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Livro de Blix revela bastidores de inspeções | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Se havia um homem que poderia ter impedido a guerra no Iraque no ano passado, provavelmente não era Hans Blix. O ex-inspetor enfrentou uma missão quase impossível. Ele estava à procura de algo que não existia. Como Blix não encontrou nada a tempo, os americanos e britânicos não aceitaram que a ausência de provas significava uma prova da ausência. Hans Blix também estava lidando com um líder iraquiano que não entendia que a única coisa capaz de salvá-lo era uma cooperação total. Mas, mesmo assim, isso poderia não ter funcionado. ONU 'diminuída' A própria personalidade ponderada e sensata de Blix também contou contra ele. Sua, ainda suave, voz de calma não foi forte o suficiente. O livro Disarming Iraq (Desarmando o Iraque, na tradução literal), escrito por Blix e publicado agora, poucos dias antes do aniversário de um ano da guerra no Iraque, oferece ao ex-inspetor a chance de dizer "eu avisei", e é isso o que ele diz. Mas Blix faz isso da mesma maneira serena e contida com que procurou a verdade. O ex-inspetor até admite que, em determinado momento, por volta de 20 de fevereiro de 2003, estava propenso "a acreditar que o Iraque ainda escondia armas de destruição em massa". No entanto, Blix expressa sua conclusão sobre a guerra de maneira simples o suficiente: "Foi causada por uma ação armada injustificada dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha". Ele também reconhece que um dos custos do conflito foi "a credibilidade prejudicada dos governos que buscaram" a guerra e a "autoridade diminuída das Nações Unidas". Falta de crítica Apesar dessas conclusões, Blix é particularmente generoso em seu julgamento daqueles que foram à guerra. "Um denominador comum das falhas, ao que parece, foi um déficit de pensamento crítico", afirma. O ex-inspetor também não acusa o governo Bush de orquestrar um movimento em direção à invasão do Iraque. "Minha conclusão foi, e ainda é, de que a ação armada adotada era esperada, mas não predeterminada de maneira irrevogável", escreve Blix. Como ocorre com freqüência nos livros escritos por personagens da história, o que realmente conta é a maneira como outros envolvidos são retratados. Um exemplo que surge em Disarming Iraq é a descrição de como alguns líderes americanos tiraram suas conclusões com bastante antecedência. O livro cita um encontro de Blix e Mohamed El-Baradei, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com o vice-presidente americano, Dick Cheney, em outubro de 2002. "Ele expressou a posição de que, se não dessem resultados, as inspeções não poderiam prosseguir para sempre e disse que os Estados Unidos estavam 'prontos para desacreditar as inspeções em favor do desarmamento'." "Uma maneira bastante direta, creio eu, de dizer que, se nós não encontrássemos logo as armas de destruição em massa que os Estados Unidos estavam convencidos que o Iraque possuía, os Estados Unidos estariam prontos para dizer que as inspeções eram inúteis e para iniciar o desarmamento por outros meios." Convicção de Blair Blix afirma que o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, também estava convencido que Saddam Hussein estava escondendo algo.
Em um encontro, "Blair disse que até os serviços de inteligência franceses e alemães estavam certos de que havia tais armas, os egípcios, também". "(Eu disse que) seria paradoxal e absurdo se 250 mil tropas invadissem o Iraque e encontrassem muito pouco", escreve Blix. "Blair respondeu que as informações eram claras e que Saddam havia reconstituído seus programas de armas de destruição em massa." Isso foi depois de Blix informar ao primeiro-ministro britânico que muitas das informações apresentadas pelos serviços de inteligência "não eram tão convincentes assim". Naquela altura, em três locais suspeitos apontados por britânicos e americanos, nada havia sido encontrado. Dúvidas britânicas? Quando a guerra era iminente, Blix revela uma pressa do governo britânico para tentar um avanço de última hora e conseguir que o Iraque se comprometesse com uma série de medidas que demonstrariam a boa-fé do país. Permitir que os cientistas iraquianos fossem entrevistados era uma delas. "Às 8h da manhã de 10 de março, recebi uma ligação de um membro da missão britânica (junto à ONU)", conta o ex-inspetor. "Ele se desculpou por me incomodar em um horário tão pouco diplomático e perguntou se eu poderia ir à missão dele em meia hora para receber uma ligação (em uma linha segura) do primeiro-ministro." De acordo com Blix, o plano não resultou em nada, mas demonstrou que a Grã-Bretanha pode ter enfrentado algumas dúvidas de última hora sobre a ação militar. Ou que os britânicos pretendiam mostrar a intransigência iraquiana. Ambigüidade Se alguma crítica pode ser feita a Hans Blix é que ele não acabou com a ambigüidade que foi freqüentemente transformada em certeza. A ambigüidade foi que o Iraque não revelou de maneira conclusiva o destino de materiais que havia admitido possuir anteriormente e que poderiam ser utilizados para a fabricação de armas químicas e biológicas. Isso permitiu que "materiais não listados" fossem transformados pelos "falcões" do governo Bush em armas reais e ameaçadoras. Contra esse tipo de certezas, os argumentos cuidadosos de Blix, evidentes em cada página de seu livro, não vão longe. |
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