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Ivan Lessa: A morte do pavão
Nas folhas e blogs brasileiros, diante dos quais sento-me quieto e anônimo na geral, como o torcedor desinteressado do jogo, encontro vez por outra o Rio que eu perdi há 26 anos, quando o vi pela última vez. Que notícias me dão de vocês, pergunto do meu canto. Rio antigo não vale. Dois livros recentes, um do Rui Castro e outro de Antônio Bulhões, esse último dedicado exclusivamente ao ano-chave de 1922, me dão conta, segunda as resenhas que li. Pedi-os, vêm por aí, após o devido fichamento no aeroporto de Heathrow. Universo paralelo Fica faltando a ficção. Aguardo, pressuroso, todos os anos o novo Rubem Fonseca, o novo Dalton Trevisan. Dalton, argumentarão os ingênuos, é sinônimo de Curitiba, seu vampiro sedutor. Sem dúvida, só que a Curitiba da mente do Dalton é universal e se encontra situada num universo paralelo onde coexistem, em mudo rancor, Curitiba, Rio, Londres, Paris e Veneza. Escrever leva tempo e dá um trabalhão. A vida é rápida e não custa nada. Principalmente no Rio de hoje, pelo que vejo. Lá está na notícia enviada por um amigo, e que eu aprofundo embrenhando-me nos buscadores da Net, o Rio que poderia ser um conto do Rubem Fonseca ou do Dalton Trevisan, se este se desse ao turismo literário. Relendo a nota, lembro que Otto Lara Resende e Clarice Lispector também apreciariam a argila pura – a lama podre? – do acontecimento por certo corriqueiro. Travestis Eis o conto: na madrugada de 10 de janeiro, o desempregado Paulo Roberto de Oliveira, de 37 anos, esfomeado, matou um pavão que vivia na praça da República, em frente à Central do Brasil. A ave era da estimação dos travestis da região. O grupo, revoltado ao ver Oliveira pulando a grade com o animal morto, atirou pedras em Oliveira e, a seguir, agrediu-o com chutes e socos na cabeça. Tentando fugir, Oliveira ficou com o braço direito preso à ponta de uma das lanças da cerca. Pendurado, teve que ser retirado pelo Corpo de Bombeiros. O caso foi encaminhado à 4ª Delegacia de Polícia (Central do Brasil) onde o desempregado teria sido indiciado por crime ambiental pela morte do pavão. Nenhum dos agressores foi preso. Na segunda-feira, dia 12, a Fundação Parques e Jardins, órgão responsável pelas áreas verdes da cidade, movimentou seus advogados para registrar queixa contra o homem que queria comer um pavão. |
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