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Países pobres querem que Brasil 'se abra' para liderar grupo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Delegados de países que participam da 11ª Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), em São Paulo, querem que o discurso brasileiro em defesa dos países em desenvolvimento seja acompanhado por uma maior abertura do mercado nacional aos produtos de seus países. "É fundamental para o progresso efetivo de todos a incorporação ao sistema multilateral de comércio de setores em que os países em desenvolvimento são mais competitivos", declarou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no discurso de abertura da conferência. Mas, para alguns países, enquanto o Brasil reclama que não tem acesso aos mercados dos países desenvolvidos, fecha seu mercado com barreiras protecionistas a produtos de nações menos desenvolvidas. O embaixador de Bangladesh em Genebra, Toufiq Ali, reclama que o Brasil sobretaxou há cinco anos suas importações de juta, um dos principais produtos de exportação desse país do sul da Ásia, que tem 147 milhões de habitantes e renda per capita de US$ 360 ao ano, quase 13% da renda per capita brasileira. "Apenas dois países abriram investigações antidumping e sobretaxaram produtos de Bangladesh: Índia e Brasil. Nós somos insignificantes para esses dois mercados", protesta Ali. "Se isso é um exemplo de como o Brasil vai tratar os demais membros da nossa comunidade, receio que vocês não poderão exercer a liderança que desejam." Idéias e ações O embaixador pede uma "mudança de mentalidade". Ele teme que grandes países em desenvolvimento, como Brasil, África do Sul, Índia e China, estejam reproduzindo no comércio entre nações emergentes as mesmas divisões existentes nas relações Norte-Sul. "O governo brasileiro, apesar de populista, tem idéias muito interessantes. E, se o presidente Lula quiser ser a voz do mundo em desenvolvimento, o Brasil tem que refletir realmente as preocupações dos países emergentes, não apenas as suas próprias", avalia o embaixador bengalês. "O Brasil tem recursos, capacidade tecnológica e estatura internacional para transformar idéias em ações, mas deve levar os países mais fracos consigo." Para o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, as críticas de que o Brasil se comporta como um país rico e protecionista dentro do grupo dos países em desenvolvimento não têm fundamento. Como exemplo, ele cita que o governo brasileiro, "pela primeira vez", vai promover a importação de produtos dos países andinos. "Não tenho dúvidas de que vai haver a integração da América do Sul. Melhor que seja pelas via legais do que através do contrabando e do tráfico de drogas", avalia Amorim. "E, se nós comprarmos produtos agrícolas deles, por exemplo, depois venderemos equipamentos agrícolas. É melhor crescermos juntos." Voz necessária O chanceler brasileiro afirmou que o Brasil não teme a competição dos países menos desenvolvidos. "Entendemos que eles precisam mais do nosso mercado do que precisamos deles." Entre alguns representantes africanos, a iniciativa brasileira é mais bem vista, mas os delegados dizem que ainda há espaço para melhoras.
"O Brasil, como uma grande potência econômica, pode falar em nome do Terceiro Mundo e dar o exemplo, investindo no Terceiro Mundo e abrindo o mercado para o comércio Sul-Sul", diz Edward Rugumayo, ministro de Turismo, "Nós até precisamos disso, mas também queremos que Brasil, África do Sul, China e Índia abram seus mercados", pede o ministro de Uganda. Elogios Em tom mais diplomático, o ministro do Comércio de Angola, Vitorino Rossi, classifica a liderança brasileira como positiva. "É uma voz audível e com credibilidade", define Rossi. O ministro de Angola, entretanto, reconhece que as relações comerciais podem ser mais estreitas. "Em termos de barreiras e tarifas, a situação é satisfatória, mas pode ser melhorada. A cooperação Sul-Sul tem que ser positiva e congregar as vontades de todos os países, para termos um equilíbrio entre aqueles que estão em diferentes estágios de desenvolvimento." Para Rossi, não é a falta de acesso a mercado, mas a baixa qualidade de produto e falta de assistência que impede a entrada de mercadorias angolanas no Brasil. Mas os comentários dos delegados não se resumem a críticas. A liderança brasileira é bem vista por Filipinas e Canadá. "O Brasil sempre foi um líder do mundo em desenvolvimento e acho que é um papel bem reconhecido", diz Enrique Manalo, embaixador filipino em Genebra. "Não sei se ele representa o Terceiro Mundo como um todo, mas o Brasil é um macrocosmo que reflete as condições que temos em nossos países numa escala muito maior. Por isso é muito fácil nos identificarmos com o Brasil." Assumindo seu papel O diretor de política econômica da Agência Internacional de Desenvolvimento do Canadá, Mark Gawn, acredita que o Brasil tem um papel fundamental na defesa dos interesses do mundo em desenvolvimento. "Já era hora de o Brasil assumir seu papel. Apreciamos principalmente a maneira como o presidente Lula está se aproximando dos demais países em suas viagens", afirma Gawn. Para ele, as visitas à China e Índia foram importantes passos diplomáticos. Gawn acredita que essas iniciativas dão mais espaço para o Brasil nas discussões mundiais e que o governo brasileiro representa os anseios do mundo em desenvolvimento. Mas, segundo o representante canadense, o mais importante é o amadurecimento brasileiro. "É acima de tudo uma voz brasileira. Estamos vendo o Brasil tomar seu devido lugar no cenário mundial", avalia Gawn. Ciclo vicioso Discursos à parte, mesmo que as barreiras comerciais entre os países em desenvolvimento caiam da noite para o dia, algo que os diplomatas são unânimes em dizer que não é possível, essas nações ainda terão que enfrentar a falta de infra-estrutura em transportes. O transporte de mercadorias entre Brasil e África, por exemplo, atualmente tem que ser feito via Europa ou Estados Unidos. O chanceler Celso Amorim disse que um dos méritos de reuniões como a Unctad é ser um foro de discussões que aproxima os países e propicia, mais tarde, o surgimento de novas iniciativas. "A infra-estrutura preocupa, mas em algum momento vamos ter que quebrar esse ciclo vicioso de 'não ter comércio porque não tem transporte' e 'não ter transporte porque não tem comércio'. Mas não é tudo tão rápido Como exemplo, o diplomata citou a abertura de vôos comerciais entre Brasil e África do Sul, que passaram de dois para oito por semana. |
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