Caso Master 'reforça impressão entre brasileiros de falta de imparcialidade' do STF, diz Economist

Crédito, Getty Images
A revista britânica The Economist publicou uma reportagem nesta semana falando que as ligações entre ministros do Supremo Tribunal Federal e pessoas relacionadas ao caso do Banco Master "reforçam a impressão entre os eleitores brasileiros de que a Suprema Corte do país carece de imparcialidade".
No texto intitulado "A quebra de um banco brasileiro envolve políticos e juízes", a revista afirma que "as consequências da liquidação do Banco Master estão ficando feias".
A revista afirma que o caso do Banco Master poderia ter terminado em novembro, com a prisão do banqueiro e CEO Daniel Vorcaro e a liquidação do Master pelo Banco Central.
"A saga poderia ter terminado ali. Mas os efeitos da falência do Banco Master vão além do setor bancário. Isso porque Vorcaro passou anos cultivando laços com a elite brasileira", afirma.
"O caso expôs ligações entre políticos, figurões do mercado financeiro e o Judiciário em Brasília, a capital, prejudicando a reputação do Supremo Tribunal Federal e do Congresso", escreve a Economist.
A revista fala sobre a inspeção ordenada pelo ministro do Tribunal das Contas da União, Jhonatan Jesus, no Banco Central por conta da liquidação do Master.
"Jesus tem ligações estreitas com o Centrão, um grupo de partidos ideologicamente fluidos que controlam o Congresso e têm um longo histórico de corrupção", diz a Economist.
Além do caso do TCU, a revista destaca outras ligações do Master com políticos e juízes: as doações do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, às campanhas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); a tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília, defendida pelo governador Ibaneis Rocha; o contrato da esposa do ministro Alexandre de Moraes para defender o Master; a viagem do ministro Dias Toffoli em mesmo avião de um advogado do Master; e investimentos de Zettel em um resort que já foi ligado à família Toffoli.
A revista destaca que não há comprovação de ilegalidades nesses casos, mas que "esses laços reforçam a impressão entre os eleitores brasileiros de que a Suprema Corte do país carece de imparcialidade".
"Para combater tais suspeitas, o novo presidente do tribunal, Edson Fachin, um juiz sóbrio que evita os holofotes, propôs que o colegiado adotasse um código de ética nos moldes do Tribunal Constitucional da Alemanha. Os colegas de Fachin zombaram da proposta", diz.
Segundo a Economist, um "claro vencedor dessa sórdida saga" é Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, "que se manteve firme contra as pressões para salvar o Banco Master".
"Galípolo pediu aos congressistas que concedam ao banco autonomia administrativa, orçamentária e financeira, além da autonomia operacional que já possui. Isso daria ao banco poderes mais robustos de supervisão sobre as instituições financeiras e um alívio das duvidosas maquinações de Brasília."
Entenda a liquidação do Master
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A liquidação do banco Master ocorreu no dia 18 de novembro, mesmo dia em que operação Compliance Zero levou à prisão de Vorcaro e de outros executivos do banco.
Em 28 de novembro, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região concedeu habeas corpus e mandou soltar Vorcaro, os ex-diretores Luiz Antonio Bull, Alberto Feliz de Oliveira e Angelo Antonio Ribeiro da Silva, além de Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do banco.
Eles são monitorados por tornozeleira eletrônica e estão proibidos de exercer atividades no setor financeiro, de ter contato com outros investigados e de deixar o país.
A quebra do Master é a maior da história do país em impacto para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — associação privada que funciona como uma espécie de sistema de garantia de depósitos, cobrindo investimentos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ (por instituição financeira) em caso de quebra de alguma instituição associada.
Segundo o FGC, 1,6 milhão de investidores do banco, que detinha R$ 41 bilhões em CDBs, poderão ser ressarcidos.
A PF investiga suspeitas de fraudes na concessão de créditos, emissão de títulos irregulares e criação de carteiras falsas — operações que, segundo os investigadores, movimentaram valores bilionários e alimentaram uma tentativa de venda da instituição ao BRB.















