Carinho e banhos demais, companhia e atividades de menos: o que faz mal e o que faz falta para o bem-estar do seu cão

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- Author, Mônica Vasconcelos
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
- Tempo de leitura: 7 min
Seu cachorro é bonitinho, é fofinho, então você quer agarrá-lo e enchê-lo de carinho. Mas talvez fosse melhor você tratar seu cão como tratamos os gatos, e esperar que ele se aproxime para então oferecer seu afago.
Você quer fazer o melhor pelo seu cão, e isso inclui levá-lo pelo menos uma vez por mês ao pet shop para um banho com direito a muita paparicagem. Mas banhos podem ser extremamente estressantes para o seu cachorro. E dependendo da raça, talvez só sejam recomendados, (pasme!) uma vez por ano.
Você sai para trabalhar e deixa seu cachorro sozinho em casa. Deixa água, deixa comida. E acha que ele vai ficar tranquilo, esperando a sua volta. Só que cachorros, assim como seres humanos, precisam de companhia e atividades.
Onde você pode estar exagerando e o que pode estar faltando para o bem-estar do seu cão?
A BBC News Brasil conversou com a médica veterinária especializada em manejo de comportamento canino Ana Luísa Lopes. Ela compartilha, a seguir, algumas dicas.
Deixe seu cão decidir se quer ou não um afago
Com mestrado pela University of Lincoln, no Reino Unido, Lopes trabalha com dor e comportamento agressivo em cães.
Ela conta que uma parte importante do que faz é ensinar seus clientes humanos a entenderem a linguagem corporal de seus cachorros.
"Com frequência, deixamos de perceber sinais sutis por meio dos quais os animais expressam seu desconforto", explica.
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Cafunés, diz, são um bom exemplo.
Muitas vezes, o responsável pelo animal decide que quer pegar o cachorro no colo a todo custo, "como a Felícia", diz Lopes, referindo-se à personagem do desenho animado Looney Tunes, que com frequência é vista amassando bichinhos com arroubos de carinho.
"O animal quer sair, está tentando sair, e a pessoa força. Eu quero te dar beijo, quero te apertar, te abraçar."
O cachorro rosna, mas a pessoa continua. O rosnado não está adiantando, então o cachorro morde, prossegue a veterinária.
"Aí, a pessoa briga e bate no animal. Mas foi ela quem criou aquela situação", ressalta.
"Então, existem esses sinais sutis de desconforto. Uma lambida no próprio focinho, uma lambida no lábio. Ou, sabe aquele gesto que fazemos com a boca quando sentimos um gosto ruim?", ela prossegue, ilustrando a observação com o som que produzimos quando pressionamos a língua contra o céu da boca. "Eles fazem isso."
A veterinária dá mais alguns exemplos de linguagem corporal que revelam o desconforto no cão: "Um bocejo, o sacudir. Ou virar o rosto. Vamos supor que eu esteja de frente para o animal. Ele vira, desviando o olhar. Ou ele simplesmente sai de perto."
É importante ficarmos atentos a esses sinais, diz. E deixarmos os animais à vontade.
"Assim como a gente faz com os gatos, deveríamos dar ao animal a oportunidade de fazer a escolha. Às vezes, o animal vai estar ali, deitado ao seu lado. Você vai fazer o carinho nele e tudo bem, ele vai estar ali por livre e espontânea vontade."

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Opte por banhos de 'baixo estresse' e na frequência adequada
Banhos são um cuidado que, embora bem intencionado, pode trazer grande desconforto ao seu cão, explica Lopes.
"As pessoas partem do pressuposto de que raças mais peludinhas, como um lulu da Pomerênia, um maltês, um shih tzu, tem que ir tomar banho no pet shop e, portanto, o animal vai ficar super bem e já nasceu adaptado a esse tipo de situação."
Não é o caso, diz a veterinária. Ela explica que precisa ser feito um trabalho de adaptação do animal ao banho. E que esse processo deve ser feito de forma individualizada, por pessoas treinadas, que entendam de comportamento animal e saibam reconhecer sinais de desconforto.
"Também é importante que esse profissional esteja apto a trazer momentos mais prazerosos para esse animal durante o banho", diz Lopes.
"Hoje existe o que a gente chama de banho de baixo estresse — porque não tem como a gente dar um banho de zero estresse para o animal."
A ideia é gerar sensações positivas no animal durante o banho.
"Por exemplo, na hora de secar. Às vezes, o cachorro não gosta do barulho do secador. Então, o profissional que observou isso vai transformar esse momento em um momento de muita brincadeira, em um momento em que o animal vai ganhar muito petisco. E esse animal vai, sim, perceber o barulho do secador, mas não vai ser tão ruim."
"A gente traz essa emoção positiva de uma forma mais aflorada nesse momento e deixa a emoção negativa que antes era a principal, em segundo plano."
Lopes diz, no entanto, que no Brasil é muito difícil encontrar pet shops que trabalhem dessa forma.
A veterinária comenta, inclusive, que não aprova o uso, por alguns estabelecimentos, de banheiras ofurô. "Aquelas banheiras fundas, de madeira, que parecem um balde grande", explica.
"As pessoas acham isso bonitinho, só que se a gente partir do ponto de vista do animal, aquilo ali é extremamente estressante para ele, porque ele está em um lugar contido, com muita água e ele não tem nada para fazer. Então, o cachorro que fica ali bonitinho não necessariamente está curtindo. Às vezes, ele está congelado e extremamente desconfortável, sabe?"
O número de banhos também é um ponto a ser considerado, diz Lopes.
"É importante que o cachorro tome banho, mas, muitas vezes, não na frequência como fazemos."
Para animais de pelo longo, em alguns casos, o banho é indicado a cada 15 ou 20 dias, recomenda.
"Agora, para o animal de pelo curto — e isso é até um pouco polêmico — a gente diz quanto menos banho, melhor. A indicação é uma vez por ano, já é suficiente."
"Mas tem famílias que levam esses animais em trilhas, fazendas, e o animal acaba se sujando mais. Aí, o banho mais frequente acaba se tornando necessário."

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Não deixe seu cão sozinho durante muitas horas
A próxima dica da veterinária Ana Luísa Lopes tem a ver com o número de horas que o seu cachorro fica sozinho em casa. O assunto dá margem a muita polêmica, ela admite. E a orientação varia muito de país para país.
"Hoje, no Brasil, é comum as pessoas saírem para trabalhar e deixarem os animais 10, 12 horas sozinhos em casa", diz Lopes. "Mas na Inglaterra, por exemplo, é considerado maus tratos deixar o animal sozinho por mais de quatro horas."
Lopes explica que em sua clínica recomenda aos clientes que contratem um pet sitter ou um passeador.
"(Essa pessoa) vai no meio do dia e faz uma atividade com esse animal, seja um passeio, seja uma atividade de brincadeira, só para que esse animal não fique tanto tempo sozinho dentro de casa."
Ela acrescenta que as visitas do pet sitter cumprem um papel importante também no processo de adaptação de animais a um novo lar.
"Em situações de animais recém-adquiridos ou adotados, as pessoas esquecem que esse tempo de 10, 12 horas que ele passa sozinho vai ser um período em que esse animal não vai ter alguém ali, orientando", diz.
"Aí, é comum que esses animais destruam os móveis, façam xixi e cocô em lugares errados, e muitas vezes isso gera um desconforto tamanho que as pessoas acabam devolvendo esses animais."
"De novo, colocamos os animais nessa situação e não gostamos do resultado", comenta Lopes.
Dê ao seu cão brinquedos para ele destruir
Além de companhia e atenção, outra coisa que pode estar faltando para o seu cão, segundo Lopes, são objetos para ele destruir.
"Reclamamos por esse animal destruir a nossa casa, mas isso é um comportamento que é natural da espécie. Então, temos de direcionar o animal para o (objeto) que a gente quer que ele destrua, e não simplesmente querer acabar com esse comportamento — porque não vamos conseguir fazer isso."
Mas antes de darmos ao cachorro o objeto que ele vai "brincar de destruir", é preciso entender a individualidade desse animal, explica Lopes.
"Por exemplo, se esse animal está destruindo uma porta de madeira, ele tem necessidade de brinquedos muito duros, de roer um brinquedo duro."
"Se esse animal está cavando o jardim da casa, (é preciso) entender que o cavar é um comportamento natural. Em vez de brigar com o cachorro, disponibilize um espaço onde ele possa realizar esse comportamento."
Tentar reprimir comportamentos naturais do seu cão pode trazer resultados adversos, explica a especialista.
"Se a gente tenta tirar o comportamento desse animal, vão surgir outros problemas", diz Lopes.
"A gente vai começar a ter um animal que late mais dentro de casa, um animal que fica muito agitado, um animal que vai gerar uma demanda de atenção maior no dia-a-dia. Não porque ele seja um animal chato, bobão. Mas porque a gente não está deixando ele expressar os comportamentos que são naturais dele, sabe?"















