Trump diz que 'obliterou' alvos militares na 'ilha do petróleo' do Irã: porque Kharg é estratégica na guerra

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- Author, Da Redação
- Tempo de leitura: 5 min
O presidente Donald Trump disse que os Estados Unidos bombardearam a Ilha de Kharg, responsável por 90% do petróleo exportado pelo Irã.
A informação foi publicada por Trump na rede social Truth Social na noite desta sexta-feira (13/3), logo depois dele embarcar no Air Force One rumo à Flórida.
"O Comando Central dos Estados Unidos executou um dos bombardeios mais poderosos da história do Oriente Médio e obliterou completamente todos os alvos MILITARES na joia da coroa do Irã, a Ilha de Kharg", escreveu o presidente americano.
"Optei por NÃO destruir a infraestrutura de petróleo da ilha. No entanto, caso o Irã, ou qualquer outro país, fizer alguma coisa para interferir na passagem livre e segura de navios pelo Estreito de Ormuz, reconsiderarei imediatamente essa decisão", continuou o presidente.
Ele também pediu ao Irã que deponha suas armas e "salve o que resta do país, que não é muita coisa".
Após o anúncio de Trump, o Irã disse que qualquer ataque à sua infraestrutura de petróleo e energia levará a ataques à infraestrutura de energia pertencente a empresas petrolíferas que cooperam com os EUA na região, segundo a mídia iraniana citada pela Reuters.
A ilha de Kharg é uma pequena faixa de terra de cerca de 8 km de comprimento, localizada a aproximadamente 28 km da costa do Irã. Ela é considerada a "linha vital do petróleo" do país.
Embora tenha poucos habitantes, 90% do petróleo bruto exportado pelo Irã passa por lá.
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Grandes navios-tanque transportam o petróleo para a ilha, depois seguem pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz, e frequentemente têm como destino a China, maior consumidora do petróleo iraniano.
Há grande especulação sobre a possibilidade de as forças americanas tentarem tomar o controle da ilha, que além de interromper as exportações de petróleo do Irã, poderia servir como plataforma estratégica para ataques contra o território continental.
Na quinta-feira (12/03), o presidente Donald Trump evitou responder perguntas sobre a possibilidade de os Estados Unidos tomarem a ilha de Kharg.
Em entrevista à rádio Fox News, ele foi questionado se tinha algum plano de assumir o controle da ilha, considerando seu papel vital nas exportações de petróleo do Irã.
"Não está no topo da lista", disse Trump. "É apenas uma entre tantas coisas diferentes, e eu posso mudar de ideia em segundos."
A pergunta pareceu irritar o presidente, que repreendeu o repórter da Fox, Brian Kilmeade.
"Quem faria uma pergunta dessas e que tolo responderia a isso?", disse Trump. "Digamos que eu fosse fazer isso ou que não fosse fazer — por que eu contaria a você?"
O jornal britânico The Guardian já havia informado que os assessores do Pentágono sugeriram Trump não atacar a ilha, mas tomá-la com um objetivo claro: "Se não puderem vender o petróleo, [o Irã] não tem como financiar o regime", afirmou um dos assessores.

Israel e os Estados Unidos realizaram uma operação conjunta com mais de 200 aviões de combate e embarcações militares, atacando cerca de 5.000 alvos no Irã com a ideia de enfraquecer o regime islâmico que governa o país desde 1979.
Os ataques deixaram mais de mil pessoas mortas, incluindo pelo menos 100 meninas dentro de uma escola em Minab, no sul do Irã, bombardeada quando assistiam às aulas, em 28/2.
A ofensiva também causou graves danos em Teerã e em outras cidades importantes como Qom, Tabriz e Minab.
Mas o fato da ilha não ter sido atacada até então pelos Estados Unidos chamava a atenção de analistas de conflitos.

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Em entrevista à BBC News Mundo — serviço em espanhol da BBC —, antes do ataque, Neil Quilliam, especialista em Oriente Médio do centro de estudos britânico Chatham House, pontuou que tanto os EUA quanto Israel sabem que, se causarem algum dano na ilha, "o prejuízo em termos energéticos seria irreversível".
Quilliam também disse que, com o fechamento do Estreito de Ormuz, um ataque a um ponto tão vital para a economia global seria pouco eficaz em termos estratégicos.
"O Irã é o 4º produtor de petróleo do mundo. Os preços do petróleo já estão atingindo níveis recordes, um resultado inesperado para os EUA quando iniciaram esse conflito".
Segundo o analista, o preço do barril gira em torno de US$ 120 (cerca de R$ 620) e um ataque à ilha de Kharg poderia elevá-lo para cerca de US$ 150 (aproximadamente R$ 775).
"E não seria um preço que depois cairia rapidamente", observou o especialista.
A histórica ilha de Kharg
Desde os tempos do Império Persa, há mais de 2 mil anos, essa pequena ilha desempenha um papel estratégico no Golfo.
Durante algum tempo, por possuir fontes de água, virou um porto importante para o intercâmbio comercial de alimentos e outros produtos na região.
A ilha de Kharg esteve sob domínio português e holandês nos séculos 16 e 17, quando consolidou sua reputação como porto de trocas comerciais impulsionado pela administração da Holanda.
No século 20, foi sede de uma prisão de segurança máxima e foi ali que se descobriu uma de suas principais vantagens: próxima à costa iraniana, a ilha possui águas profundas perfeitas para a navegação de petroleiros, ao contrário das águas rasas da costa.
Então, na década de 1950, durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlavi, começou a construção de um centro de armazenamento e distribuição de hidrocarbonetos, que logo se tornou o principal ponto de exportação do país.
De fato, parte da infraestrutura da ilha pertenceu a empresas americanas, que operaram ali até a Revolução Islâmica de 1979.

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De acordo com relatórios do Ministério do Petróleo do Irã, as instalações na ilha de Kharg funcionam como parte fundamental da indústria nacional.
O terminal recebe petróleo bruto dos três principais campos marítimos do Irã — Aboozar, Forouzan e Dorood — transportado por meio de uma complexa rede de tubulações e dutos submarinos. Na ilha, o petróleo é processado para exportação.
Estima-se que por esse terminal circulem cerca de 1,3 milhão de barris de petróleo por dia. E o local tem capacidade de armazenamento de 18 milhões de barris.
Devido à sua importância no mercado energético, não foi declarada alvo militar durante as incursões tanto dos EUA quanto de Israel. Ainda assim, foi alvo de ataques durante o conflito com o Iraque nos anos 1980.
*Com informações de Alejandro Millán Valencia, da BBC News Mundo.



























