|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Política refém das Farc pede ações militares de resgate
Visivelmente magra, com o cabelo muito mais comprido e aparentando boa saúde, a ex-candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt surpreendeu o seu país ao defender as operações de resgate de seqüestrados realizadas pelas forças militares colombianas, em um vídeo transmitido no sábado. Na gravação, enviada ao Canal Uno – uma pequena emissora de televisão colombiana – pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Ingrid, que vestia uma jaqueta verde oliva e uma camiseta estilo militar e com um rosário enrolado no pulso direito, também pediu compreensão à sua família para que, se for o caso, autorize seu resgate. "Apóio as forças militares no compromisso de realizar operações de resgate que possam nos levar à liberdade", disse. "Creio que, se nós queremos semear a paz da Colômbia, temos de atuar em função de nossos princípios e, não, em função de nossos interesses." Ela disse, no entanto, que essas operações devem estar condicionadas a um planejamento minucioso. "Resgates, sim, definitivamente sim, por princípio. Mas, não qualquer resgate. Estas operações, ou são um êxito, ou não devem ser feitas", afirmou. "A operação deve ser planejada minuciosamente e garantir que nós que estamos seqüestrados vamos poder comemorar e, não, receber a nossa morte em troca." 'Direitos claudicantes' A líder do Partido Verde Oxigênio assegurou que apóia esse tipo de operação porque não pode renunciar ao seu direito fundamental de liberdade. "Uma pessoa pode fazer muitas concessões, mas não pode claudicar sobre os seus direitos, não pode renunciar à liberdade, nem sequer por prudência", disse ela no vídeo com 23 minutos de duração. Segundo Ingrid, os resgates devem obedecer a decisões políticas e não militares. Nesse sentido, ela diz ao presidente Álvaro Uribe que a decisão sobre a vida dela e dos outros seqüestrados está nas mãos dele. O presidente deve avaliar os riscos e as possibilidades de êxito. Ingrid Betancourt foi seqüestrada pelas Farc em 23 de fevereiro de 2002, junto com sua chefe de campanha Clara Rojas. Trocas Ambas tentavam entrar na antiga zona desmilitarizada, onde eram realizadas negociações de paz entre o ex-presidente Andrés Pastrana e a guerrilha. Em 23 de julho do ano passado, Ingrid disse, em outro vídeo, que ela e Clara se sentiam abandonadas pelo Estado, mas não queriam troca de presos políticos por elas ou por qualquer das cerca de 3 mil pessoas que se encontram seqüestradas na Colômbia. O último episódio sobre sua eventual libertação envolveu autoridades francesas – Betancourt têm nacionalidade francesa – e brasileiras. No início do mês passado, um avião militar francês aterrissou em Manaus com a intenção declarada de prestar apoio humanitário à família de Ingrid, que contactara a Embaixada da França em Bogotá para pedir ajuda. Várias versões foram divulgadas sobre esse incidente. De acordo com uma delas, a França não teria pedido autorização ao Brasil e não permitiu que o avião fosse revistado. Também surgiram comentários de que a operação tinha como objetivo atender o líder guerrilheiro Raul Reyes, que se encontraria doente. 'Intercâmbio humanitário' Ingrid afirmou ser contra a realização de troca de seqüestrados civis por guerrilheiros presos, chamada de intercâmbio humanitário, por questão de princípio – mas defendeu a troca de reféns policiais e militares. "É impossível que resgatem a nós todos. Temos a responsabilidade com os soldados e policiais", salientou a ex-senadora, lembrando que os militares e os policiais seqüestrados pela guerrilha que forem libertados serão peças-chaves para derrotar os rebeldes. "Essa troca é uma obrigação moral em um Estado democrático. Não é possível ganharmos essa guerra se não dermos a eles a certeza de que vamos estar com eles nos bons e nos maus momentos." O vídeo transmitido na noite de sábado foi enviado pelas Farc como uma prova de que a ex-candidata está viva. Talvez por isso, e para esclarecer os inúmeros boatos sobre seu estado de saúde, Ingrid inicia sua mensagem com a frase "estou bem, estou viva". Americanos Na fita, ela também se refere aos três americanos seqüestrados pelas Farc, Marc Davis González, Thomas Howel e Keith Stansell. Ela disse que não se preocupa com eles, porque sabe que os Estados Unidos farão de tudo para resgatá-los. Yolanda Pulecio, mãe da ex-candidata, ficou emocionada e preocupada com a mensagem da filha. Yolanda disse ainda que Ingrid sempre esteve disposta a dar a vida por seus princípios. De acordo com a mãe da ex-senadora, a família sempre foi contrária a uma operação de resgate, porque "teme colocar em perigo a vida tão valiosa de Ingrid". "O intercâmbio humanitário era minha única esperança. Agora, no entanto, eu pediria, como Ingrid, que, se o presidente quer tentar um resgate, que o faça, mas com muitíssimo cuidado", disse Yolanda com a voz embargada. "Como me custa dizer isso. Suplico à guerrilha que a liberte." Juan Carlos Lecompte, marido de Ingrid, diz que a mensagem dela é uma faca de dois gumes. "Ela diz sim ao resgate, mas sempre e quando seja exitoso", lembra. "Se os resgates não vão conduzir ao êxito, ela pede para que não sejam feitos. É uma decisão lógica. Ela defende seus princípios acima de tudo." A Colômbia tem o maior número de seqüestros no mundo. Cerca de 3 mil pessoas estão em cativeiro, e mais da metade deles foram cometidos pelas guerrilhas. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||