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Lula mantém cautela no primeiro dia de visita a Cuba
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi mais cauteloso do que se esperava na sexta-feira, o primeiro dia de sua visita a Cuba. Lula foi recebido no aeroporto pelo presidente cubano Fidel Castro, que ficou junto com o presidente brasileiro durante todo o dia. Fidel participou até do evento que não previa a sua presença, um almoço na residência do embaixador brasileiro em Cuba, Tilden Santiago. O resto do dia foi dividido entre encontros privados dos dois presidentes, reuniões entre os ministros cubanos e brasileiros e, depois da assinatura de 12 atos de cooperação entre os dois países, um jantar homenageando o presidente brasileiro. Com a assinatura de acordos de cooperação e um financiamento de US$ 20 milhões para um projeto de usina de produção de açúcar, o governo brasileiro conseguiu dar à viagem o caráter comercial que pretendia, afastando a questão política. Dívida O acordo mais concreto é o que prevê a amortização da dívida do governo cubano com o Banco do Brasil, de 40 milhões de euros, e com as empresas privadas, de outros 10 milhões de euros, utilizando 20% da receita de alguns produtos exportados por Cuba ao Brasil. O governo brasileiro também anunciou a liberação de US$ 20 milhões para um projeto de reestruturação de uma usina de açúcar para a produção de álcool combustível – utilizando equipamento e tecnologia brasileiros – para exportação. Outro projeto brasileiro na ilha é um grande empreendimento hoteleiro que prevê a construção de 2 mil quartos em quatro resorts cinco estrelas. O projeto é uma associação da Brasilinvest e da Casa Forma, do Brasil, com a estatal Gran Caribe, uma das administradoras de hotéis do governo cubano. O investimento inicial é de US$ 112 milhões para a construção de 854 quartos, incluindo US$ 40 milhões de financiamento para a exportação de equipamentos brasileiros, que estão sendo pleiteados no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). “Decidimos investir em Cuba pela oportunidade retorno e estabilidade das condições contratuais”, disse o presidente da Brasilinvest, Márcio Garnero. Silêncio Contrariando o procedimento habitual nessas viagens, os presidentes não fizeram discursos em nenhum momento, nem mesmo na assinatura dos acordos. O silêncio deve se repetir no sábado. O único discurso do presidente Lula deve ser sobre negócios, no encerramento do Foro Empresarial Brasil-Cuba, promovido pelo Itamaraty para fomentar negócios de empresas brasileiras em Cuba. Lula começou a preparar o tom que daria para a viagem ainda na quinta-feira, no México. Perguntado sobre a possibilidade de conversar com o líder cubano sobre a repressão aos dissidentes, lembrou que o Brasil mantém “relações sólidas com Cuba desde 1985”, disse que estava fazendo uma política internacional “muito ousada” e falou sobre as viagens que pretende fazer nos próximos meses à África, ao Oriente Médio e à Índia. Lula disse ainda que todas essas visitas têm o objetivo de analisar as possibilidades de comércio. “É isso o que vou fazer com muito carinho em Cuba. No mundo dos negócios não existe lugar para subserviência”, afirmou. O Brasil quer aproveitar principalmente o espaço aberto pelo embargo econômico dos Estados Unidos contra Cuba para ampliar os negócios entre os dois países. No ano passado, o Brasil exportou US$ 74 milhões e importou apenas US$ 14 milhões. Ao concentrar a viagem na área comercial, o presidente brasileiro tenta evitar o risco de se associar ao governo autoritário de Fidel Castro, que passou a ser criticado até por antigos aliados no exterior, depois da recente onda de repressão. Execução Recentemente, mais de 70 pessoas foram condenadas por fazer oposição ao regime e três foram executados por sequestrar um barco para tentar chegar a Miami, em abril. Ao mesmo tempo, Lula corre o risco de frustrar os dois lados: Fidel Castro, que certamente gostaria do apoio explícito do presidente brasileiro, seu amigo há mais de 20 anos; e dos que consideram que ele tem a obrigação de defender em Cuba a mesma liberdade de expressão pela qual lutou quando se opunha à ditadura no Brasil. “Os cubanos não são menos do que os brasileiros e têm também direitos ao direitos”, disse à BBC Brasil Oswaldo Payá, o mais importante líder de oposição ao regime cubano e organizador do Projeto Varela,em um abaixo-assinado que pede a realização de um referendo para discutir mudanças no país. Payá evitou fazer críticas, mas disse que o presidente brasileiro deveria também se encontrar com outras pessoas se quisesse realmente saber mais sobre o país. Emoção Ele não obteve resposta à carta que enviou convidando o presidente para um encontro. A cerimônia oficial de boas-vindas à comitiva brasileira no Palácio da Revolução teve momentos de emoção. O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, visivelmente emocionado, enxugou uma lágrima depois de receber um forte abraço do presidente Fidel Castro. Dirceu também é amigo de Fidel há vários anos. Nos anos 70, ele se exilou em Cuba fugindo da repressão política no Brasil. Também participam da comitiva presidencial, os ministros das Relações Exteriores, Celso Amorim; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan; da Saúde, Humberto Costa, dos Esportes, Agnelo Queiroz e de Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano. |
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