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Atualizado às: 28 de novembro, 2003 - 19h59 GMT (17h59 Brasília)
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Muro israelense isola aldeia de territórios palestinos

Menina passa pelo portão de Jebara observada por soldado (foto de Efrat Torjdman)
Menina passa pelo portão de Jebara observada por soldado (foto de Efrat Torjdman)

O muro que Israel está construindo na Cisjordânia vai deixar 115 mil palestinos completamente cercados, impedidos de entrar em Israel e desconectados dos territórios palestinos, de acordo com a Betselem, principal organização israelense de direitos humanos.

Esses palestinos são habitantes de 53 aldeias que ficarão encurraladas entre o muro e a chamada “linha verde”, a fronteira original entre Israel e a Cisjordânia antes da ocupação dos territórios palestinos na guerra de 1967.

Jebara, ao sul da cidade de Tulkarem, é uma das aldeias que já estão isoladas, pois lá as autoridades israelenses já concluíram a construção do que os palestinos chamam de “muro de anexação” e os israelenses, de “cerca de separação”.

À primeira vista, Jebara parece uma aldeia bastante abastada, as casas são grandes e bem construídas e vê-se muitas áreas verdes.

Mas conversando com os habitantes da aldeia percebe-se que, no caso de Jebara, as aparências realmente enganam.

Duas vias

Desde que Israel terminou a construção do muro só restaram duas vias de acesso a Jebara, a primeira, ao norte, passa por um ponto de checagem militar junto à entrada da cidade de Tulkarem; a segunda, ao leste, passa por um portão na cerca, geralmente fechado com cadeados.

Os moradores só podem sair a pé, pelo ponto de checagem.

Desde o fechamento das vias de acesso a Jebara, a aldeia passou por um rápido processo de empobrecimento e hoje 90% dos habitantes estão desempregados e dependem da ajuda externa para sobreviver.

“Até um ano atrás, Jebara era uma aldeia rica, mas com o muro perdemos tudo”, disse o agricultor Ahmed Massoud à BBC Brasil.

Massoud é proprietário de estufas para o cultivo de pepinos, mas, com a construção do muro, ele perdeu o acesso à sua propriedade que ficou do outro lado do muro.

“Mesmo os agricultores que têm terras deste lado do muro foram à falência pois as autoridades israelenses não permitem a entrada ou saída de veículos da aldeia, então não podemos trazer sementes ou instrumentos de trabalho ou enviar os nossos produtos para outras aldeias.”

Quase todas as estufas e também os galinheiros, que eram as fontes principais de subsistência da aldeia, estão abandonados.

“Como podemos levar os caixotes de frutas para vender em Tulkarem se as autoridades israelenses não deixam passar os caminhões? A pé?”, pergunta Massoud.

Lixo

A a construção do muro não atingiu apenas a agricultura em Jebara.

A proibição da entrada de veículos também afeta o meio ambiente e a estrutura de saneamento básico dos territórios.

O caminhão de coleta de lixo, que antes vinha de Tulkarem, já não pode entrar na aldeia e os habitantes são obrigados a queimar o lixo.

O mesmo acontece com os tanques de bombeação das fossas de esgoto, e o esgoto das casas começou a jorrar pelas ruas da aldeia que, até a construção do muro, era limpa e bem tratada.

“Mas o pior é o que acontece com as crianças”, disse Faruk Awad, “não temos uma escola, então nossas criancas freqüentam a escola da aldeia de A-Ras, que ficou do outro lado do muro”.

Jebara é uma aldeia pequena, com somente 300 habitantes. Antes da construção do muro, o contato entre os moradores de Jebara e a aldeia maior, de A-Ras, era diário.

A somente dois quilômetros de distância, A-Ras possui uma escola e algumas lojas que eram freqüentadas diariamente pelos moradores de Jebara.

Agora as crianças de Jebara dependem da boa vontade dos soldados israelenses para ir à escola.

Rotina no portão

Um portão separa Jebara de A-Ras, que os soldados abrem todas as manhãs para permitir a passagem das crianças em direção à escola, e na hora do almoço quando elas voltam.

Na hora do almoço, Faruk Awad foi ao portão para esperar seu filho, Mohamed, de 9 anos.

Mas a área do portão foi decretada “zona militar fechada” e os soldados israelenses não permitem que os pais que esperam por seus filhos se aproximem.

Ao meio-dia, crianças vestidas com uniformes escolares começam a se aproximar do portão, chegando de A-Ras.

Poucos minutos depois chega um jipe militar israelense com cinco soldados armados com fuzis.

Três descem do jipe, um deles traz as chaves dos cadeados, outros dois mantêm a guarda.

O primeiro abre o portão, e as crianças correm ao encontro de seus pais que esperam longe da “zona militar fechada”.

Faruk contou que muitas vezes as crianças são obrigadas a esperar horas perto do portão até que os soldados apareçam para abrir os cadeados.

Ele está preocupado com a chegada do inverno. “O que faremos nos dias frios e chuvosos, se as crianças tiverem que esperar horas perto do portão?”, perguntou ele.

Mohamed, o filho de Faruk, contou à BBC Brasil que algumas vezes ele não conseguiu ir à escola pois os soldados não foram abrir o portão.

Para o agricultor Ahmed Massoud, Jebara "foi transformada em uma prisão, fechada por cercas de todos os lados.”

“A verdadeira intenção das autoridades israelenses é confiscar a nossa terra, levar-nos ao desespero para nos obrigar a desistir e abandonar a aldeia, mas não vou sair daqui, prefiro morrer”, disse ele.

Decreto

No início de outubro, as tropas israelenses distribuíram um decreto para os habitantes de Jebara, estabelecendo que “segundo a ordem militar número 378, a aldeia passou a pertencer à zona da fronteira e se transformou em uma área militar fechada”.

Segundo as autoridades israelenses todos os habitantes devem se registrar e pedir uma “permissão de residência” sem a qual não poderão entrar na aldeia.

Somente 40 dos 300 habitantes pediram a permissão, a maioria se recusa a fazê-lo.

“Por que devemos pedir um visto para entrar na nossa própria aldeia? Até parece que queremos ir para os Estados Unidos ou para a Austrália. Só queremos viver em paz na nossa terra”, disse Ahmed Massoud.

Os habitantes de Jebara temem que o registro dos habitantes, pelas autoridades israelenses, seja um primeiro passo em um processo que pode levá-los à expulsão da “zona militar fechada”.

No entanto, sem as novas permissões, muitos deles agora têm medo de sair da aldeia, pois correm o risco de não poder voltar.

O porta-voz do Exército israelense anunciou que as tropas fazem todos os esforços para facilitar a vida de civis inocentes na zona da fronteira e que a existência do portão para a passagem das crianças em direção à escola faz parte desses esforços.

Segundo as autoridades israelenses “o objetivo da cerca de separação é barrar a passagem de terroristas da Cisjordânia em direção às cidades israelenses”.

Ahmed Massoud, de Jebara, questiona os argumentos das autoridades israelenses.

“Se o objetivo era impedir a passagem de terroristas, por que não construíram o muro na fronteira original? Por que avançaram três quilômetros e meio dentro dos territórios palestinos, anexando a nossa aldeia e nos deixando presos aqui e desconectados da Palestina?”

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