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Análise: O que esperar dos colonos judeus
Ao lado de uma trilha no alto de um morro ao norte de Jerusalém, há um sinal oferecendo abrigo para aqueles que têm planos de fugir do destino da terra em que vivem. "Somente a Bíblia é o plano de paz para o povo judeu", diz a mensagem direcionada não apenas aos itinerantes que passam por ali. É aqui, nos morros da Judéia, que o plano de paz patrocinado pelos Estados Unidos tem poucos seguidores e vai enfrentar seu teste mais severo. De acordo com uma pesquisa do Instituto de Pesquisa para o Avanço da Paz, aproximadamente 40% dos israelenses na Faixa de Gaza e na Cisjordânia têm a crença de que formam uma missão divina de colonizar a terra. Terra Mas é terra que os palestinos procuram para um futuro Estado, e eles se opõem à presença de assentamentos como obstáculos para atingir esse fim. Os colonos religiosos rejeitam essa idéia e afirmam ter um direito histórico de viver na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. O plano de paz, que prevê a criação de um Estado palestino em 2005, apenas reforçou a determinação dos colonos de permanecer no local. "Nós tivemos planos de paz no passado. Eles vieram e se foram. Esta é apenas outra encarnação de um impulso político. Eu acho que esta versão também chegou e vai embora", disse Ruvane Bernstein, um imigrante sul-africano no assentamento de Shilo. O político a quem ele se refere é, ironicamente, o mesmo homem que esteve por trás do estabelecimento e expansão de muitos dos assentamentos nas décadas de 80 e 90: Ariel Sharon. Agora muitos colonos vêem seu 'ex-campeão' com uma profunda descrença. Em abril de 2003, Sharon deu uma declaração bombástica ao jornal israelense Haaretz, na qual se referiu a Shilo como uma das possíveis "concessões dolorosas" que ele estava disposto a fazer para encontrar a paz com os palestinos. A revelação chocou a comunidade dos assentamentos. Se Shilo - capital de Israel na Antigüidade e, durante séculos, o lar bíblico da sagrada Arca da Aliança - não estava salva nas mãos de um de seus mais leais defensores, nada mais estava. Sharon disse que foi mal interpretado, mas o estrago já estava feito. "Eu não confio nem um pouco em Sharon", disse Bernstein. "Ele mostrou que pode trocar de cavalos no meio da corrida no espaço de uma semana." Shilo Shilo, onde moram hoje aproximadamente 200 famílias de judeus ortodoxos, é um dos típicos assentamentos que foram fundados sob uma motivação ideológica por judeus que queriam retornar à sua terra ancestral na Cisjordânia depois que ela foi capturada por Israel na guerra de 1967 no Oriente Médio. No entanto, esses assentamentos geralmente ficam em áreas remotas. Enquanto a maioria dos colonos poderia ser trazida para dentro dos limites do Estado judeu pré-1967 com um mínimo de ajustes, o futuro desses assentamentos que ficam longe da fronteira permanece incerto. O plano atual prevê um Estado palestino com "máxima continuidade territorial", mas, apesar da ameaça aguda à sobrevivência deles aqui, os colonos religiosos são sustentados por uma crença irremovível de que um poder maior do que George W. Bush ou Ariel Sharon está do lado deles. "Como judeus religiosos, nós temos uma atitude diferente perante o mundo", afirmou Bernstein. "Nós não tendemos a encarar os planos de paz de outras pessoas como algo muito permanente." "Se a remoção de Shilo tem que acontecer, então talvez ela acontecerá, mas não porque Sharon quis, mas pela vontade de Deus." A determinação de colonos religiosos para reafirmar sua reclamação pela terra pode ser vista pela proliferação de postos avançados no alto dos morros nos últimos anos. Enquanto o destino de Shilo e de assentamentos parecidos será determinado em algum ponto no futuro não tão distante, a batalha sobre acampamentos construídos sem apoio do governo já começou. Alguns foram removidos, apenas para serem reconstruídos e ampliados dentro de dias. Em outros lugares, o trabalho de construção se intensificou para arrumar a caixa d'água que tem problemas ou criar estruturas permanentes para o grupo de trailers enfileirados, numa tentativa de correr contra o tempo antes do plano de paz enquanto não é tarde demais. Migron Em nenhum lugar essa situação é tão aparente quanto no posto de Migron, situado no alto de um morro de onde é possível avistar a cidade palestina de Ramallah. Há 18 meses, um grupo de famílias se mudou para um lugar que até então era um inóspito pico desprotegido do vento e estabeleceu um acampamento no meio das rochas, vivendo em nada mais do que uma única fila de trailers. Hoje, Migron é o lar de 36 famílias que desfrutam da estrutura de uma pequena vila, incluindo um playground, creche, sinagoga, biblioteca e centro de saúde. Além dessa estrutura temporária, o terreno foi preparado para a construção de casas mais sólidas, um sinal de que os residentes acreditam que estão aqui para ficar. "As pessoas não querem sair", disse Mindy, que veio de Nova York. "Nós plantamos jardins, as pessoas construíram coberturas de madeira. Temos um playground para nossas crianças. Por que devemos sair?", perguntou ele. De acordo com o grupo judaico anti-assentamentos chamado Paz Agora, Migron é um dos 48 postos que foram construídos desde março de 2001 e devem ser desmantelados sob os termos do plano de paz. Conquista O grupo Paz Agora diz que Migron, assim como outros assentamentos, está tentando conquistar status legal na lei israelense, o que os colonos esperam que seja um obstáculo para sua retirada. Um posto que começou a existir como um precário acampamento e conquistou seu reconhecimento oficial é Mitzpeh Danny, uma espécie de "assentamento satélite" de Maaleh Michmash, aproximadamente 12 km ao norte de Jerusalém. O ex-primeiro-ministro Ehud Barak concedeu a Mitzpeh Danny e a outros postos clandestinos o reconhecimento legal em 1999, sob um acordo com os líderes dos colonos, apesar de o premiê ter mantido o direito de desmontar os assentamentos se no futuro isso fosse necessário para conseguir a paz com os palestinos. Quatro anos depois, a remoção de Mitzpeh Danny volta a ser negociada. Apesar da ameaça pairando sobre sua comunidade, Rami Dayan faz planos para o futuro. "Este é apenas o lugar temporário", disse ele, gesticulando entre as casas e os canteiros de legumes. "Nós queremos construir um assentamento permanente a leste daqui." Eu perguntei se ele estava preocupado com o fato de que 17 famílias que vivem aqui, incluindo a dele próprio, poderiam ser forçadas a se mover rapidamente por causa do plano de paz. "Nós não nos sentimos ameaçados pelo processo de paz", ele afirmou. "Eu acredito que esta terra é nossa e meu ponto de partida é a Bíblia." "Não nos preocupamos com o que dizem o presidente Bush e Tony Blair, com certeza. Nós apenas temos que continuar vivendo aqui e fortalecendo esse lugar. É a realidade. O que mais podemos fazer?" |
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