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Atualizado às: 24 de janeiro, 2004 - 13h54 GMT (11h54 Brasília)
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Brasil tem a aprender com a Índia, diz Nogueira Batista

Computadores na Índia
Indústria da informática cresce depressa na Índia

O economista Paulo Nogueira Batista Júnior acha que o governo brasileiro tem uma boa oportunidade, na viagem que começa neste fim de semana à Índia, de ver uma experiência econômica que está sendo bem sucedida apesar de contrariar o receituário seguido pelo Brasil e outros países da América Latina a partir dos anos 90.

“A Índia tem déficit fiscal, cresce mais do que a média mundial, tem inflação baixa e não tem vulnerabilidade externa, tem reservas elevadas e controle do fluxo de capital externo”, diz Batista Júnior, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e professor-visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (Usp).

O economista também criticou a decisão do Banco Central, de manter em 16,5% os juros, em vez de prosseguir na trajetória de queda iniciada em junho do ano passado.

“Uma decisão ridícula, não havia motivo para isso”, afirmou. Ele acha, no entanto, que ainda dá tempo de recuperar o terreno e estimular o crescimento nos próximos meses.

Leia a seguir a entrevista à BBC Brasil.

BBC Brasil - O senhor escreveu um artigo esta semana dizendo que o Brasil poderia aprender na Índia, nesta viagem presidencial. O que a Índia tem a ensinar ao Brasil na economia?

Paulo Nogueira Batista Júnior - A experiência da Índia é muito curiosa, porque ela contraria algumas políticas que são muito populares aqui no Brasil. Por exemplo, a Índia cresce, há muitos anos, em taxas bem acima da média mundial, 6% ao ano nos últimos anos, ao mesmo tempo que tem um déficit fiscal que é um dos maiores do mundo. Durante cinco anos consecutivos registrou um déficit fiscal de 10%. O que se deveria esperar, de acordo com o que se ensina no Brasil: inflação alta, juros pressionados, vulnerabilidade externa, e não há sinal disso na Índia. A Índia tem uma inflação baixa, da ordem de 3%, 4%, taxa de juros moderadas, em torno de zero em termos reais e não tem vulnerabilidade externa. Ao contrário, e eu acho que esse é um motivos. Ela tem reservas altas, uma conta corrente ajustada, conta superavitária na balança de pagamentos e controla os fluxos de capital. Adota uma série de medidas de prudência que o Brasil só vem adotando recentemente e ainda assim de forma incompleta. Eu não sou nenhum especialista em economia da Índia, mas analiso os números e fico intrigado entre o contraste da experiência concreta de um país tão importante e as teorias que eu chamei até de ortodoxia de galinheiro, que prevalecem aqui no Brasil sobre esses assuntos.

BBC Brasil - E o senhor tem alguma recomendação sobre o que o governo brasileiro deveria fazer em relação a isso?

Batista Júnior - Vários países seguiram um caminho bem diferente daquele que prevaleceu na América Latina desde os anos 90. A Índia é um exemplo importante, mas podemos citar também a China, a Rússia pós-Ieltsin. São países que não seguiram o chamado Consenso de Washington adotado aqui na América Latina e tiveram um desempenho muito melhor.

BBC Brasil - O controle de fluxo de capitais, por exemplo, adotado pela Índia, no Brasil nem se podia falar.

Batista Júnior - É, mas é uma bobagem, porque adotado de forma criteriosa e seletiva a regulação do movimento de capital para dentro e para fora da economia é um instrumento importante para os países em desenvolvimento.

BBC Brasil - Apesar do crescimento econômico dos últimos anos, a miséria da Índia ainda é muito maior do que a nossa. A que o governo deveria prestar mais atenção no país?

Batista Júnior - Além do que eu já disse, tem um outro aspecto, que vai ser tratado na viagem, que é a negociação de um acordo comercial da Índia com o Mercosul. Dada a importância política da Índia no mundo, a assinatura do acordo de preferência comercial, é importante como reforço da estratégia Sul-Sul. A Índia teve um papel importante na articulação junto com o Brasil do G-20 nas negociações da OMC em Cancún. A aliança com a Índia é importante não só bilateralmente mas também como reforço nos organismos multilaterais.

BBC Brasil - Com a decisão do Copom de manutenção dos juros em 16,5%, qual é a sua expectativa de crescimento para este ano. Ela pode atrasar a recuperação da economia?

Batista Júnior - O impacto é adverso em termos de recuperação de produção e emprego. Fornece aos agentes econômicos uma informação que eles não tinham, de que o Banco Central está mais rígido do que parecia estar em relação ao controle da inflação. Eles podem se perguntar: será que o Banco Central sabe alguma coisa que nós não sabemos?

BBC Brasil - Em termos de atuar na psicologia do mercado, o senhor acha que foi uma decisão errada?

Batista Júnior - Uma decisão ridícula, porque não havia motivo para isso. Economia ainda fraca, desemprego alto, inflação bastante controlada, expectativa de inflação em queda.

BBC Brasil - A justificativa do Copom foi de que as medidas tomadas até agora ainda não surtiram o efeito. Não seria então de se supor que teria que se aumentar a dose do remédio, em vez de cortar?

Batista Júnior - O Banco Central quis dar uma demonstração de firmeza, de seriedade, de reforçar suas credenciais antiinflacionárias, é a única forma que eu consigo entender isso. Mas é uma forma muito custosa de fazer isso. Não era esperado, não era necessário. Só espero que o Banco Central retome a trajetória de crescimento nos próximos meses. O comportamento dos juros no Brasil é uma aberração em termos econômicos.

BBC Brasil - Isso vai custar o crescimento deste ano?

Batista Júnior - Ainda é cedo, dá para mudar. Não necessariamente condena o ano.

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