Viagem barata: Por que motoristas do Uber estão protestando contra a empresa no Brasil

Aplicativo Uber enfrenta protestos de motoristas por aumento de tarifa

Crédito, Fernanda Carvalho Fotos Pblicas

Legenda da foto, Aplicativo Uber enfrenta protestos de motoristas por aumento de tarifa
    • Author, Felipe Souza
    • Role, Da BBC Brasil em São Paulo

Publicitários, administradores, músicos, taxistas e comerciantes. Alguns com ensino superior e até pós-graduação. A lista de pessoas que abandonaram suas profissões e apostaram todas as fichas no Uber é vasta, mas, agora, muitos dizem se sentir enganados pela empresa, acumulam dívidas e já falam em voltar para as carreiras de origem.

O principal motivo apontado por eles é o desconto de 15% aplicado na tarifa do Uber em novembro de 2015, o que reduziu drasticamente, segundo eles, os lucros de quem trabalha para a empresa.

A adesão em massa de novos motoristas nos últimos meses também faz parte do leque de reclamações. Eles alegam que a demanda não cresceu na mesma proporção e que o número de viagens diárias por colaborador despencou.

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A BBC Brasil conversou com motoristas descontentes com a nova tarifa adotada pelo aplicativo, mas todos pediram para não ser identificados por medo de sofrer represálias. Um grupo marcou uma greve e ações para esta segunda-feira a partir das 5h em todas as cidades brasileiras onde o aplicativo funciona.

A reportagem apurou que a adesão foi pequena, mas não há detalhes oficiais. Testes feitos nas regiões leste e oeste de São Paulo durante esta manhã apontaram tempo de espera normal para chamar um veículo, de até cinco minutos.

O gerente comercial pós-graduado Artur (nome fictício) afirma que está com dificuldades para pagar as parcelas do carro que comprou há dois anos para trabalhar para o aplicativo – que liga motoristas particulares a passageiros – e se arrepende de ter deixado o antigo emprego.

"Só paguei metade das 48 parcelas de R$ 1.800 do carro. Quando entrei no Uber, eu ganhava até R$ 8 mil líquido por mês, com 12 horas de trabalho por dia. Hoje, eu levanto as mãos para o céu quando consigo tirar R$ 3 mil, mas preciso de jornadas de até 18 horas", relata.

No emprego anterior, Artur ganhava R$ 3.500 líquidos, com uma jornada de 10 horas diárias, mas recebia outros direitos trabalhistas, como 13º salário e férias. Ele conta que a carga horária de trabalho no Uber motivou até mesmo o fim de seu casamento. "Minha mulher cansou de não me ver mais em casa", disse.

A Uber informou, em nota, que redução dos preços causou um aumento da demanda e mais viagens aos motoristas. A medida, segundo a empresa, faz gerar "tanta renda quanto antes” aos motoristas porque eles "ficam menos tempo rodando entre uma viagem e outra".

Livre mercado

O professor de economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas) William Eid afirmou que a política usada pela Uber é comum na economia de livre mercado: reduzir as tarifas para aumentar seu faturamento e atrair clientes. "Agora, os motoristas se sentem prejudicados e fazem greve, mas eu vejo isso como um tiro no pé porque (a redução de tarifas) gera uma publicidade instantânea para a empresa, que vai manter a tarifa baixa para agradar seus clientes", afirmou Eid.

Motoristas do aplicativo Uber relatam queda no lucro e alguns pensam em abandonar empresa

Crédito, Getty

Legenda da foto, Motoristas do aplicativo Uber relatam queda no lucro e alguns pensam em abandonar empresa

Ele diz ainda que a relação de demanda e oferta só vai chegar a um ponto de equilíbrio e agradar ambos os lados quando as pessoas desistirem de trabalhar no Uber devido à grande quantidade de motoristas.

"O motorista do Uber hoje está insatisfeito porque ele quer comparar o serviço ao táxi. Mas ele deve se lembrar que o taxista comprou um alvará por R$ 100 mil (ilegalmente) e essa despesa afeta o lucro dele", disse.

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Os motoristas reclamam que a grande oferta de carros do Uber, principalmente a versão mais barata, leva os profissionais a esperar entre 30 minutos a duas horas para fazer uma viagem. "Fora as balas e água que compramos diariamente para nossos clientes, gastos com limpeza do carro, terno e seguro", afirmou outro motorista à reportagem.

O Uber recebe 20% de cada uma das viagens de feitas de Uber Black (veículos de luxo) e 25% do Uber X (carros populares). A BBC Brasil apurou que a empresa não pretende reduzir sua margem de lucro e também não tem planos para reajustar a tarifa atual.

Associação

Um grupo de motoristas fundou há nove meses a Amparu (Associação dos Motoristas Parceiros das Regiões Urbanas do Brasil) – a primeira do Brasil para defender motoristas do Uber. O presidente, Nelson Bazolli, afirma que a intenção deles é apenas ter mais diálogo com a empresa norte-americana.

Nelson Bazolli é presidente da primeira associação de motoristas de Uber do Brasil

Crédito, Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Nelson Bazolli é presidente da primeira associação de motoristas de Uber do Brasil

"Protocolamos diversos pedidos de reunião, mas a última reunião foi no dia 28 de janeiro. Estamos preocupados porque o motorista precisa trabalhar mais para lucrar, o que causa cansaço e pode levar a imperícias. Sem dinheiro, ele também não consegue manter o padrão exigido pela empresa e já começa a rodar com pneu careca e suspensão com avarias", afirmou Bazolli.

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Ele disse que não possui números da adesão de motoristas ao protesto desta segunda, mas condena carreatas e protestos feitos nas ruas. "Pedirmos apenas para os motoristas desligarem o aplicativo hoje (segunda-feira). Não concordamos com carreatas porque não queremos ser vistos como os taxistas", disse.

Bazolli, porém, não descarta novos protestos, "de forma mais incisiva", caso não haja negociação com o Uber.