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Atualizado às: 28 de agosto, 2003 - 09h15 GMT (06h15 Brasília)
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Peru nunca se reconciliará com o Sendero, diz presidente

Alejandro Toledo, presidente do Peru
Presidente peruano acumula apenas 11% de popularidade

"Este governo nunca se reconciliará com o Sendero Luminoso", diz o presidente do Peru, Alejandro Toledo, referindo-se ao grupo guerrilheiro muito atuante no país nos anos 1980 e 1990 e às atividades da Comissão de Verdade e Reconciliação (CVR).

A CVR fez um amplo levantamento sobre a violência entre 1980 e 2000, investigando durante 21 meses o caso de 30 mil vítimas dos confrontos entre o Sendero e a repressão ao movimento.

No relatório que divulga nesta quinta-feira, a comissão deve recomendar que o governo peça desculpas às vítimas ou suas famílias e promova reparações econômicas e simbólicas.

Com popularidade de apenas 11% depois de dois anos de governo, de acordo com pesquisa recente, Toledo diz que não governa para as pesquisas nem para ganhar as eleições. "Tomo decisões de Estado pensando nas próximas gerações", afirmou.

"Quando se planta hoje, não se pode colher amanhã. É preciso cuidar, ter disciplina, e eu estou certo que vou colher em 2006", disse referindo-se ao ano em que termina seu mandato de cinco anos.

Leia abaixo a segunda parte da entrevista concedida por Toledo à BBC Brasil. O presidente peruano comenta as dificuldades que enfrenta e suas expectativas para o país.

BBC Brasil – A Comissão de Verdade e Reconciliação do Peru publica nesta quinta-feira o relatório com o resultado da violência no país entre 1980 e 2000. O seu governo vai seguir as recomendações que devem ser feitas, como as reparações econômicas e o pedido de desculpas para as vítimas da violência?

Alejandro Toledo – Primeiro, necessito ter a serenidade, a ponderação, para esperar o informe final da comissão. Temos que, enquanto país, ter a maturidade política de recebê-lo, lê-lo, nos inteirarmos e só depois opinar. Seria irresponsável emitir uma opinião a priori sem saber o conteúdo. O trabalho tem absoluta independência. Meu governo não formou essa comissão. Temos apoiado. Espero que o conteúdo seja independente, imparcial e que possamos aprender muito com essa comissão.

BBC Brasil – O senhor acredita que esse trabalho é importante?

Toledo – Sim, absolutamente. Acredito que é de vital importância que, para construir o futuro, nos olhemos no espelho, porque, senão, não vamos aprender. Porque, senão, a impunidade passará. Mas, com a mesma força, digo que, se ficarmos presos ao passado, vamos privar a sociedade peruana de construir seu futuro. Precisamos nos reconciliar. Esta é uma sociedade já bastante dividida. Eu pedi perdão à comunidade de Lucanamarca. Meu governo não fez isso. Eu pedi perdão pelos abusos do governo ditatorial em diferentes áreas. Eu não terei nenhum problema em pedir desculpas aos familiares das vítimas, mas não sei quem são. Quero primeiro me informar, ler o informe final. Nós não somos juízes. Vamos avaliar e ver o que podemos fazer para reparar ou compensar coletivamente, para investir mais em saúde, educação, estradas, nos lugares pobres onde historicamente se excluiu os pobres. Mas eu posso adiantar uma coisa: este governo nunca se reconciliará com o Sendero Luminoso.

BBC Brasil – Há sinais de que o Sendero Luminoso está agindo novamente. Isso o preocupa?

Toledo – É certo que a luta contra o terrorismo, particularmente o Sendero, não terminou. Fizemos avanços importantes. E aí nossas Forças Armadas e as forças policiais têm tido um papel importante. Mas são focos localizados, em lugares de difícil acesso. Sim, me preocupo. Mas não é um ressurgimento do Sendero. E, por isso, é preciso que as Forças Armadas não desanimem porque eles precisam nos acompanhar na luta para acabar com o Sendero ou com grupos terroristas, respeitando os direitos humanos. Dentro da lei. Eu lutei para recuperar a democracia e a liberdade e, por isso, sou respeitador da liberdade, da liberdade de expressão e dos direitos humanos. Não posso ser inconsistente.

BBC Brasil – O Peru é hoje o segundo país que mais cresce na América Latina (depois da Argentina, que sai de quatro anos de recessão), quase 4% este ano. Apesar disso, as pesquisas mostram que o senhor tem apenas 11% de apoio popular, o mais baixo do seu governo. Não teme que isso ameace seu governo?

Toledo – Eu respeito as pesquisas, você sabe que eu sou um economista. Minha taxa de aprovação vai de 11% a 20%. Não fui um presidente eleito para governar o dia-a-dia para as pesquisas, nem de tomar decisões de governo pensando nas próximas eleições. Tomo decisões de Estado pensando nas próximas gerações, governar a economia com responsabilidade de um país em transição depois de dez anos de ditadura, com altas expectativas sociais. Não posso produzir um milagre em 24 meses. Reverter o desemprego, a pobreza, a desigualdade que vem estruturalmente de 181 anos, exacerbada por dez anos de ditadura. Espere terminar meu mandato, em 2006. Não se preocupe. Obviamente, gostaria de ter (popularidade mais elevada), mas seria irresponsável. Eu poderia subir minha popularidade amanhã: começo a distribuir mais alimentos, rompo a disciplina fiscal. Mas isso significa aumentar a inflação. E a hiperinflação torna os pobres mais pobres. Já conhecemos isso. Este país teve 2,5 milhões de hiperinflação em cinco anos. Não vou fazer isso.

BBC Brasil – As pesquisas também mostram que o ex-presidente Alan Garcia, que governou justamente no período de hiperinflação, e o ex-presidente Alberto Fujimori teriam hoje mais votos do que o senhor. Isso o preocupa?

Toledo – Uma coisa é estar no palanque, outra é estar no timão. Sei que há um país com expectativas elevadas, e as pessoas me dizem: 'Toledo, já nos deu a democracia, agora nos dê trabalho'. Agora, estamos tendo 18 meses contínuos de crescimento. Como economista, posso dizer que há um tempo entre o crescimento da economia e o impacto no emprego. Eu venho de um povoado muito pequeno, a 4 mil metros do nível do mar. Meu pai é agricultor, e ele me ensinou que, para colher, é preciso plantar. Quando se planta hoje, não se pode colher amanhã. É preciso cuidar, ter disciplina, e eu estou certo que vou colher em 2006.

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