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Ivan Lessa: Armas em Massa | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Semana passada, aqui na Grã-Bretanha, o governo de Tony Blair passou por duras 48 horas. Venceu, no Parlamento, uma batalha sobre uma controvertida política de auxílio financeiro a estudantes de faculdade, embora com uma maioria mínima, se tal é possível (cinco votos), o que é o equivalente a ganhar de gol de pênalti nos últimos instantes de uma partida de futebol. Na quarta-feira, o relatório do juiz Brian Hutton, da Suprema Corte e membro da ala jurídica da câmara alta, destinado a apurar as circunstâncias que levaram à morte do cientista e inspetor de armas no Iraque, David Kelly, acabou exonerando o primeiro-ministro de qualquer conduta desairosa no episódio que fazia parte das complicadas manobras em torno do vazamento de um dossiê preparado pelo governo a respeito das supostas armas iraquianas de destruição em massa. Quem levou a sobra foi a BBC, que, segundo Lorde Hutton, teve “conduta falha”. Essa “conduta falha” está sendo examinada com lupa por boa parte da imprensa que ficou – esta a única palavra – boquiaberta diante da conclusão de Lorde Hutton. Não me cabe julgar os méritos do relatório, embora eu os julgue e deles discorde solene e modestamente no meu canto de free-lancer da BBC. Mas estas armas de destruição em massa continuam atravessadas em minha garganta, para me apropriar de uma péssima metáfora. Continuam também, para compensar e dar parceria a alguém pela minha falta de imaginação, continuam também a ser uma pedra em meu caminho, embora meça minhas palavras e tenha consciência que bem mais duro e ameaçador são os caminhos iraquianos para ocupantes e ocupados. A semântica do caso eu acompanho com vivo interesse. Aqui na Grã-Bretanha, não importa o dossiê ou o relatório, continuam a ser armas de destruição em massa. Aos poucos, no entanto, nos Estados Unidos, elas vêm mudando, como alguém se transformando de lobisomem em novamente homem. Em março de 2003, George W. Bush falou em “armas de destruição em massa”. Ponto. Em junho, virou “programas de armas de destruição em massa”. Por volta de outubro, a coisa virou “programas relacionados a armas de destruição em massa”. E, neste ano de 2004, em seu pronunciamento sobre o Estado da União, o bom Bush falou em “programa de atividades ligadas a armas de destruição em massa”. Eu tacaria um Lorde Hutton lá neles, os americanos. E quando passarem a chamar de estilingue ou bodoque, me acordem. |
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