Documentos liberados pelos EUA trazem detalhes sobre repressão no Brasil

Crédito, Ag. Brasil
- Author, Alessandra Corrêa
- Role, De Nova York para a BBC Brasil
Um documento do Departamento de Estado dos EUA de abril de 1973 menciona o "dramático aumento" nas prisões de "suspeitos subversivos" feitas pelo Exército brasileiro na região do Rio. Essa é apenas uma das centenas de informações presentes em um lote de 43 documentos divulgados nesta quarta-feira pela Comissão Nacional da Verdade.
Os papéis em questão trazem dados compilados pelo Consulado-Geral dos EUA no Rio datado de 18 de abril de 1973.
"Em sua maioria estudantes universitários, os detidos estão sendo sujeitos a um intenso sistema psicofísico de coação projetado para extrair informação sem provocar dano visível e duradouro ao corpo", diz um documento.
"Aqueles suspeitos de serem terroristas, dizem, continuam sendo submetidos aos métodos mais antigos de violência física que às vezes causam a morte."
Segundo o texto, haveria duas explicações cogitadas pelos cariocas para o aumento no número de prisões. Uma é de que seria resultado de prisões anteriores, já que os detidos estariam "dedurando" outros. Outros cariocas, porém, recusariam essa tese. Jornalistas, advogados de direitos humanos e membros da Igreja Católica creditavam o aumento à uma “manobra” política às vésperas da sucessão do presidente Emílio Médici.
Esses documentos foram entregues ao Brasil no mês passado, durante encontro do vice-presidente americano, Joe Biden, com a presidente Dilma Rousseff, em Brasília.
Um porta-voz do Departamento de Estado disse à BBC Brasil que os documentos entregues por Biden ao Brasil são apenas um primeiro lote, e que o trabalho de liberação de documentos até então confidenciais deverá levar mais de um ano, "por causa do potencial volume de documentos relevantes".
O Departamento de Estado diz que um projeto especial foi criado para esse trabalho, tratado como prioridade.
Tortura
De acordo com a Comissão da Verdade, dos 43 documentos, 18 eram inéditos. Todos foram produzidos entre janeiro de 1967 e dezembro de 1977, com base em dados colhidos por representantes do governo americano no Brasil.
O lote divulgado inclui diversos documentos que mencionam informações sobre técnicas de tortura usadas contra prisioneiros.
Um memorando de outubro de 1970 traz o depoimento de um cidadão americano que ficou detido durante três dias no DEOPS de São Paulo. Segundo o americano, seus companheiros de cela relataram ter sido submetidos a tortura.
"O 'pau de arara' foi um método usado. Outro era submeter a vítima a choques elétricos em diversas partes do corpo, inclusive nos órgãos sexuais", diz o texto.
Há ainda documentos com informações sobre atuação de esquadrões da morte, relações da Igreja com o Estado, e alguns casos específicos, como as reações ao sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969.
Segundo a Comissão da Verdade, os documentos estão sendo analisados por seus pesquisadores.
A comissão investiga violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, como foco principal no regime militar (1964 a 1985). O grupo deve apresentar um relatório final até dezembro.
A liberação dos documentos pelos Estados Unidos era uma reivindicação desde que a comissão foi criada.
A expectativa é de que esses documentos ajudem a esclarecer detalhes sobre a repressão durante o regime militar.












