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Para israelense, ainda não se criou alternativa viável a Oslo
Poucos políticos em Israel estiveram tão envolvidos quanto Yossi Beilin nas negociações com os palestinos que levaram à assinatura dos acordos de paz de Oslo, em 1993. À época, Beilin era vice-chanceler e foi encarregado por seu chefe, Shimon Peres, de formular soluções para o histórico conflito durante encontros secretos em Oslo. Hoje líder do Meretz, um partido da esquerda pacifista, Beilin afirma que ninguém conseguiu ainda apresentar uma alternativa viável ao que foi decidido em Oslo. Leia a seguir a íntegra da entrevista que ele deu por telefone à BBC Brasil. BBC Brasil - O sr. escreveu um novo livro chamado Manual para uma Pomba Ferida, em que discute os elementos que levaram ao fracasso do processo de paz israelo-palestino iniciado em Oslo. Por que, afinal, tudo deu errado? Yossi Beilin - Acho que deu errado porque havia pessoas dos dois lados que lutaram contra ele, seja de forma violenta ou política. E eles acabaram vencendo, pelo menos por um tempo. Espero que a vitória não tenha sido deles e que voltemos ao caminho certo. O fato de haver extremistas islâmicos do lado palestino, que pensavam que os acordos de Oslo seriam o fim de seus sonhos, e, do lado israelense, os colonos e pessoas de direita que viam isso como o fim do sonho da Grande Israel, contribuiu muito para o fracasso. Eles tentaram torpedear o acordo impedindo que ele fosse implementado e com o uso da violência. BBC Brasil – O início da segunda intifada, que enterrou o processo de Oslo, foi uma reação popular natural dos palestinos ou coordenada por Yasser Arafat em busca de lucros políticos por meio da violência? Beilin - Arafat, na verdade, montou nessa onda e explorou a intifada, em vez de tê-la planejado. O começo da intifada foi o resultado da competição entre o Fatah – o grupo mais estabelecido e politicamente organizado dos palestinos – e o Hamas, o movimento extremista religioso. O Fatah sentiu que estava muito estabelecido e não podia atender às expectativas porque não havia acordo de paz final mesmo depois de ter passado o período de negociações interinas. Ele sentiu que tinha de fazer algo para ganhar apoio das ruas. Isso foi um enorme erro do Fatah. E, mais tarde, o presidente Arafat se juntou a eles porque sentiu que seria talvez melhor para ele se tornar novamente uma espécie de vítima do conflito árabe-israelense. A morte do garoto Al Dura (o garoto palestino Mohammed Al Dura, 12 anos, morto durante troca de tiros entre o Exército de Israel e militantes palestinos na Faixa de Gaza, em 2001) trouxe a atenção do mundo ao sofrimento dos palestinos, fez deles de novo as vítimas. Isso foi importante para Arafat, após um momento em que o mundo acreditou que, na cúpula de Camp David (julho de 2000), ele havia se enganado ao rejeitar a oferta que tinha sido feita a ele. BBC Brasil – O fracasso do processo de Oslo significa que ele foi um engano? Há algo que podemos aprender com o que se passou naqueles anos? Beilin - Todos os que criticam o processo de Oslo nunca propõem uma alternativa pragmática e realista, essa é sua maior falha. Não é difícil criticar um acordo de paz ou um evento político. É muito mais difícil sugerir uma alternativa. O fato de a rota da paz oferecida às duas partes por europeus e americanos ser uma continuação do processo de Oslo só prova que não há outra alternativa. Os acordos de Oslo são indispensáveis. Não inventamos a roda em Oslo. O que fizemos foi formular uma solução política que incluísse a questão de um Estado palestino, Jerusalém, refugiados e questões de segurança. E, quando a sanidade voltar às duas partes, quando elas estiverem prontas para negociar de novo, voltarão à mesma trilha de Oslo e vão negociar as mesmas questões relevantes rumo a uma solução permanente. BBC Brasil – O atual conflito é resultado da falta de líderes capazes de domá-lo? Beilin – Acredito que muito depende de liderança, e os dois povos merecem líderes melhores. E penso que, em algum momento, essa liderança surgirá. Mas será um engano para os dois lados esperar até que o outro tenha uma liderança melhor. A sabedoria, ao meu ver, é usar o momento e não esperar para ver, mesmo porque não temos muito tempo. Todos os que acreditam na paz, o campo da paz dos dois lados, estão perdendo para os extremistas. É muito mais fácil incitar, odiar, fazer vingança do que convencer as pessoas a parar a violência e a fazer a paz. E, quanto mais esperarmos, mais difícil ficará para nós todos. BBC Brasil – O fim do processo de Oslo e a segundo intifada trouxeram uma grande desilusão do público com o Partido Trabalhista e outros da esquerda política israelense. O que esses partidos do campo da paz podem fazer para recuperar apoio? Beilin – A grande vantagem do campo da paz em Israel é que há uma grande maioria que apóia as suas ideias. Há muitas pessoas que defendem uma solução com dois Estados e a necessidade de dividir Jerusalém. Nessa situação, o que é preciso é convencer as pessoas a traduzir o seu apoio ideológico em apoio político. E esse é o dever de partidos como o Trabalhista, o Meretz. Acredito que haverá uma chance para o campo da paz no futuro, embora não pareça agora que isso vá ocorrer. A direita está perdendo o tempo todo, não só porque as pessoas entendem quão importante é fazer a paz, mas pela situação econômica e a conexão entre o processo politico e a recessão. E é por isso que, no longo prazo, creio que, se tivermos uma ideologia concreta, dizendo às pessoas exatamente como podemos conquistar o que eles e nós acreditamos ser a coisa certa, poderemos ganhar. BBC Brasil - Como Israel deve lidar com o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat? Beilin - A coisa certa a fazer é respeitá-lo como líder simbólico do povo palestino e negociar com o governo do primeiro-ministro palestino. Acho que boicotar Arafat seria bobagem e expulsá-lo seria um enorme engano. Temos de entender que não elegemos os líderes de outros países como eles não elegem os nossos líderes. Temos de ver Arafat como um fato. Ele é um líder carismático e popular, gostemos ou não. E quando fizermos a paz com o premiê palestino, ele terá de pegar uma permissão e o acordo de Arafat. Só quando ele der a luz verde, aí haverá um acordo, e teremos de levar isso em consideração. BBC Brasil - O papel dos Estados Unidos é tão importante hoje quanto nos anos do processo de Oslo? Beilin - Os Estados Unidos não estavam mediando o nosso acordo com os palestinos. Quando comecei o processo de Oslo no fim de 1992, os americanos não faziam parte do processo. Quando terminamos o trabalho, nós os informamos, e eles ficaram muitos entusiasmados com aquilo. Acho que essa é a coisa certa: temos de negociar com nossos parceiros, os palestinos, e, depois de concluir o trabalho, os americanos podem nos ajudar. Não creio que eles podem ser os mediadores e não estou convencido de que eles estejam prontos para fazer isso. BBC Brasil - O governo de George W. Bush não é muito popular hoje no mundo árabe. O sr. compartilha da tese de que os americanos seriam mais um problema do que uma solução para o processo de paz nas atuais circunstâncias? Beilin - Não, de forma alguma. Mesmo se os palestinos não gostam da atual administração dos Estados Unidos, eles entendem que são a única superpotência do mundo. E, se forem pragmáticos, têm de entender a importância dos Estados Unidos. É por isso que eles respeitam os Estados Unidos e os encontros com os líderes deles são muito importantes para os palestinos. BBC Brasil - Quais lições o processo de paz de Oslo pode ensinar para as atuais tentativas de parar com a violência e retomar uma convivência pacífica no Oriente Médio? Beilin - Há muitas lições, mas gostaria de destacar uma delas. E é a seguinte: se houver uma oportunidade, não espere, porque amanhã pode ser tarde demais. Quando você acha que tudo está bem e que não há problemas e que tudo é um desentendimento que pode ser solucionado amanhã, você pode se encontrar fora do poder amanhã. Então, outro governo estará dando as cartas e decidir de uma forma totalmente diferente. Não estou certo se aproveitamos suficientemente os anos em que o campo da paz esteve no poder. E, na próxima vez que acontecer, não devemos perder nem mesmo uma só hora. |
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