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Para Blix, governo britânico exagerou risco em dossiê
O ex-chefe dos inspetores de armas da ONU no Iraque Hans Blix afirmou que ainda acredita que o governo britânico exagerou em seu dossiê sobre o suposto arsenal de armas de Saddam Hussein. Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, Blix afirmou que o documento, divulgado em 2002, errou claramente em uma série de pontos. "A famosa afirmação de que o Iraque poderia mobilizar armas de destruição em massa em 45 minutos foi um exagero", afirmou. Hans Blix disse ainda que hoje "todos estão chegando à conclusão de que não há armas de destruição em massa no Iraque". Nesta quinta-feira, Blix presidirá, em Estocolmo (Suécia), a abertura da nova Comissão contra Armas de Destruição em Massa, que terá entre seus integrantes o brasileiro Marcos Azambuja. A nova comissão deverá apresentar propostas concretas para reduzir a ameaça das armas químicas, nucleares e biológicas no mundo. O relatório final será enviado ao secretário-geral da ONU e aos governos do mundo inteiro no final de 2005. Leia abaixo a íntegra da entrevista com Hans Blix: BBC Brasil - Qual a sua opinião sobre o veredito do Relatório Hutton, que inocentou o governo Blair da acusação de ter exagerado o dossiê sobre as supostas armas de destruição em massa do Iraque? Hans Blix - Não posso comentar os argumentos internos do relatório, mas o que posso dizer é que com certeza o dossiê do governo britânico foi claramente errôneo em uma série de pontos. BBC Brasil - Teria sido um exagero cometido pelo governo britânico? Blix – Se o governo está usando uma palavra como "usar" ("deploy"), que está levando o ouvinte a acreditar que a situação era pior do que era na realidade... BBC Brasil - O sr. acredita então que de fato o governo britânico "esquentou" ("sexed up") o dossiê para justificar a ação militar contra o Iraque? Blix – Bem, a escolha de palavras é sua. Eu prefiro dizer que o dossiê foi exagerado ("hyped"). BBC Brasil - O chefe dos inspetores de armas dos Estados Unidos no Iraque, David Kay, renunciou na sexta-feira, afirmando não acreditar que o Iraque possua um grande arsenal de armas de destruição em massa. No domingo, o secretário de Estado americano, Colin Powell, admitiu que talvez o Iraque não tivesse essas armas antes da ação militar contra Bagdá. Qual é a sua conclusão sobre o conflito no Iraque? Blix - Hoje, claramente, todos estão chegando à conclusão de que não há armas de destruição em massa no Iraque. Nós não podíamos afirmar isso na época. Mas os Estados Unidos afirmaram que havia armas, e os Estados Unidos estavam errados. Os americanos afirmam agora que Saddam Hussein tinha intenção de adquirir as armas, mas precisam apresentar provas de que isso é verdade. O que eu gostaria de saber agora é a verdade, ver evidências na mesa. BBC Brasil - O sr. acha que os americanos aprenderam alguma lição? Blix – Penso que os americanos aprenderam várias lições. A primeira delas é que certamente os serviços de inteligência americanos precisam melhorar. A segunda lição é que é preciso ter pensamento crítico: nós vivemos hoje num novo milênio e não podemos mais acreditar em bruxas. BBC Brasil - O sr. convidou pessoalmente o brasileiro Marcos Azambuja, ex-embaixador em Paris e ex-chefe da Delegação do Brasil para Assuntos de Desarmamento e Direitos Humanos em Genebra, a integrar a nova Comissão contra Armas de Destruição em Massa. O sr. acredita que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem um papel a desempenhar nos esforços para reduzir a ameaça das armas de destruição em massa no mundo? Blix - Marcos Azambuja foi embaixador em Genebra e é extremamente experiente em questões de desarmamento. Eu o conheço bem, e com certeza Azambuja será de grande valor para a Comissão. E o Brasil certamente está bem posicionado para desempenhar um papel na luta contra o desarmamento. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, também possui extrema experiência na questão. Foi ele o autor do relatório que deu origem à equipe de inspetores de armas da ONU, que eu viria a chefiar. O Brasil é um país imenso, que se torna cada vez mais consciente de seu papel no cenário internacional. E será extremamente importante se o Brasil puder atuar em favor do desarmamento. Devo dizer, aliás, que sou a favor do programa nuclear brasileiro. A questão do aquecimento global me preocupa tanto quanto a ameaça das armas. E, embora a energia nuclear não seja a única resposta ou a resposta completa para o problema do aquecimento global, não vejo como poderemos a curto prazo reduzir as emissões de dióxido de carbono sem recorrer à energia nuclear. Sei que muitos são contra o uso da energia nuclear, mas atualmente temos vistos progressos no que se refere à seguranca da utilização desse tipo de energia, e o Brasil tem dado passos importantes nessa direção. |
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