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Historiador responsabiliza Israel por fracasso de Oslo
O historiador israelense Ron Pundak, que esteve envolvido nas negociações secretas entre palestinos e israelenses em Oslo (Noruega), aponta Israel como o maior responsável pelo fracasso do acordo assinado em 1993. Apesar de acreditar que o acordo não esteja totalmente morto, em entrevista à BBC Brasil Pundak disse que os erros mais graves foram cometidos pelo governo israelense num momento crucial das negociações. "O (então) primeiro-ministro Ehud Barak desperdiçou no ano 2000 uma oportunidade real de alcancar um acordo de paz definitivo com os palestinos", afirmou o historiador. Dez anos depois do aperto de mãos na Casa Branca entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, o Oriente Médio continua mergulhado em ondas sucessivas de violência, e a paz na região parece mais distante do que nunca. Para Ron Pundak, isso pode ser desastroso para os dois povos. Leia abaixo a transcrição da entrevista de Ron Pundak. BBC Brasil – O que restou do acordo de Oslo? Ron Pundak – Apesar de tudo o que aconteceu ou não aconteceu desde então, o acordo de Oslo significou uma mudanca histórica nas relações entre israelenses e palestinos. Depois de dezenas de anos de conflito, pela primeira vez houve um reconhecimento mútuo dos direitos nacionais e das lideranças legítimas dos dois povos. Com aquele acordo, pela primeira vez na história o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, e o líder do movimento nacional palestino, Yasser Arafat, adotaram em público e conjuntamente uma estratégia de diálogo e afirmaram que o conflito entre os dois povos só poderia ser resolvido por intermédio das negociações e com base na resolução 242 das Nações Unidas - que significa o reconhecimento das fronteiras que antecederam a guerra de 1967. Apesar de todos os desvios que ocorreram desde então, o Acordo de Oslo definiu diretrizes que são válidas e internacionalmente reconhecidas até hoje. Eu acredito que o processo iniciado em Oslo vai acabar levando a uma solução pacífica para o conflito, baseada no principio de dois Estados lado a lado, segundo as fronteiras de 1967. BBC Brasil - Na sua opinião, quem é responsável pelo fracasso do processo de paz iniciado em Oslo? Pundak – As três partes envolvidas no processo – israelenses, palestinos e americanos – cometeram erros graves. Mas atribuo a maior parte da responsabilidade ao lado israelense, principalmente ao (então) primeiro-ministro Ehud Barak, que no ano 2000 desperdiçou uma oportunidade real de alcancar um acordo de paz definitivo com os palestinos. Barak cometeu dois erros básicos. O primeiro, por ter continuado a construir os assentamentos enquanto negociava com os palestinos, destruindo assim a confiança dos palestinos em relação à sinceridade de suas intenções. O segundo erro de Barak ocorreu em Camp David, nas negociações sobre o acordo definitivo, em julho de 2000. Barak tentou impor aos palestinos um acordo que, do ponto de vista deles, era inaceitável e adotou uma atitude autoritária, arrogante e paternalista que levou ao colapso das negociações - o que por sua vez levou à total perda de confiança na perspectiva de paz e à vitória de Ariel Sharon nas eleições. BBC Brasil – Houve algo na própria formulação e nos conteúdos do acordo que pode ter contribuído para o fracasso? Pundak - Eu não acredito que os problemas principais estejam nas formulações e que, se tivéssemos escrito o acordo de outra forma, as coisas teriam acontecido de maneira diferente. Acho que o problema principal se encontra na falta de vontade política de implementar os princípios do acordo e não em itens específicos ou formulações específicas. BBC Brasil – Há alguma parte do acordo que hoje o sr. escreveria de forma diferente? Pundak – Sim. Hoje eu escreveria de maneira clara e explícita que o governo israelense não pode continuar a construir e expandir assentamentos nos territórios ocupados, pois nestes será construido o Estado palestino. O assunto dos assentamentos ficou excessivamente vago no acordo, e isso foi um erro. BBC Brasil – O assassinato do primeiro ministro Yitzhak Rabin, em 1995, foi um fator significativo na crise do processo de paz? Pundak – Sem dúvida, Rabin era um protagonista fundamental, e o assassinato foi um golpe duro para o processo, pois ele tinha o talento e a autoridade moral para convencer o público israelense e conduzi-lo para a paz. Mas acredito que poderíamos ter avançado no processo mesmo sem Rabin, se todos os erros cometidos após a sua morte não tivessem sido cometidos. BBC Brasil – O que o governo de Israel poderia fazer hoje para retomar o caminho traçado em Oslo? Pundak – Antes de tudo, o governo deveria anunciar a retirada unilateral e incondicional da Faixa de Gaza, que incluiria o desmantelamento de todos os assentamentos israelenses nessa região. Com esse ato, o governo estaria dando um sinal de que tem intenções sinceras e honestas de realmente buscar uma solução política para o conflito. Dessa maneira, o lado israelense poderia contribuir para a reconstrução da confiança que foi profundamente abalada nos ultimos três anos e assim abrir uma nova página nas negociações. BBC Brasil – Qual é a sua previsão sobre o futuro das relações entre israelenses e palestinos? Pundak – Enquanto o governo de Israel for liderado por Ariel Sharon, só haverá mais deterioração no processo, pois não há chance alguma de que os palestinos possam lutar contra os seus radicais do Hamas e do Jihad Islâmico enquanto não tiverem um horizonte político, e o governo de Sharon não oferece nenhum horizonte politico à lideranca palestina. Para que Israel possa retomar o caminho traçado em Oslo, é necessária uma mudança política no país. Se o caminho de Oslo não for retomado, as conseqüências poderão ser desastrosas para os dois povos. E, quando digo desastrosas, me refiro a uma ameaça existencial ao Estado de Israel e ao fim de todas as esperanças dos palestinos. |
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