As fotos de rostos de centenas de mortos vazadas à BBC em meio a brutal repressão a protestos no Irã

Manifestantes bloqueiam uma rua em Teerã (Irã), na noite de 9 de janeiro de 2026

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Manifestantes bloqueiam uma rua de Teerã, na noite de 9 de janeiro, uma das mais mortais para os manifestantes na capital iraniana até o momento
    • Author, Merlyn Thomas
    • Role, Correspondente, BBC Verify
    • Author, Shayan Sardarizadeh
    • Role, Jornalista sênior, BBC Verify
    • Author, Ghoncheh Habibiazad
    • Role, Jornalista sênior
  • Tempo de leitura: 6 min

Importante: esta reportagem apresenta conteúdo sensível sobre violência que pode ser perturbador para alguns leitores.

Centenas de fotos revelando os rostos de pessoas mortas durante a violenta repressão aos protestos contra o governo do Irã foram vazadas para a BBC Verify.

As imagens são fortes demais para serem exibidas sem serem borradas. Elas revelam os rostos sangrentos, inchados e feridos de pelo menos 326 vítimas, incluindo 18 mulheres.

As imagens foram exibidas em um necrotério localizado no sul da capital iraniana, Teerã. Elas são uma das poucas formas disponíveis para que as famílias possam identificar seus entes queridos mortos.

Muitas das vítimas estavam muito desfiguradas para serem identificadas. E 69 delas foram marcadas em idioma persa como homens ou mulheres anônimas, o que sugere que sua identidade era desconhecida quando a foto foi tirada.

Apenas 28 vítimas tinham etiquetas com nomes claramente visíveis nas fotos.

361 fotos do total de 392 vazadas para a BBC Verify. As fotos de vítimas mortas mostram imagens em close com rostos borrados.

Etiquetas encontradas em mais de 100 vítimas mostram a data da morte registrada como sendo 9 de janeiro, uma das noites mais mortíferas para os manifestantes em Teerã até o momento.

As ruas da cidade foram incendiadas durante os confrontos com forças de segurança. Os manifestantes cantaram slogans contra o líder supremo do país e a República Islâmica.

Seguiu-se uma convocação para protestos em todo o país, feita por Reza Pahlavi, o filho exilado do último xá do Irã.

As fotos vazadas oferecem um pequeno retrato das milhares de pessoas que se acredita tenham sido mortas nas mãos do Estado iraniano.

Manifestantes se reúnem nas ruas de Teerã, no Irã. No centro da imagem, um manifestante mostra uma fotografia. No lado esquerdo, o fogo queima soltando fumaça.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Manifestantes iranianos se reúnem ao bloquear uma rua durante um protesto em Teerã, na noite de 9 de janeiro
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A BBC Verify vem acompanhando a marcha dos protestos no Irã desde o seu início, no final de dezembro.

Mas o bloqueio quase total da internet, imposto pelas autoridades do país, fez com que ficasse extremamente difícil documentar a escala da violência do governo contra seus opositores.

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, reconheceu publicamente milhares de mortes, mas culpou os Estados Unidos, Israel e pessoas descritas por ele como "insurgentes".

Apesar do bloqueio à internet, que entra na sua terceira semana, um pequeno número de pessoas conseguiu enviar informações para o exterior. E centenas de imagens em close das vítimas, tiradas do interior do Centro Médico Forense Kahzirak, foram enviadas para a BBC Verify.

Analisamos 392 fotos de vítimas e conseguimos identificar 326 pessoas. Algumas tinham diversas imagens, tiradas de diferentes ângulos.

As fontes afirmam que o número real de mortos no necrotério atinge a casa dos milhares.

Uma das fontes, que deixamos de identificar para sua segurança, contou à BBC que eles não estavam preparados para o nível de devastação encontrado dentro do complexo mortuário. Ela afirmou ter visto vítimas com idades variando de 12 ou 13 anos até 60 e 70 anos de idade.

"Foi demais", descreve a fonte.

Em meio ao caos no interior do necrotério, familiares e amigos foram agrupados em torno de uma tela, segundo informações das fontes. Eles tentavam identificar seus entes queridos entre milhares de imagens de pessoas mortas que passavam pela tela.

Manifestantes marcham por Kashani, em Teerã, no dia 8 de janeiro

Crédito, Reprodução

A apresentação durou horas, segundo declararam as fontes à BBC. Elas destacam que muitas das vítimas sofreram lesões tão graves que não podiam ser identificadas.

O rosto de um homem estava tão inchado que seus olhos mal eram visíveis. Outro tinha um tubo respiratório na boca, o que sugere que ele teria morrido após receber tratamento médico.

Algumas das vítimas tinham tantos ferimentos que suas famílias pediram para ver as imagens novamente, com zoom sobre os rostos, para terem certeza de quem realmente se tratavam, segundo as fontes.

Em outras ocasiões, as pessoas reconheciam imediatamente seus entes queridos e eram vistas gritando e desfalecendo no chão.

Muitas fotos mostravam sacos de corpos fechados, com papéis próximos aos rostos. Eles eram identificados pelos nomes, números de identificação ou data da morte.

Soubemos que, em alguns casos, a única identificação era um cartão bancário depositado sobre o saco contendo um corpo. Era a única posse restante da vítima.

A BBC Verify confirmou separadamente vídeos do mesmo necrotério, que demonstram a violência perpetrada contra os manifestantes.

Um deles mostra aparentemente o corpo de uma criança e outro exibe um homem com uma clara ferida à bala no meio da cabeça. Os dois vídeos são perturbadores demais para serem exibidos.

Cidadãos iranianos vêm postando os nomes das vítimas mortas pelas forças de segurança, quando conseguem se conectar à internet através da Starlink, ou mesmo usando redes de países vizinhos. Mas estas oportunidades são incrivelmente raras.

Verificamos os nomes das vítimas identificadas no necrotério, comparando com postagens nas redes sociais que informam nomes de pessoas mortas.

Encontramos cinco coincidências. Não revelamos seus nomes porque não conseguimos fazer contato com as famílias das vítimas.

Mapa de Teerã com pontos azuis nas áreas onde vídeos verificados mostravam protestos ocorridos em 8 de janeiro e pontos vermelhos, em áreas com vídeos verificados mostrando protestos de 9 de janeiro de 2026

A BBC Verify observou, por meio de vídeos verificados, a difusão dos protestos contra o governo iraniano em 71 cidades do país, desde seu início, em 28 de dezembro. Mas o número real de áreas onde ocorreram as manifestações, provavelmente, é muito mais alto.

As poucas imagens que as pessoas conseguiram carregar pela Starlink mostram carros queimados abandonados nas ruas, enquanto os vídeos verificados gravaram baterias de tiros disparados em Teerã durante os protestos.

O bloqueio da internet fez com que ficasse extremamente difícil documentar toda a extensão da contagem de mortos nos protestos. Mas a Agência de Notícias Ativistas dos Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos, estima no momento o número de mortes em mais de 4 mil pessoas.