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Entenda como o Haiti chegou à atual crise | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Em uma rua de Porto Príncipe, o taxista Saint Jean Jacques fala de sua preocupação com a tensão política no país. “O Haiti é um país em que 10% das pessoas vão a escolas, e 80% ou mais são pobres. A situação não pode ficar assim. É preciso fazer algo.” Neste ano, o Haiti comemora os 200 anos de sua independência da França, quando se tornou a primeira república negra da história – um motivo de grande orgulho por parte da população. Mas hoje, além de ser o país mais pobre das Américas, o Haiti vive o avanço de rebeldes armados, que estão tomando cidades no interior e exigem a renúncia do presidente Jean-Bertrand Aristide. O bem e o mal Em 1990, quando foi eleito pela primeira vez, Aristide representava uma esperança de que o país finalmente deixasse para trás os 30 anos de ditadura da família Duvalier. François Duvalier (conhecido como “Papa Doc”), que governou de 1957 a 1971, e seu filho Jean-Claude Duvalier (o “Baby Doc”), de 1971 a 1986, são considerados por analistas dois dos mais violentos governantes da história. Para assegurar o controle do país, os dois líderes haitianos empregavam os chamados Tonton Macoutes – guardas armados do presidente, que reprimiam violentamente a oposição. “Esse processo de transição, depois da queda de (Jean-Claude) Duvalier, teve uma série de governos provisórios, até que as eleições foram organizadas em 1990”, explica o ex-senador Serge Gilles, atualmente um dos coordenadores do Partido Pampra, de oposição. “Foi nessa eleição que foi formada a dicotomia: o Satã e o Cristo. Aristide representou o Cristo, os duvalieristas, o diabo.” “Foi fácil para Aristide. Como o povo não tinha educação política sobre a democracia, foi fácil apresentar o problema ao povo assim, como visões de Deus e o Diabo.” Trajetória Aristide, um ex-padre de raízes humildes, ganhou projeção em discursos inflamados que fez, durante os anos 80, em uma das áreas mais pobres de Porto Príncipe. Quando eleito pela primeira vez, o atual presidente gozava de grande popularidade, assim como o seu partido, o Lavalas. Mas, meses depois de ter sido eleito, Aristide foi afastado do poder em um golpe de Estado. Fugindo para os Estados Unidos, o presidente liderou esforços para convencer a comunidade internacional a intervir, que culminaram com a invasão do país por cerca de 20 mil soldados americanos, em 1994. Restituído no poder, ele foi sucedido na Presidência por René Preval, mas seria reeleito em 2000, em eleições que a oposição considera terem sido fraudulentas. Desde então, a tensão tem aumentado, com a formação de frentes amplas de oposição, como a Convergência Democrática, cujo principal objetivo é afastar Aristide do poder. Desperdício “De maneira clara, evidente, começou a virar ditador depois de sua volta”, diz Gilles, dizendo que o fato de ter sofrido um golpe de Estado foi uma desculpa para Aristide assumir suas posições que, segundo ele, são “anarcopopulistas”. “Penso que o Lavalas (partido de Aristide) é fruto do sistema de Duvalier”, diz ele. “O anarcopopulista é contra as instituições, o Estado, contra tudo o que é organizado.” Entretanto, para Richard Widmaier, diretor da rádio Metropole, de Porto Príncipe, o problema de Aristide não é a ideologia que ele representaria, mas sim o fato de ele ter lidado de maneira inconseqüente com as expectativas do povo haitiano. “Em um país tão pobre como o Haiti, é difícil para qualquer pessoa resolver todos os problemas (...). Mas Aristide disse ao povo que faria isso, prometeu. Mas ele não cumpriu, nem poderia”, afirma. “Aristide é como uma pessoa que está jogando pôquer e têm um grande conjunto de cartas na mão, mas não as aproveita. (...) Ele tinha tudo.” Otimismo Para Widmaier, a violência que se espalha pelo interior do Haiti tem raízes profundas que precisam ser arrancadas se o país quiser se tornar verdadeiramente democrático. “É tentador dizer que há padrões que vêm sendo seguidos. Padrões de comportamento, de pensamento. Começamos há 200 anos, e os heróis haitianos, que expulsaram os franceses, continuaram a usar as mesmas técnicas que os franceses usavam para se manter no poder”, diz ele. “Nós temos que mudar a mentalidade haitiana, para que possamos entender a democracia.” Mas Widmaier é otimista quanto ao futuro do país. “O que estamos vendo agora, talvez, possa nos levar pela primeira vez à democracia.” A ofensiva rebelde no interior do Haiti já deixou mais de 50 mortos desde o dia 5 de fevereiro, quando os rebeldes tomaram uma série de cidades no oeste do país. O presidente Aristide insiste que não tem a intenção de renunciar, como quer a oposição, e que só vai deixar o poder em 2006, quando seu atual mandato chega ao final. |
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