Conheça a bailarina que tramou a derrubada do governo do Panamá

Fonteyn e o marido Ricardo Arias (foto: Getty Images)
Legenda da foto, Fonteyn ajudou marido em golpe frustrado

Foi uma das tentativas de golpe de Estado mais estranhas da história, descrita por alguns diplomatas como uma "comédia atrapalhada". E no centro de tudo estava uma famosa bailarina e seu marido panamenho, tentando derrubar o governo do pequeno país na América Central.

A história é agora recapitulada por uma amiga do casal, a ex-modelo britânica Judy Tatham, hoje com 87 anos e vivendo na Itália. Em uma rara entrevista sobre o tema, ela relembrou os detalhes do caso ao programa Witness, da BBC.

O ano era 1959 e a bailarina britânica Margot Fonteyn era casada com o panamenho Ricardo 'Tito' Arias. Filho de um ex-presidente do Panamá, ele fazia parte de uma família liberal que se opunha ao regime autoritário do então presidente Ernesto de La Guardia.

"Margot achava que o marido ia virar presidente e que ela seria a rainha do Panamá", diz Judy. "O papel dela era romântico; e o meu era de ajudar uma amiga."

Camisas verdes

Num dia de abril daquele ano, as duas amigas e Ricardo tomavam café da manhã em Nova York quando a bailarina fez um estranho pedido.

"Você pode me conseguir umas camisas?", Margot perguntou à modelo, dizendo que queria as roupas em tamanho pequeno, médio e grande. A conversa foi ficando mais estranha. "Preciso de 500 camisas verdes", prosseguiu a bailarina, acrescentando que precisava também de braçadeiras que pudessem ser usadas sobre as camisas.

Judy Tatham (foto: BCC)
Legenda da foto, Judy Tatham foi amiga e cúmplice da bailarina

Nem Margot nem o marido explicaram o porquê do pedido: "Ninguém falou em revolução, e eu era educada demais para perguntar", Judy explica.

Mesmo sem saber o que estava sendo tramado, Judy disse que queria ser parte do plano. Tito sugeriu que a modelo fosse ao Panamá e levasse todo o material com ela.

Judy fez as malas e partiu para o Panamá sem saber como passaria com toda a carga solicitada pela alfândega. A solução veio por acaso: passeando por uma loja de departamentos, Judy viu umas caixas de absorventes femininos, comprou uma e enfiou as camisas e as braçadeiras dentro dela.

O plano deu certo: nenhuma autoridade teve coragem de parar a então bela modelo e perguntar para que ela precisava de tantos absorventes.

Depois de passar pelo controle aeroportuário sem ser perturbada, Judy rumou para a casa da família de Tito. Sem saber o destino de Margot, a amiga foi passear pelo país com o marido da bailarina, comeu em restaurantes rústicos, sem nunca ouvir menção a golpe nenhum.

Mas Rosário, irmã de Ricardo, levantou o assunto sem contar toda a história. "Você ouviu falar de uma revolução? Bem, não se preocupe. Derrubar presisdentes é a especialidade de nossa família," disse ela.

A amiga voltou a Nova York e só muito tempo depois soube do destino final dos uniformes e braçadeiras e do envolvimento de Margot com o suposto golpe.

Golpe cômico

Arquivos confidenciais da diplomacia britânica, divulgados em 2010, descrevem como uma "comédia atrapalhada" o ocorrido em 21 de abril de 1959 e relatam a surpreendente detenção de Margot Fonteyn na Cidade do Panamá.

A bailarina e o marido, a bordo de seu luxuoso iate, deveriam ter desembarcado e coletado munição e pessoal, para tomar o controle de uma importante rodovia panamenha.

Margot Fonteyn (foto: BBC)
Legenda da foto, Fonteyn (acima, no Lago dos Cisnes) e Judy acabaram se afastando

Mas eles foram denunciados por um grupo de pescadores e tiveram de fugir.

Quando Margot foi presa, Tito ainda estava desaparecido.

Ao mesmo tempo, estudantes que deveriam dar início a uma rebelião na capital foram desmobilizados antes de pegar em armas. Para completar o golpe cômico, rebeldes que seriam mandados de Cuba por Fidel Castro nunca chegaram.

Margot foi libertada com a ajuda do embaixada britânica e colocada num voo para os Estados Unidos. Telefonou para a amiga do aeroporto, mas não contou o que tinha acontecido. Com a insistência dos diplomatas britânicos em Nova York, as duas foram mandadas de volta a Londres.

"Eu fui tirada do avião pela porta do piloto enquanto ela teve que encarar a imprensa", relembra Judy. Imagens da época mostram a serena bailarina rindo da insistência dos repórteres em busca de informações sobre o envolvimento dela e do marido no golpe frustrado.

Judy nunca mais voltou aos Estados Unidos, onde tinha amigos, apartamento e emprego. A amizade com Margot acabou pouco tempo depois de elas voltarem para casa - as duas nunca mais se viram. A bailarina e o marido voltaram a viver no Panamá, onde Margot morreu em 1991, aos 71 anos.

Mais de meio século depois, Judy prefere não julgar a ex-amiga. "Margot não tinha nenhuma imaginação – e não podia, portanto, imaginar o que deu errado na tentativa de golpe. Para ela, parecia que tudo não passava de uma brincadeira, uma espécie de aventura. Ela achou tudo muito divertido – e eu também."