Guerra no Irã pode fazer Kim Jong-un temer pelo futuro da Coreia do Norte?

Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, veste terno cinza e camisa branca e aparece ao centro, com fundo vermelho que mostra a bandeira do Irã e edifícios destruídos.

Crédito, BBC / Andro Saini

Legenda da foto, A Coreia do Norte condenou rapidamente os ataques como uma "guerra de agressão injustificável"
    • Author, Sangmi Han
    • Role, BBC News na Coreia
    • Reporting from, Seoul
  • Tempo de leitura: 7 min

Kim Jong-un deve estar tendo pensamentos complexos depois que os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra contra o Irã.

A Coreia do Norte condenou rapidamente os ataques como uma "guerra de agressão injustificável". Afinal, o Irã e a Coreia do Norte mantêm desde 1979 uma "aliança de sangue antiamericana" e, posteriormente, construíram uma parceria no desenvolvimento de mísseis.

O Irã também é o principal destino das exportações de armas norte-coreanas, segundo um ex-diplomata da Coreia do Norte ouvido pela BBC sob condição de anonimato.

No entanto, analistas apontam dois fatores que colocam a Coreia do Norte em uma posição muito mais vantajosa do que o Irã: seu arsenal nuclear e o apoio da China.

Em 2003, durante a Guerra do Iraque, o então líder Kim Jong-il desapareceu por 50 dias. Segundo a inteligência sul-coreana, ele passou a maior parte desse período escondido em um bunker no complexo de Samjiyon, a cerca de 600 km da capital, Pyongyang.

Em contraste, seu filho e sucessor, Kim Jong-un, não evitou a exposição pública, mesmo após o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, ter sido morto nos ataques.

Essa resposta diferente, de certa forma, reflete a crescente confiança da Coreia do Norte em sua própria força, afirma Jang Yong-seok, ex-diretor da equipe de análise da Coreia do Norte do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul.

'Uma espécie de potência nuclear'

Um míssil de cruzeiro estratégico de longo alcance é lançado no escuro durante um exercício da Coreia do Norte em dezembro de 2025

Crédito, AFP / KCNA VIA KNS

Legenda da foto, A Coreia do Norte tem realizado testes de mísseis com frequência sob Kim Jong-un

A Coreia do Norte é, na prática, um Estado nuclear — e até o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em 2025 que o país era "uma espécie de potência nuclear", com "muitas armas nucleares".

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Segundo um relatório de 2025 do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), a Coreia do Norte possui cerca de 50 ogivas nucleares e material suficiente para produzir outras 40. Em julho de 2024, a Coreia do Sul alertou que a Coreia do Norte estava nos "estágios finais" de desenvolvimento de uma arma nuclear tática, de menor alcance e destinada ao uso em campo de batalha.

No ano passado, o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, também afirmou que a Coreia do Norte estava próxima de desenvolver um míssil balístico intercontinental capaz de atingir o território continental dos EUA com uma ogiva nuclear — embora ainda haja dúvidas sobre o sistema de orientação do míssil e sua capacidade de proteger a ogiva durante a reentrada na atmosfera.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou que o Irã possui "um programa nuclear muito amplo e ambicioso", mas disse não ter visto evidências de um "programa estruturado para fabricar armas nucleares".

Após o acordo nuclear histórico de 2015, o Irã concordou em impor restrições adicionais ao seu programa de enriquecimento de urânio. As inspeções da AIEA também foram ampliadas, o que ajudou a desacelerar o programa nuclear iraniano, afirma Jang Ji-hyang, especialista em Oriente Médio do Instituto Asan de Estudos Políticos.

Mas, após a retirada unilateral de Trump do acordo, em 2018, o Irã passou a limitar o acesso da AIEA às suas instalações nucleares. A agência afirmou, em um relatório confidencial, que o país interrompeu toda a cooperação após a guerra com Israel em junho de 2025, segundo a agência Associated Press.

No entanto, a Coreia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear em 2006 e, três anos depois, expulsou todos os inspetores da AIEA. Desde então, conduziu mais cinco testes nucleares, sendo o último em 2017.

À esquerda, Kim Jong-un, em um terno escuro estilo “Mao”; à direita, Trump, de terno preto e gravata vermelha. Os dois líderes sorriem e apertam as mãos diante das bandeiras dos EUA e da Coreia do Norte

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Trump e Kim tiveram um encontro histórico em Singapura em 2018

Na época, a Coreia do Norte demonstrava interesse em se aproximar dos EUA, o que levou a dois encontros históricos entre os líderes dos dois países, em 2018 e 2019. Kim buscava o fim das sanções internacionais e ofereceu desmontar a usina nuclear de Yongbyon. Mas Trump queria mais, e as negociações acabaram fracassando.

Hoje, a Coreia do Norte parece mais confiante. A guerra na Ucrânia aproximou o país da Rússia, que fornece cooperação econômica e militar considerada essencial, afirma Jenny Town, que lidera o programa sobre a Coreia no centro de estudos americano Stimson Center.

Ainda assim, Trump e Kim parecem ter uma boa relação pessoal, com o presidente americano elogiando o líder norte-coreano até recentemente, no ano passado.

Kim reconhece "oportunidades únicas ao lidar com Trump", mas não pretende "fazer concessões para reativar essa relação", diz Town.

Mesmo assim, a Coreia do Norte não atacou diretamente Trump ao condenar a guerra no Irã. E, no congresso do partido realizado no mês passado, o país afirmou que manteria uma boa relação com os EUA se seu status fosse respeitado — deixando, na prática, a porta aberta para o diálogo.

China, Rússia e 'reféns nucleares'

A geografia também joga a favor da Coreia do Norte, pois o país faz fronteira com a China, que o vê como um importante escudo contra os EUA e seu aliado, a Coreia do Sul. Além disso, caso o regime norte-coreano colapse, a China pode enfrentar um grande fluxo de refugiados.

Por isso, historicamente, a relação entre os dois países comunistas tem sido descrita próxima "como lábios e dentes". Desde 1961, a China se comprometeu a proteger a Coreia do Norte em caso de invasão, por meio de um tratado de defesa mútua — o único desse tipo assinado pela China.

Isso não significa que a China veja a Coreia do Norte como um aliado perfeito, já que a expansão de seu arsenal nuclear desestabiliza a região. A China pode não ver com bons olhos, também, o fortalecimento dos laços entre Pyongyang e Moscou, especialmente depois que os dois países assinaram um acordo de defesa em 2024, segundo Jang Yong-seok, pesquisador visitante da Universidade Nacional de Seul (Coreia do Sul).

Ainda assim, ele afirma: "A Coreia do Norte tem importância estratégica para a China… E a China é muito firme em seus interesses estratégicos, e Kim Jong-un sabe disso."

Um mapa mostrando China, Coreia do Norte, Coreia do Sul e Japão, com a localização das capitais Pyongyang, Seul e Tóquio

A Coreia do Norte também mantém a Coreia do Sul e o Japão como "reféns nucleares" devido à proximidade geográfica, afirma Jang, do Instituto Asan.

As duas Coreias são separadas apenas pela zona desmilitarizada, que tem cerca de 250 km de extensão e 4 km de largura, com suas capitais distando cerca de 200 km entre si.

Isso significa que a área metropolitana de Seul, que inclui Incheon e a província de Gyeonggi, está ao alcance direto de ataques norte-coreanos, diz Jang, ex-integrante do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul.

"É questionável se a Coreia do Sul conseguiria interceptar mísseis como Israel, os EUA ou outros países do Oriente Médio", acrescenta.

O Japão também está dentro do alcance direto de ataque da Coreia do Norte, que frequentemente lança mísseis no Mar do Japão durante seus testes.

A Coreia do Sul e o Japão juntos abrigam cerca de 80 mil tropas dos EUA, enquanto aproximadamente 50 mil militares americanos estão estacionados no Oriente Médio.

A guerra no Irã provavelmente reforçou, na visão de Kim, a percepção de que Ali Khamenei estava "desamparado por não possuir armas nucleares" e de que negociações com os EUA não garantiriam a sobrevivência do regime, afirma Ellen Kim, do centro de estudos Korea-US Economic Institute, sediado em Washington D.C. (EUA).

Town concorda. "A Coreia do Norte pode ter sofrido muito ao longo dos anos para desenvolver sua capacidade de dissuasão nuclear, mas, em momentos como este, Kim Jong-un certamente acredita que tomou a decisão certa, sabendo que os riscos de atacar um país com armas nucleares são altos demais para serem uma opção viável."

*Reportagem adicional e edição de Grace Tsoi e Mark Shea; foto principal de Andro Saini, da East Asia Visual Journalism; mapa: East Asia Visual Journalism.