Por que Relógio do Juízo Final está mais perto da hora da destruição do que nunca

Jon Wolfsthal, diretor de risco global da Federação de Cientistas Americanos (FAS), Asha George, diretora executiva da Comissão Bipartidária de Biodefesa, e Steve Fetter, professor de políticas públicas e ex-reitor da Universidade de Maryland, revelam a posição do ponteiro dos minutos em seu Relógio do Apocalipse

Crédito, REUTERS/Kevin Fogarty

Tempo de leitura: 5 min

O Relógio do Juízo Final, que simboliza o quanto a humanidade está perto da destruição, avançou três segundos no último ano, chegando a 85 segundos para a meia-noite, o mais próximo que já esteve da marca que indica o fim do mundo.

O Boletim de Cientistas Atômicos (BAS, por sua sigla em inglês), que ajusta o relógio anualmente, diz que os principais impulsionadores desse avanço são o comportamento agressivo de países que são potências nucleares, como Rússia, China e Estados Unidos, o enfraquecimento do controle das armas nucleares.

Também pesam os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio e o avanço da inteligência artificial, que já é conhecida por seus prejuízos ao meio ambiente.

O relógio foi ajustado para sete minutos para a meia-noite em 1947. Em 2020, os ponteiros marcaram 100 segundos. Em 2021 e 2022, permaneceram na mesma marca, mas em 2023 foram adiantados para 90 segundos, onde permaneceram em 2024, até diminuir um segundo em 2025 e, agora, voltar a se aproximar da meia-noite.

Em 1991, com o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética assinaram o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start), o primeiro a prever cortes profundos nos arsenais de armas nucleares estratégicas de ambos os países.

A medida levou o boletim a atrasar o relógio em 17 minutos para a meia-noite. Esse foi o ponto mais distante que os ponteiros chegaram.

Esse pacto expira no dia 5 de fevereiro.

O presidente russo, Vladimir Putin, propôs que os países observassem por um ano as regras criadas pelo acordo, que limita o número de ogivas nucleares implantadas de cada lado a 1.550. O presidente americano, Donald Trump, não respondeu.

Leonard Riese, Presidente do Conselho do Boletim dos Cientistas Atômicos em 1991

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Em 1991, o relógio foi atrasado para 17 minutos antes da meia-noite, o mais longe que esteve da destruição desde a Segunda Guerra Mundial, de acordo com o BAS
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Há 75 anos, os cientistas responsáveis pelo Relógio do Juízo Final publicam, no Bulletin of the Atomic Scientists ("Boletim dos Cientistas Atômicos", em tradução livre), sua conclusão anual de quanto tempo falta para que os ponteiros do Relógio do Juízo Final indiquem meia-noite.

Todos os anos, o anúncio destaca a complexa teia de riscos catastróficos enfrentados pela humanidade, incluindo armas de destruição em massa, colapsos ambientais e tecnologias problemáticas.

Em 2025, o Boletim de Cientistas Atômicos alertou que a guerra na Ucrânia — agora entrando em seu terceiro ano desde a invasão russa — "poderia se tornar nuclear a qualquer momento devido a uma decisão precipitada, acidente ou erro de cálculo".

"O conflito no Oriente Médio ameaça sair do controle e levar a uma guerra maior sem aviso prévio."

O grupo de cientistas também disse que "as perspectivas a longo prazo para as tentativas do mundo de lidar com as mudanças climáticas continuam ruins, com a maioria dos governos falhando em promulgar as iniciativas financeiras e políticas necessárias para deter o aquecimento global".

A criação do Relógio

Em 1939, Albert Einstein e Leo Szilard alertaram o presidente dos Estados Unidos de que uma única bomba nuclear poderia destruir um porto inteiro.

Apesar do alerta dos cientistas, as preocupações levantadas pela carta acabaram levando à criação do Projeto Manhattan, que, poucos anos depois, produziria armas capazes de destruir cidades — e, em escala maior, ameaçar a própria civilização.

Desde os primeiros testes, cientistas envolvidos no projeto demonstraram preocupação com o poder dessas armas.

Embora temores iniciais, como o de que uma explosão pudesse incendiar a atmosfera, tenham sido descartados, muitos pesquisadores mantiveram fortes reservas éticas sobre o uso da tecnologia que ajudaram a criar.

Albert Einstein e Leo Szilard

Crédito, Alamy

Legenda da foto, Em 1939, Albert Einstein e Leo Szilard escreveram para o presidente dos Estados Unidos alertando sobre os perigos nucleares

Após a primeira fissão nuclear controlada, em 1942, os cientistas se dividiram entre centros como Los Alamos e a Universidade de Chicago. Muitos deles, especialmente imigrantes que conheciam os vínculos entre ciência e política, passaram a se organizar para tentar evitar uma corrida armamentista.

Em 1945, participaram da elaboração do Relatório Franck, que alertava para os riscos de uma escalada nuclear e se opunha a um ataque surpresa contra o Japão. As recomendações foram ignoradas.

Poucos meses depois de Hiroshima e Nagasaki, eles fundaram o Boletim dos Cientistas Atômicos, com sede em Chicago, com o objetivo de informar o público e pressionar governos.

O grupo ajudou a consolidar o chamado "tabu nuclear" — a ideia de que o uso dessas armas é moralmente inaceitável.

Em 1947, ao transformar o boletim em revista, os editores encomendaram à artista Martyl Langsdorf um símbolo para a capa. Ela criou o Relógio do Juízo Final, representando o quão perto a humanidade estaria da autodestruição — e a possibilidade de recuar, caso houvesse mobilização pública.

Em 1949, após o primeiro teste nuclear da União Soviética, o relógio foi ajustado de sete para três minutos para a meia-noite.

Em 1953, com a detonação das primeiras bombas termonucleares por Estados Unidos e URSS, avançou para dois minutos — o ponto mais próximo da meia-noite no século 20.

O que os ponteiros realmente medem?

Uma interpretação comum é que o Relógio do Juízo Final indica o nível de risco existencial enfrentado pela humanidade.

Alguns especialistas tentaram quantificar isso. Em 2003, o cosmólogo Martin Rees, então astrônomo real do Reino Unido, afirmou que a chance de a civilização sobreviver ao século 21 era de "no máximo 50%".

Um banco de dados organizado por um pesquisador da Universidade de Oxford reúne hoje mais de 100 estimativas semelhantes, feitas por cientistas e filósofos. Mas esses números são projeções de longo prazo — não retratos do risco imediato.

Para muitos observadores do Relógio, porém, o que os ponteiros medem não é o tamanho do perigo, e sim a eficácia da resposta humana a ele.

Isso ajuda a explicar por que a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, amplamente considerada o momento mais próximo de uma guerra nuclear, não levou o Relógio a avançar. Já a assinatura do Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, em 1963, fez os ponteiros recuarem cinco minutos.