Como foi a 'primeira guerra da história', na região do atual Irã

Crédito, Domínio Público
- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 15 min
Arcos e flechas, lanças, espadas de bronze e organização tática, com movimentos calculados e ações planejadas. Desentendimentos que muitas vezes levavam à morte acompanham a humanidade desde sempre, apontam especialistas.
Mas foi o início do que se convencionou chamar de civilização que trouxe a ideia de brigas organizadas, com esforços coletivos buscando vencer o grupo inimigo.
As guerras, portanto, nasceram com a civilização.
Localizar no mapa o cenário dessas primeiras guerras é olhar para a região conhecida como Crescente Fértil, extensa área do Oriente Médio na Mesopotâmia e arredores.
Foi nessa área que os seres humanos começaram a dominar técnicas de agricultura e criação de animais, inaugurando um modo sedentário que propiciou o surgimento das cidades.
Se por um lado a organização sob um poder também implicava pensar em estruturas de defesa, por outro, esforços também passaram a ser empenhados em conquistar mais riquezas e terras melhores — de preferência, com mais acessos hídricos.
Segundo pesquisas do historiador britânico aposentado John Baines — que até 2013 lecionou na Universidade de Oxford —, há indícios de que conflitos entre cidades ocorriam com certa frequência por volta do ano 3000 a.C., na região onde hoje estão o Iraque e o Irã.
Em seu livro Guerra: O Horror da Guerra e Seu Legado para a Humanidade, o historiador e arqueólogo britânico Ian Morris situa a criação dos primeiros exércitos minimamente organizados nessa mesma época, na mesma região.
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O problema, contudo, é que faltava um elemento: o registro destas guerras.
Com a invenção da escrita, dominada pelos sumérios mais ou menos nesse período, começaram a surgir os primeiros textos abordando batalhas.
A Suméria foi uma civilização que se espalhou pela região sul da Mesopotâmia entre as idades do Cobre e do Bronze, ou entre o ano 3300 e o ano 1200 a.C..
Ao longo de cerca de 250 anos, entre os anos 2600 e 2350 a.C. duas cidades-Estado deste povo, Lagas e Uma, travaram uma guerra — a primeira de que se tem registro escrito.
No total, há 18 inscrições, todas elas deixadas em tabletes de argila por governantes de Lagas.
Para a história, essa seria a primeira guerra da humanidade: um conflito organizado e sistemático entre dois Estados e com documentação a respeito.
"Datamos a 'história' do momento em que o homem começou a escrever ou, mais precisamente, de quando ele deixou traços do que reconhecemos como escrita", situa o historiador britânico John Keegan (1934-2012) em seu livro Uma História da Guerra.
"A história da guerra começa com a escrita", define ele.
Para a historiadora Katia Pozzer, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde coordena o Laboratório de Estudos da Antiguidade Oriental, não é possível datar a primeira guerra. Mas é possível dizer que, em determinado momento há documentação escrita sobre guerras.
"Há muita documentação que nos revela que a guerra foi uma realidade onipresente no mundo mesopotâmico", diz Pozzer.
"No imaginário mesopotâmico, o saber fazer a guerra fazia parte dos atributos do mundo civilizado".
Estrutura militar
Morris arrisca que os primeiros exércitos de soldados disciplinados, "que se dispõem a engalfinhar-se e matar o inimigo quando recebem a ordem", ou mesmo "a tomar de assalto altos muros, apesar do óleo fervente, das chuvas de pedra e de flechas", coincidem com a mesma época em que despontaram os governos centralizados.
Isto seria por volta do ano 3.300 a.C., no Oriente Médio. A partir de então, as guerras começavam a ser resolvidas em batalhas campais, em incursões planejadas e cercos.
Em seu livro, ele compara pinturas rupestres de 10 mil anos atrás com uma relevo sumério esculpido por volta do ano 2500 a.C.
No primeiro caso, há a representação de um bando de homens disparando flechas e arremessando lanças uns aos outros. No outro, uma fileira organizada e densa, aparentemente disciplinada de soldados munidos de elmos, lanças e grandes escudos, sob a liderança de um comandante — o então rei de Lagas.
Lagas e Uma ficavam separadas por cerca de 30 quilômetros. E a briga tinha uma razão objetiva: o controle de uma área fértil na fronteira entre ambas chamada de Gu Eden Na — algo como "a borda da planície".
Quando Uma se apossou desse espaço, passou a dominar o fluxo de água que abastecia Lagas, já que as águas fluíam de lá para a cidade vizinha.
Houve uma tentativa de resolver a questão por meios diplomáticos, escalando a questão para a arbitragem de um rei que exercia poder em toda a região sul da Mesopotâmia. Este deu ganho de causa a Lagas. Mas, sem a anuência do governante de Uma, o aval real só serviu para fundamentar uma guerra.
"Foi uma disputa entre fronteiras que acabou desembocando em guerra", sintetiza o jornalista Reinaldo José Lopes, autor do livro Homo Ferox: As Origens da Violência Humana e o que Fazer para Derrotá-la.
"As motivações parecem ter sido essencialmente territoriais e econômicas, sobretudo a disputa por áreas agrícolas férteis e canais de irrigação que eram vitais para a produção agrícola em uma região dependente do controle das águas", contextualiza o geógrafo e cientista político Gunther Rudzit, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing.
"O desfecho imediato foi a vitória de Lagas e a imposição de condições sobre Uma, incluindo o pagamento de tributos e a definição de fronteiras, embora o conflito entre as duas cidades tenha continuado em diferentes momentos ao longo das gerações seguintes."
Lagas conseguiu dominar Gu Eden Na. A paz, contudo, não veio. Gradualmente, o conflito acabou envolvendo outros povos da região, com tropas do reino de Hamazi, de parte do atual território do Irã, e o do reino de Uruque, então a maior potência da região.
O penúltimo capítulo dessa sucessão de batalhas veio com as vitórias de Lugalzaguesi, governante de Uma que acabou se tornando rei da Suméria. Este, enfim, tem sua hegemonia quebrada pelo rei Sargão da Acádia, da cidade-Estado de Quis, que no derradeiro conflito da série derrotou Lugalzaguesi e fundou um império regional, submetendo Uma e Lagas, entre outras cidades, ao seu controle.
"Aparentemente, ele foi o primeiro que empreendeu uma guerra mais ampla com o objetivo de conquistas de expansão territorial por via militar. Quebrou o paradigma da cidade-Estado para construir um império onde ele exercia a hegemonia política num território vasto formado por diversas cidades-Estado", explica Pozzer.

Crédito, Universidade de Oxford
Sargão da Acádia era tão poderoso que, conforme aponta Morris, chegou a ter um exército permanente de 5,4 mil homens.
"Seus súditos forneciam comida, lã e armas para que seus soldados pudessem treinar em tempo integral", diz o arqueólogo.
O pesquisador acrescenta que um dos textos políticos mais antigos do mundo que sobreviveu até hoje vem desses episódios.
Nele, um rei afirmava que, por conta da vitória bélica que o havia feito conquistar a cidade, tinha "libertado os habitantes de Lagas da usura, de administrações onerosas, de fome, roubo, assassinato e sequestro". Ele escreveu que havia fundado "a liberdade".
Segundo Morris, o personagem histórico autor do relato, Urucaguina, "é uma figura nebulosa, parcialmente perdida na névoa do tempo". Mas entendia o valor de investir nessa mensagem, já que produziu um registro de propaganda dos seus feitos de guerra.
O contexto sumério
O historiador John Keegan acredita que guerras não tenham sido muito comuns do início da civilização sedentária até esse período dos conflitos sistemáticos entre Lagas e Uma. Em primeiro lugar, porque a densidade populacional do mundo ainda era baixa.
Embora o número de habitantes do mundo tenha passado dos 5 ou 10 milhões em 10000 a.C. para talvez 100 milhões em 3000 a.C., em pouquíssimos lugares havia alta densidade populacional.
"Os caçadores-coletores precisavam de 2,5 a dez quilômetros quadrados de território para sustentar cada indivíduo. Os agricultores podiam sustentar-se e a suas famílias em extensões muito menores", escreve.
"Nessas circunstâncias tão rigorosas e contudo tão amplas, a necessidade de lutar não deve ter sido forte. A terra era efetivamente livre para qualquer um que quisesse andar uns poucos quilômetros e queimar alguma floresta", argumenta Keegan.
Além disso, segundo ele, a produção devia ser tão baixa que pouco compensaria organizar saques, a não ser que fossem "imediatamente após a colheita".
Mesmo assim, as dificuldades de transportar o produto, em tempos ainda de ausência de animais de tração e transporte, falta de estradas e até mesmo de recipientes, inviabilizariam a eficácia da ideia.
Dado esse cenário, o pesquisador britânico acredita que a região do Crescente Fértil era a que melhor reunia os ingredientes para o desenvolvimento da guerra.
"Nos milênios em que o homem estava aprendendo a plantar e colonizar as terras vazias do Oriente Médio e da Europa, havia uma única região que produzia grandes excedentes expostos à predação por vias de acesso que favoreciam os movimentos rápidos", contextualiza.
Tratava-se da planície aluvional dos rios Tigre e Eufrates, conhecida dos historiadores antigos como Suméria.

Crédito, Poniol/ Wikimedia Commons/ Creative Commons
Segundo o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie, vem daí a complexidade de uma estabilidade nessa região. "Porque é uma região na necessidade de recursos hídricos e territoriais com uma mistura muito grande de povos e etnias", analisa.
"É dos sumérios que temos as primeiras provas seguras da natureza da guerra na aurora da história escrita e que podemos começar a perceber os traços da guerra 'civilizada'", completa Keegan.
Não foi uma habilidade desenvolvida do dia para a noite. O pesquisador Morris comenta que aqueles que começaram a cultivar cevada e trigo nos flancos montanhosos do sudoeste da Ásia, por volta de 9500 a.C., eram "nitidamente combatentes de baixa tecnologia, desorganizados".
"Tudo o que os arqueólogos têm recuperado de seus túmulos e assentamentos sugere que lutavam mais ou menos do mesmo jeito que as sociedade agrícolas mais simples observadas pelos antropólogos no século 20", afirma. "Suas armas mais mortíferas eram lâminas de pedra lascada."
Segundo Morris, eram combates sem tática. Eles atacavam e fugiam, conforme o ânimo.
"Raramente conseguiam estender suas campanhas por mais de alguns dias, pois logo ficavam sem comida", explica.
Sua conclusão é de que não eram povos guerreiros. Seus movimentos de batalha eram desordenados. Quando se juntavam para vencer algum grupo inimigo, constituíam linhas irregulares com poucas dezenas de homem, mal-posicionados.
A luta podia durar o dia todo ou ser interrompida por qualquer motivo: o anoitecer, a hora de comer, o fato de alguém ter se ferido ou até mesmo a chuva.
Keegan lembra que os humanos que deram origem ao povo sumério quando se estabeleceram na planície aluvial do Iraque "ousaram deixar a linha divisória das chuvas no sopé dos morros circundantes — onde estão hoje a Síria, a Turquia e o Irã — e começaram a experimentar a plantação de grãos e a criação de animais em terras sem florestas".
"A Mesopotâmia — a terra entre os rios — oferecia ricas vantagens para os colonos", ressalta.
Não à toa, por volta de 3000 a.C. as sociedade de irrigação sumérias já estavam organizadas em cidades-Estados, de base teocrática.
Os sacerdotes-reis tinham um poder emanado da propriedade — uma riqueza oriunda da agricultura com irrigação natural.
O rendimento era impressionante para a época: a cada grão plantado, 200 grãos eram colhidos. Havia excedente.
Era uma geografia privilegiada, considerando o acesso hídrico. Rios sazonais garantiam o cultivo. Montanhas ao leste e ao norte viravam refúgios para a população, com vales tributários dos grandes rios.
"Os efeitos políticos dessa geografia são fáceis de descrever: as cidades sumérias começaram desde cedo as disputas por limites, água e direitos de pastoreio, todos sujeitos aos caprichos das enchentes. Os reis sumérios também logo viram sua autoridade desafiada pela chegada de imigrantes dos montes que fundavam suas próprias cidades", resume o historiador Keegan.

Crédito, Metropolitan Museum of Art
Segundo ele, entre 3100 e 2300 a.C., a guerra dominou cada vez mais a vida da Suméria.
Os primeiros registros escritos demonstram uma mudança causada por esse clima bélico: os reis deixam de ser sacerdotes e passam a ser guerreiros militares. Isto é percebido pela substituição gradual de suas nomenclaturas, com a saída do prefixo "en", que indicava "sacerdote", e a entrada de "lugal", "grande homem".
Pozzer explica que a própria ideia de um rei naquele contexto era o de alguém que sintetizasse a devoção às divindades, a provedoria dos alimentos e o papel heroico do guerreiro.
"A motivação [para guerrear] era a busca por territórios com maior riqueza, ou seja, com rios e terras férteis", diz Pozzer.
Ao mesmo tempo, a sociedade suméria foi aprimorando as técnicas de metalurgia, desenvolvendo armas melhores. E os combates passaram a ser melhor organizados.
Como eram as batalhas
Historiadores reconstituem como eram aquelas batalhas a partir de hipóteses cujos pontos de partida são o desenvolvimento tecnológico de que aquelas pessoas dispunham no período e vestígios arqueológicos com inscrições e gravuras. Não há muito mais do que isso à disposição.
Morris comenta que este é o desafio quando se debruça sobre civilizações antigas que construíram grandes monumentos, supervisionaram elaboradas redes comerciais e promoveram padrões de vida ascendentes, mas continuaram pré-letradas. A escrita, afinal, era parca, lacônica e rara.
"Os exércitos eram constituídos com tropas permanentes, que asseguravam as missões ditas essenciais, como manutenção da ordem, observação das fronteiras e escolta, não só da comitiva real como também de caravanas de mercadores de longa distância", diz Pozzer.
"Também havia os soldados que efetuavam um determinado tempo de serviço, em missões, e depois eram desmobilizados."
De acordo com o historiador André Leonardo Chevitarese, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, guerras na antiguidade já tinham organização tática, com linhas de soldados montadas em fileiras, uma atrás da outra.
E entre as estratégias, ele lembra que além dos ataques em si, também se faziam cercos, cortando fluxo de água e impedindo a entrada de alimentos na localidade inimiga.
Havia alguns combinados de conveniência. Pozzer conta que na antiguidade, não se costumava guerrear em qualquer época do ano no Oriente Médio.
"Levavam em consideração as condições climáticas", afirma.
"No período das cheias, era muito difícil que as tropas se locomovessem. Eles evitavam conflitos militares nessa época. A população devia estar ocupada com o cultivo."
"As guerras da antiguidade já reuniam muitos elementos que são utilizados até hoje, como infantaria e cavalaria", afirma Missiato. "Os exércitos já eram organizados."
"Desde a Antiguidade já se vê divisão tática de alguma maneira", pontua Lopes, citando a alternância entre lanceiros com escudos, arqueiros e o desenvolvimento de práticas de cerco para tentar derrubar as muralhas de uma cidade.
Rudzit lembra que na antiguidade já havia liderança militar clara. Reis, chefes tribais ou comandantes eram responsáveis por organizar as forças, planejar as campanhas e coordenar os combates.
Em civilizações mais complexas, como as da Mesopotâmia, havia sinais de hierarquia, disciplina e divisão de funções.
A evolução tecnológica das armas é um capítulo à parte na história da humanidade. Keegan recupera o história lembrando que os primeiros instrumentos de pedra feito pelos ancestrais mais remotos, ainda na pré-história, eram tão rudimentares que "não poderiam ser utilizados como armas de caça e, portanto, certamente não o foram como armas de guerra".
Mas na sequência desses seixos lascados, os hominídeos conseguiram aprimorar o suficiente suas habilidades para chegarem a "pontas grandes de instrumentos e lâminas longas e finas, afiadas, quando preciso, dos dois lados".
Eram as primeiras armas "realmente de caça, a lança de ponta para atirar ou enfiar e a machadinha para desmembrar as carcaças abatidas" — isso tudo entre 10 mil e 15 mil anos atrás.
No início do Neolítico, ou seja, por volta de 10 mil anos atrás, ocorreu o que Keegan chama de "uma revolução na tecnologia das armas". Foram quatro "novas armas tremendamente poderosas". A humanidade havia inventado o arco, a funda, a adaga e a clava.
No livro The Origins of War: From the Stone Age to Alexander the Great, o historiador norte-americano Arther Ferrill, professor na Universidade de Washington, analisa pinturas das cavernas desse período e nota que nelas já é possível vislumbrar algumas raízes de táticas de batalha, com formações de grupo.
Mas as armas só ganhariam em eficiência e letalidade com o domínio dos metais. Aos poucos, os soldados passaram a contar não só com arcos, flechas, lanças e pedras. Também tinham espadas, adagas e escudos.
"A siderurgia avançou muito por conta das guerras", lembra Missiato.
Keegan lembra que materiais arqueológicos sumérios do terceiro milênio a.C. trazem representações de soldados com capas e saiotes "que parecem reforçados com peças de metais", naquilo que seriam protótipos de armaduras, "embora devessem ser muito ineficazes".
Também aparecem bigas de quatro rodas puxadas por cavalos. Escavações também descobriram restos de elmos de metal que provavelmente eram vestidos por cima de gorros de couro.
"Os elmos são de cobre, o primeiro metal não precioso que o homem aprendeu a trabalhar", pontua.
"Não tem muita utilidade militar, pois é facilmente penetrado, se usado como proteção para o corpo em forma de folha, e perde rapidamente seu fio, se batido para transformar-se em arma."

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Mas era questão de tempo até que eles dominassem a técnica de combinar cobre com estanho para, assim, produzir o resistente bronze.
"No final do terceiro milênio essa técnica já estava disseminada e, na Mesopotâmia, os trabalhadores em metais estavam atarefados inventando a maioria dos métodos de sua atividade, dos quais dependemos ainda hoje, inclusive fundição de minério, moldagem, ligação e soldadura", diz Keegan.
Desta época é o machado, por exemplo.
"Lança e arco e flecha são coisas muito antigas, existem desde o paleolítico. Espadas aparecem na Idade do Bronze [de 3300 a 1200 a.C.] e vão ficando mais populares com o domínio do metal", contextualiza Lopes.
Para ele, a "grande revolução militar" data também dessa era do Bronze. "É o uso do cavalo para combate", afirma.
No início, ainda não como montaria. Os animais, geralmente em duplas, puxavam carros de guerra: uma plataforma com um condutor e um guerreiro que normalmente manejava um arco para alvejar os adversários.
"Costumava varrer os inimigos. Eram os tanques de guerra de então", diz Lopes.
Também era preciso provocar e chocar o inimigo.
"Uma arma de guerra que era muito eficaz era o terror. Por exemplo, a prática da decapitação dos soldados inimigos. Era algo disseminado para mostrar às pessoas", conta Pozzer. "Um elemento de terror psicológico."
Antes de Lagas e Uma
Mas além do registro escrito em si, o que qualificaria uma guerra? O que definiria uma guerra em tempos tão antigos — diferenciando-a de um conflito pontual ou um desentendimento mais trivial, ainda que violento, entre grupos humanos?
"Tem muito de arbitrário em como definir uma guerra", comenta Lopes.
"A rigor, seria um conflito letal com mortes entre dois grupos. Mas arbitrariamente, só é guerra quando há confrontos entre Estados ou dentro de organizações estatais."
Para Rudzit, o conceito ainda implica liderança reconhecida, preparação para o combate, uso sistemático da força e objetivos que ultrapassam um incidente pontual, "como conquistar território, controlar rotas comerciais, impor tributos ou afirmar autoridade política."
Chevitarese diz que uma guerra nessa época pressupunha a invasão de territórios. "Tomar áreas de pastagem ou levar violência ao inimigo ou vizinho. Isso era motivo para detonar uma guerra", comenta.
"Mas a noção de guerra como nós pensamos parte da existência de Estado. Ou seja: para definirmos como guerra, precisamos estar falando de um estágio civilizatório com Estado constituído".
O historiador Missiato acredita que, para se qualificar como guerra, o conflito precisa ter aspectos territoriais e políticos: a conquista do espaço e a dominação do inimigo.
Arqueólogos confirmam, todavia, um indício de violência entre aglomerações humanas muito anterior a este período do primeiro registro escrito de uma guerra. Trata-se da invenção das fortificações: as mais antigas cidades muradas de que se tem registro.
É o caso de Jericó, no vale do rio Jordão, na atual Palestina. Seus habitantes ergueram uma torre — "intimidadora", como pontua Morris — e a cercaram por volta do ano 8000 a.C..

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Mas o pesquisador argumenta que não há consenso entre historiadores e arqueólogos de que essa construção tivesse "funções militares".
Keegan não parece ter dúvidas: "Depois das escavações de Jericó [a descoberta arqueológica é dos anos 1950], ficou claro que pelo menos a guerra — pois para que serviriam muralhas, torres e fossos sem um inimigo fortemente armado, bem organizado e decidido? — começara a perturbar o homem muito antes do surgimento do primeiro grande império", afirma o historiador.
Para ele, trata-se do caso mais impressionante, pois foi cercada por um muro contínuo de três metros de espessura na base, quatro metros de altura e cerca de 650 metros de circunferência.
Ele observa que como essa proteção foi feita de pedra, e não de barro, isso indica um "intenso e coordenado programa de trabalho". Para o pesquisador, trata-se de "uma verdadeira fortaleza fortificada, à prova de tudo, exceto o ataque prolongado com máquinas de cerco".
Já o assentamento de Çatalhoyük, que existiu do ano 7500 a 5600 a.C. na atual Turquia tinha, segundo Keegan, "as paredes de fora das casas mais externas" feitas em "face contínua, sem aberturas, de forma que mesmo que um intruso fizesse um furo nelas, ou no telhado, ele se encontraria não dentro da cidade, mas de uma única peça da casa".
Também na atual Turquia, Mersim ganhou uma fortificação por volta do ano 4300 a.C. Uruque, na Suméria, no ano 3100 a.C.


























