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Pai quer a volta de sargento brasileiro que está no Iraque
O reitor da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Manoel Malheiros Tourinho, tem esperança de que o crescimento das mobilizações antiguerra nos Estados Unidos possa ajudar o filho – sargento das tropas americanas em Bagdá – a voltar mais rápido para casa. "Eu sou totalmente favorável a esse movimento. Queriam tirar Saddam (Hussein do poder). Tiraram Saddam. E agora? É guerra de ocupação? De expansão do capitalismo americano? É guerra de dominação dos setores estratégicos do país? Que tipo de guerra é essa?", pergunta ele, em tom de indignação. O seu filho, o baiano Túlio Lima Tourinho, é naturalizado americano, mora no Estado da Carolina do Norte e tem uma filha que nasceu apenas um mês antes do seu embarque para o Iraque. Em grande parte por causa do envolvimento pessoal, mas também pelas suas convicções ideológicas, Manoel Tourinho, de 63 anos, demonstra indignação com a ofensiva militar. Militares contra a guerra "Se Saddam não está morto, me parece que toda essa parafernália das Forças Armadas americanas é insuficiente para caçar um homem. A exemplo de Osama Bin Laden, não sabe se ele está numa caverna, num buraco, numa cidade. Não sabem nem onde ele está escondido", lamenta Manoel Tourinho. Enquanto os soldados continuam procurando Saddam Hussein, praticamente todo dia, a população americana se depara com novos anúncios de mortes de militares no Iraque. Oficialmente, desde que o presidente George W. Bush anunciou o fim das operações de combate, em 1º de maio, 68 soldados morreram justamente em combate. O número oficial de feridos é de pouco mais de 800, mas a imprensa na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos estima que muitos casos não são relatados. Segundo esses dados não-oficiais, 1.178 teriam sido feridos em combate e, no total, mais de 1.500 soldados americanos teriam sido feridos. Alguns deles estariam em estado grave. Junto com o número de vítimas, cresce a mobilização popular para que os Estados Unidos desistam da operação militar. Entre os movimentos que crescem estão os de militares da reserva que se opõem à guerra. Woody Powell é um dos diretores do movimento "Veteranos pela Paz". A organização foi fundada em 1986 e, antes da guerra do Iraque, tinha 550 sócios-contribuintes. Hoje são 3,5 mil. Powell foi enviado para a guerra da Coréia aos 20 anos e diz que experiências como a sua são os principais motivos que os transformaram em soldados da paz. "Muitos de nós são ex-combatentes. Nós sabemos o que é isso. Conhecemos os verdadeiros custos da guerra: destruição da economia, mortes, destruição da vida, de modos de vida. Destruição de culturas", afirma Powell. No site dos "Veteranos pela Paz", há uma espécie de contador em tempo real com os custos financeiros da guerra no Iraque. No fim da manhã desta quarta-feira, os custos estimados pela organização ultrapassavam US$ 74 bilhões (cerca de R$ 215 bilhões). O placar eletrônico marcava algo como 74.664.400.000 e aumentava com velocidade superior a US$ 1 mil por minuto. O visitante pode ver, entre outras comparações e segundo os cálculos da organização, quantas crianças poderiam ser colocadas na escola, a quantidade de casas poderiam ser construídas com esse dinheiro. Também de acordo com o site, esse número estaria em 761 mil. "Mas além disso, do ponto de vista pessoal, há os danos psicológicos que nós sofremos quando somos obrigados a matar", ressalta o veterano de guerra. Internet Outro movimento, que é liderado por Stewart Nusbaumer, é o Veteranos Contra a Guerra no Iraque. Nusbaumer é um ex-combatente que perdeu uma das pernas e ficou paralítico na guerra do Vietnã. "Fiquei cansado de só ver militares da reserva apoiando a guerra na televisão e resolvi montar um site para dar voz aos militares que são contra o conflito. E são muitos, inclusive de alta patente", revela o militar da reserva. O site foi inaugurado em novembro e, desde então, ele conta que conseguiu a assinatura de cerca seis mil ex-militares em um abaixo-assinado eletrônico. "Como veteranos de guerra, valorizamos a vida e acreditamos que a força militar deve ser utilizada somente recurso extremo. A questão do Iraque era política e o governo americano não chegou nem perto de esgotar os recursos diplomáticos", afirma Nusbaumer. Esperança Em Belém, o reitor Manoel Tourinho espera que esses movimentos possam ter algum tipo de influência na vida do filho Túlio. "Já tem uma junta lá governando. Vem embora! Entrega isso definitivamente às Nações Unidas", pede o pai do sargento brasileiro do Exército americano. Ele conta que Túlio é formado em relações internacionais nos Estados Unidos, mas, por falta de perspectivas profissionais, decidiu tentar a carreira de estrategista militar. "Ele entrou no serviço militar menos de um ano antes da guerra e, logo depois de terminar o treinamento básico, já foi mandado para o Golfo Pérsico", afirma o professor de agronomia. Manoel Tourinho fala que ficou surpreso com a convocação do filho , pois ele não tinha experiência e planejava entrar na escola de oficiais. Os sentimentos são vários: "Surpresa. É uma coisa doída, dolorida. Ansiedade e evidentemente preocupação. Como pai, me sinto lesado pelo governo americano", reclama Manoel Tourinho, explicando que o filho nem teve a chance de começar os estudos que desejava. O pai do sargento Túlio destaca que quando estudou nos Estados Unidos teve uma melhor compreensão da "cultura bélica americana". "Lá é muito comum ver a memória dos heróis sendo reverenciada. A família que perdeu um filho no Vietnã, por exemplo, costuma ter a foto dele no jardim como homenagem. Existe a cultura da guerra", observa. "Mas o Brasil não é um país guerreiro, é um país de paz. Como brasileiro e pai de um brasileiro na guerra, quero que ele volte. Volte para os Estados Unidos ou para o Brasil e seja um cidadão normal, trabalhando no que diz respeito à paz. E não trabalhando na guerra." |
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