâmicos em nossas relações. Ambos países reconhecem que é fundamental combater o tráfico de drogas. Estamos muito comprometidos nesse sentido. Por isso, estamos melhorando os controles na fronteira a armas, insumos químicos e todos os elementos distintos relacionados com o tráfico de drogas. BBC Brasil – Com a captura do líder guerrilheiro Simón Trinidad em Quito ficou comprovado que as Farc estão agindo fora da Colômbia. A senhora acredita que eles também possam estar atuando em território brasileiro? Barco – Todas as nossas fronteiras, com Brasil, Peru, Equador, Panamá e Venezuela, são muito abertas. Em algumas, há mais população, como com o Equador e a Venezuela. Em outras, menos, como é com o Brasil e o Peru. Provavelmente, há movimentação da guerrilha por essas áreas, mas não são lugares de forte concentração desses grupos. Não é que as Farc estejam no Brasil. Mas é muito claro que eles se movimentam por toda a Amazônia. BBC Brasil – A família da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, seqüestrada pelas Farc há mais de dois anos, garante que a informação sobre a suposta liberação dela no Brasil, em julho do ano passado, foi dada pelo presidente Álvaro Uribe. O que tem de verdade nessa história? Por que o governo brasileiro não foi informado sobre a operação de resgate montada pela França em Manaus, que acabou gerando um problema diplomático entre França e Brasil? Barco – Essa informação em nenhum caso surgiu por parte do presidente. O governo colombiano desconhecia toda essa operação. No momento indicado, expressamos nossa estranheza ao governo francês pelas operações feitas, porque nós as desconhecíamos totalmente. O mesmo deve ter ocorrido com o governo do Brasil. Tanto o ministro Celso Amorim, quanto eu, tivemos a oportunidade de falar com o ministro de Relações Exteriores da França, Dominique de Villepin, e expressar nossa surpresa e o inaceitável que foi esse tipo de operação sem o nosso conhecimento. BBC Brasil – No ano passado, o governo brasileiro ofereceu seu território para que fosse realizada uma reunião entre as Farc e a ONU, na tentativa de solucionar o conflito interno colombiano. Por que esse encontro ainda não ocorreu? Barco – Porque as Farc não têm vontade política. Nós agradecemos ao governo do Brasil o interesse e o apoio que sempre demonstraram com a Colômbia, para ajudar no momento que seja útil e o governo ache pertinente. Nada ocorreu porque as tentativas do representante da ONU na Colômbia de se aproximar dos guerrilheiros não deram frutos. Por isso não solicitamos o apoio brasileiro. Mas, entendemos que essa oferta ainda está à disposição. É uma posição muito solidária do governo brasileiro com a Colômbia. BBC Brasil – De que maneira o programa brasileiro de substituição competitiva de importações pode ajudar a Colômbia? Barco – É muito interessante essa proposta brasileira de dar prioridade aos produtos da região. Nesse momento, estão sendo feitas análises de quais serão esses produtos para ver como podemos fortalecer nosso comércio. Temos esse interesse e essa é outra oportunidade que o Brasil está nos oferecendo. BBC Brasil – Uma integração real da Colômbia com os demais países da região não passaria primeiro por uma solução do conflito interno? Barco – É muito importante que se saiba, na região dos compromisos, que a Colômbia tem para solucionar os problemas com os grupos ilegais. Esse esforço que se faz é também em benefício de toda a região, porque o problema das drogas e do terrorismo já começa a se apresentar em outras partes da América Latina. É fundamental que todos estejam unidos para enfrentar o problema, que tem de ser um compromisso latino-americano. A Colômbia está atuando de forma responsável e comprometida nessa situação. BBC Brasil – Como estão as negociações para a integração com o Mercosul? Barco – Por conta de uma liderança muito clara do Brasil e um compromisso da Comunidade Andina de Nações, as negociações com o Mercosul estão muito avançadas. Na próxima semana devemos terminar a última rodada de discussões. Esperamos terminar em breve a negociação entre os dois grupos. |
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