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Caio Blinder: Terror e fantasias
O governo Bush é acusado, especialmente fora dos EUA, de ter exagerado ameaças para justificar a invasão do Iraque. No pós-guerra, e em particular depois do atentado contra a ONU em Bagdá na terça-feira, as ameaças são mais genuínas do que nunca. A ocupação do país gerou monstros. Como diz Jessica Stern, especialista em terrorismo islâmico da Universidade Harvard, por negligência (e não malevolência), os EUA semearam um terreno fértil para atividades terroristas no Iraque e uma situação de instabilidade em que não podem garantir lei, ordem e água. 'Antes era melhor' Sim, o Iraque de Saddam Hussein era um Estado de terror. Por esta razão torna-se ainda mais perturbador quando civis iraquianos aparecem na televisão americana para reclamar do status quo da ocupação e concluir que antes era melhor. Eles estão fantasiando o passado e o governo Bush está fantasiando as dificuldades do presente. O atentado de terça-feira é mais uma evidência da nova estratégia das forças antiocupação de provar que os americanos e seus aliados são incapazes de controlar a situação. Mais do que isso, o objetivo é intimidar qualquer país ou organização a participar dos esforços de reconstrução do país. A idéia é desmascarar de vez a idéia de uma ampla coalizão liderada pelos EUA e tornar tão pesada a carga de ocupação para que os grandiosos planos de criar um novo Iraque sejam abandonados. Retirada Parece inimaginável a idéia do império americano bater em retirada diante dos estragos provocados por bárbaros quando a ocupação do Iraque nem completou seis meses. Mas há uma retórica que soa pouco realista da parte de analistas do establishment americano. Existe a idéia de que na verdade atentados como o de terça-feira podem reverter em favor dos interesses do governo Bush. O presidente aliás reagiu ao ataque terrorista contra a ONU batendo na tecla familiar de que são "nós contra eles". No "nós" agora estão incluídas a população iraquiana e a comunidade internacional em geral. No "eles" estão confinados um punhado de terroristas. Como sempre, Bush não gosta de ver as nuances de uma crise. Polêmica superada Para Richard Schultz, da Universidade de Tufts (que forma quadros para o Departamento de Estado), o terror cada vez mais ousado e sofisticado pode abafar os críticos da política externa americana, deixando definitivamente para trás a polêmica pré-guerra, com o foco na necessidade urgente de pacificar o Iraque pós-guerra. Rachel Bronson, do Council on Foreign Relations, vai ainda mais longe e especula que agora o presidente Bush terá uma tarefa mais fácil para convencer países europeus e árabes de que eles não podem se evadir de suas responsabilidades no Iraque. Tanto a idéia de uma retirada estratégica americana como da entrada de uma legião de aliados no atoleiro iraquiano parecem fora do contexto. Como diz o editorial desta quarta-feira do New York Times, para impedir o caos total do Iraque, os EUA precisarão repensar de forma radical sua política para o Iraque e deixar de lado premissas otimistas que subestimaram as necessidades de tropas e gastos no país. Os americanos devem aprofundar seu envolvimento no Iraque. Por este raciocínio, a ocupação será mais longa, mais custosa e muito mais sangrenta do que Bush imaginara. A outra opção seria reforçar o papel da ONU no Iraque, o que Bush nunca imaginou fazer. |
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