|
Capital do Haiti vive clima de tensão política | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Apesar de afastada da área de conflito e protegida por altas montanhas e à beira de uma baía de águas calmas, Porto Príncipe, a capital do Haiti, é uma cidade em que a tensão política pode ser sentida claramente. No centro, passando pela Delmas – uma conhecida avenida da cidade – as casas se assemelham às de um bairro de classe média baixa de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Mas há muito mais entulho nas calçadas e lixo espalhado pelo chão – garrafas plásticas e restos de alimentos, devorados com avidez por cães. Nos muros da Delmas e nos do restante da cidade, não faltam pichações políticas, outro sinal da tensão. Pichações A maioria é de apoio ao presidente Aristide – "Viv Aristid, 5 ans", dizem algumas delas, manifestando apoio à permanência do presidente no cargo até o final de seu mandato. Mas também há pichações da oposição, que se recusa a dialogar com o presidente e exige que ele deixe o governo. Conversando com um líder da oposição, comento o fato de que o grande portão de metal da sede de sua organização ter sido alvo dos pichadores pró-Aristide. Ele ri e pergunta se eu havia lido direito. Fomos para o lado de fora da sede. “Viu? Eles se deram mal. Nós completamos a frase.” “Viv Aristid, 5 ans prison” (“Viva Aristide, 5 anos de prisão”), dizia a chamativa inscrição, em vermelho vivo. Contraste Saint Jean Jacques, um taxista de Porto Príncipe, explica que não sabe ao certo se há mais simpatizantes de Aristide ou mais opositores do presidente na cidade. "Os pobres gostam mais dele, os ricos menos", resume ele, dizendo que está preocupado com o avanço de grupos armados no interior. "A violência não leva a nada. Mas a grande maioria das pessoas é pobre aqui. Não vai à escola. Essa situação tem de mudar, de alguma forma." Em Porto Príncipe, muitos dos poucos ricos vivem na área onde estão as embaixadas. Nesse bairro, há uma montanha e, no seu cume, um hotel de alto luxo foi construído. É lá onde fica a maior parte dos jornalistas que vem à cidade. As representações diplomáticas estrangeiras se protegem com altos muros do restante de Porto Príncipe e suas favelas. Mas basta pegar um táxi, e em alguns minutos, as casas de alvenaria simples e as ruelas laterais com esgoto a céu aberto se revelam. Comemoração O país comemora neste ano os 200 anos de sua independência. Na ocasião, o Haiti se tornou a primeira república de maioria negra da história. Nas ruas, faixas comemorativas ainda estão penduradas, saudando a liberdade conquistada com orgulho pelos haitianos ao se separar da França. A reforma do aeroporto, encomendada para as celebrações, está sendo concluída. Ao redor dele, muitos taxistas haitianos estão fazendo fortunas com as dezenas de jornalistas que vêm chegando todas as semanas a cidade, desde que a crise política no país se intensificou. Com dólares em seus bolsos, para eles a crise é um excelente negócio e motivo de boas risadas. Pressão Em um protesto no domingo passado, estudantes pareciam se divertir falando mal de Aristide. Perguntei a um dos manifestantes o que ele acha do fato de os Estados Unidos e a comunidade caribenha estarem dizendo que a solução do país deve ser constitucional – e que Aristide deve permanecer no governo. "Eles estão errados", respondeu indignado. "Aristide está acabando conosco. Não há emprego. Não podemos estudar." "Se os Estados Unidos e outros países querem realmente nos ajudar, só há uma coisa que podem fazer: pressionar Aristide a renunciar." No interior do Haiti, os rebeldes armados decidiram não esperar pela ajuda de outros países. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||