A campanha internacional para salvar o campo de futebol usado por crianças palestinas que Israel ameaça demolir

- Author, John Sudworth
- Role, BBC News
- Reporting from, de Belém, Cisjordânia
- Tempo de leitura: 8 min
Um clube de futebol infantil palestino na Cisjordânia (ocupada por Israel) enfrenta uma demolição iminente, apesar de uma campanha internacional para salvá-lo. Os seus apoiadores afirmam que o clube oferece uma oportunidade esportiva única para os jovens jogadores palestinos.
No entanto, Israel insiste que o clube foi construído sem as permissões necessárias.
Nesta terra profundamente dividida, são muitos os motivos de disputa: desde a identidade e as crenças das pessoas que vivem aqui até cada centímetro do território que pisam.
Recentemente, isso passou a incluir um pequeno campo de futebol de grama sintética instalado à sombra do gigantesco muro de concreto que isola Israel de grande parte da Cisjordânia ocupada.

No contexto dos ataques de 7 de outubro de 2023, da guerra de dois anos em Gaza e da fragilidade do atual cessar-fogo, sem dúvida há problemas muito mais urgentes.
Mas esta é uma história carregada de simbolismo, que atraiu atenção internacional desproporcional devido à conexão que tem com outra religião universal: o futebol.
No dia da nossa visita, um grupo de crianças palestinas formava fila para cobrar pênaltis sob o sol do inverno.
A construção do campo de futebol começou aqui, nos arredores de Belém, em 2020, e hoje oferece um local de treino para mais de 200 jovens jogadores do campo de refugiados de Aida, nas proximidades.

Crédito, Getty Images
As ruas estreitas e lotadas abrigam casas de descendentes de famílias palestinas que foram obrigadas a deixar seus lares ou que fugiram durante a guerra árabe-israelense de 1948.
Em 3 de novembro de 2025, as crianças, enquanto caminhavam do campo de refugiados para o treino diário, encontraram um aviso pregado na porta do campo de futebol declarando sua ilegalidade.
Pouco depois, o aviso foi seguido por uma ordem de demolição.
"Não temos outro lugar para jogar", me disse Naya, de 10 anos, vestindo uma camiseta do Brasil com o nome de Neymar nas costas.
"Aqui construímos nossos sonhos", afirmou. "Se eles demolirem nosso campo, demolirão nossos sonhos."
O problema do muro

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Perguntei a outro jovem jogador, Mohammed, qual foi sua reação ao saber que o clube estava prestes a ser demolido.
"Eu fiquei muito mal", me disse. "Este é um campo pelo qual tenho muito carinho".
A comunidade reagiu, publicando vídeos nas redes sociais, lançando uma petição que já reuniu centenas de milhares de assinaturas e recebendo mensagens de apoio internacional.
O clube afirma que, após a intervenção de um advogado, recebeu recentemente uma prorrogação de sete dias.
Mas essa prorrogação expirou na segunda-feira (19/01), deixando a todos ali diante de uma decisão difícil.
Como é habitual nesses casos, os proprietários do clube devem demolir o campo por conta própria ou esperar que as autoridades israelenses o façam à força, sendo que depois eles receberão a conta.
A proximidade do muro, que percorre um dos lados do campo, é apenas uma das muitas complexidades da ocupação israelense do território que os palestinos reivindicam como base para um futuro Estado.
Militarmente, Israel exerce controle sobre toda a Cisjordânia.
Mas o controle administrativo, a sua governança diária, está dividido entre áreas administradas por palestinos e outras por israelenses.
Acordos de Oslo
Os mapas que servem de base para essas distinções foram elaborados como parte central dos Acordos de Oslo, assinados na década de 1990 por Israel e pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP).
A Cisjordânia foi dividida em três categorias de território.
As Áreas A e B eram zonas sob controle civil da Autoridade Palestina (AP).
Nas áreas marcadas como Área A, os palestinos também tinham controle de segurança nominal.
A Área C — mais de 60% do total — deveria permanecer temporariamente sob controle total israelense.
A ideia era que, com o tempo, o território fosse gradualmente transferido ao autogoverno palestino à medida que as negociações avançassem.

Embora isso nunca tenha acontecido, e ambas as partes se culparam mutuamente pelo fracasso do processo de paz, os mapas continuam sendo a base de grande parte da administração atual da Cisjordânia.
Belém está designada como Área A.
Mas os mapas mostram que Israel exerce autoridade civil sobre a Área C em grande parte do território ao redor, até os limites da cidade.
A vida atrás do muro

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Israel começou a construir seu muro de concreto no início dos anos 2000, diante de uma onda de atentados suicidas e outros ataques perpetrados por palestinos, que causaram a morte de centenas de israelenses.
Críticos afirmam que, à medida que se expandiu, o muro se tornou uma ferramenta para punir milhares de palestinos comuns, os separando de seus locais de trabalho, dividindo suas comunidades e anexando de fato partes de seu território.

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Mas o que agora está em disputa em Belém é uma pequena e estreita faixa de terreno do lado palestino do muro.
Para os moradores do campo de Aida, que buscavam um espaço para construir um campo de futebol, era grande o suficiente para atender às suas necessidades.
Mas, para Israel, continua sendo, e assim aparece nos mapas, parte da Área C, apesar de a construção do muro tê-lo deixado isolado no lado de Belém.
Imagens de satélite mostram que o espaço estava vazio em 2019 e, ano após ano, é possível observar como o campo de futebol começou a tomar forma, encaixando-se perfeitamente ao lado do muro.
A ordem de demolição alega que ele foi construído sem as permissões necessárias em um terreno sobre o qual Israel ainda exerce controle civil total.
Para os palestinos, é irônico que lhes seja negado o direito de construir um pequeno campo de futebol na periferia de sua cidade, dentro do muro que os confina.
Enquanto rejeita os pedidos de licença e segue demolindo construções existentes, Israel continua aprovando a construção de vastos assentamentos israelenses na Área C, considerados ilegais segundo o direito internacional.
Em setembro passado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, assinou um acordo para impulsionar um assentamento grande e altamente controverso, que abrigará 20 mil israelenses.
Localizado entre Jerusalém Oriental ocupada e o assentamento já existente de Maale Adumim, se concluído, dividiria de fato a Cisjordânia em dois, o que, segundo os palestinos, praticamente aniquilaria suas aspirações de ter um Estado próprio.
Israel concorda.
"Não haverá um Estado palestino", disse Netanyahu na cerimônia de assinatura. "Este lugar nos pertence."
Alguns de seus ministros falam abertamente sobre a anexação total da Cisjordânia.
Em Belém, o clube de futebol, que afirma ter recebido permissão verbal em 2020 para o campo, acredita que a ameaça de demolição vai muito além da regulamentação urbana.

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'Dificultar a vida de propósito'
"Os israelenses não querem que tenhamos qualquer esperança, não querem que tenhamos qualquer oportunidade", disse Mohammad Abu Srour, um dos membros do conselho do Centro Juvenil Aida.
A ideia, disse Srour, é tornar a vida deles deliberadamente difícil.
"No momento em que perdermos a esperança e as oportunidades, iremos embora. Essa é a única explicação para nós."
Entramos em contato com o órgão israelense que administra os assuntos civis na Cisjordânia para obter comentários.
Embora a ordem de demolição tenha sido emitida em nome deles, nos encaminharam ao Exército israelense, que supervisiona suas atividades.
As Forças de Defesa de Israel (FDI) forneceram a seguinte declaração:
"Ao longo da cerca de segurança, existe uma ordem de confisco e uma proibição de construção; portanto, a construção na área foi realizada ilegalmente", diz o comunicado.
Enquanto aguardam os desdobramentos, as crianças de Aida confiam que a atenção internacional seja suficiente para fazer as autoridades mudarem de ideia.
Mas, por enquanto, enquanto o conflito continua, o futuro de um pequeno campo de futebol está por um fio.















