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Falta de boa fé levou à situação atual, diz negociador palestino
Uma das principais causas do fracasso do diálogo israelo-palestino iniciado em Oslo foi a ambigüidade e a falta de clareza do tratado de paz. Essa é a opinião de Hasan Abu Libdeh, negociador que tomou parte numa delegação palestina que ajudou a escrever o acordo. Na visão dele, os políticos envolvidos erraram ao acreditar que as duas partes agiriam de boa fé. "Cada um dos lados precisa perceber que são necessários dois para dançar o tango", afirmou o atual presidente do Escritório de Estatísticas da Autoridade Palestina, em entrevista telefônica. Leia a seguir a íntegra da entrevista: BBC Brasil – Depois do fracasso do processo de paz iniciado em Oslo, ainda se pode aprender com ele? Hasan Abu Libdeh - Em primeiro lugar, penso que (os acordos de Oslo) nunca foram um engano. Foi um processo de bom potencial. Infelizmente não aprendemos tanto quanto deveríamos e não o protegemos suficientemente para que caminhasse na direção certa. Esse processo tem um grande problema que é o fato de ter pressuposto a existência de boa fé das duas partes. E a falta de boa fé levou em parte à situação que sofremos hoje. BBC Brasil – Qual foi a importância do assassinato do premiê israelense Yitzhak Rabin, baleado por um extremista judeu em 1995? As coisas teriam sido diferentes se ele ainda estivesse vivo? Abu Libdeh - Tenho certeza de que teria sido diferente. Ele se movimentou numa direção que era visionária para o Estado de Israel, baseada na idéia de fazer algumas concessões, tendo em vista os direitos dos palestinos. O seu assassinato representou o primeiro grande golpe ao processo de paz. Infelizmente, isso não estimulou medidas preventivas dos dois lados para proteger o processo contra a deterioração que houve após o seu assassinato. O seu assassinato foi um sério sinal do nível de desespero da direita israelense temendo o sucesso do processo de paz. BBC Brasil – O processo de Oslo foi um longo período em que se tentou construir confiança entre negociadores palestinos e israelenses. É possível recuperar esse nível de confiança após toda a violência dos últimos dois anos? Abu Libdeh - Acho que sim. Ambos os governos e políticos dos dois lados precisam perceber que este é um círculo vicioso que só pode ser rompido ao se perceber que temos de recuperar nossos compromissos com o processo de paz. Temos de trabalhar duro para expressar exatamente de que cada parte tem medo e quais são os seus sofrimentos. BBC Brasil – Alguns observadores disseram que, ao início da segunda intifada, muitos palestinos, entre eles (o presidente da Autoridade Palestina, Yasser) Arafat, tirariam proveitos políticos da violência. O sr. pensa que, quando esse conflito cessar, os palestinos receberão um acordo melhor ou pior que aquele que receberiam com os acordos de Oslo? Abu Libdeh - Enfatizo que penso que a intifada iniciada em setembro de 2000 foi um evento muito previsível, porque os palestinos estavam ficando cada vez mais desesperados com o ciclo de negociações e renegociações duvidosas. Por outro lado, ficou muito claro que, após as negociações de Camp David (casa de campo do presidente americano), em julho de 2000, que a consciente decisão de (Bill) Clinton e (do então premiê de Israel, Ehud) Barak de colocar toda a culpa pelo fracasso sobre Arafat o fez recorrer a outros meios. Infelizmente a intifada já levou muito tempo e causou demasiado derramamento de sangue para ser vista como algo de valor para o lado palestino ou mesmo israelense. Essa intifada causou grandes danos às duas partes porque deteriorou os elementos de esperança que os dois públicos construíram com relação um ao outro durante o processo de Oslo. Sofremos demais e também perdemos demais. Agora leva muito mais tempo para reconstruir a confiança e alcançar novamente o bom ambiente que havia em julho de 2000. BBC Brasil - O que precisa ser mudado com relação ao processo de Oslo para que as próximas negociações, se e quando a violência parar, dêem certo? Abu Libdeh - Acho que os dois lados são agora incapazes de alcançar juntos um acordo justo. Há muita desconfiança, sofrimentos e sangue no meio. Então é necessária uma terceira parte neutra, com vontade para liderar as duas partes a um diálogo. Se o processo de paz for retomado algum dia, acho que terá de ser retomado de onde deixamos em Camp David. Mas isso sem o impulso de uma terceira parte, duvido que sejam capazes de chegar a um acordo estável. BBC Brasil – O sr. se refere aos Estados Unidos como o mediador necessário para a retomada do diálogo? Abu Libdeh - Os Estados Unidos precisam ter um papel central. Infelizmente, agora eles estão se posicionando ao lado do Israel. Mas a Europa tem um interesse estratégico na região. Creio que a posição de inércia que a Europa tem tomado é uma vergonha. Se a Uniçao Européia expressar explicitamente o seu interesse, poderia representar uma séria alternativa para conduzir a reconstrução da confiança entre as duas nações e também ajudar a fazer cumprir a rota da paz para o Oriente Médio, que levará, no final, à criação de um Estado palestino. BBC Brasil – O sr. tomou parte pessoalmente do processo de Oslo. Que tipo de lições o seu relacionamento à época com os israelenses te trazem? Abu Libdeh – Eu não me arrependo de maneira alguma de ter tomado parte daquela era. Aprendi muito e espero ter contribuído para aproximar as duas nações. A grande lição que aprendi é que não devemos adotar caminhos ambíguos e pressupor que ambos os governos vão seguir nesse caminho. É preciso clareza, afirmar muito explicitamente aonde vamos chegar no final e ter objetivos muitos claros. Além disso, cada um dos lados precisa perceber que são necessários dois para dançar o tango. Um só não faz um tango. |
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